Dezessete não é só o número de urna do Partido Social Liberal (PSL). Também foi, neste mês de março, o dia de uma radical mudança no comando da agremiação no Espírito Santo: conforme oficializado nesta terça-feira (17), o empresário Amarildo Lovato entregou a presidência estadual do PSL para o deputado estadual Alexandre Quintino, não por espontânea vontade, mas por determinação direta do presidente nacional do partido, o deputado federal Luciano Bivar. Uma mudança que vai muito além de mera troca de nomes, podendo acarretar também profundas transformações na posição ocupada pelo ex-partido de Jair Bolsonaro no tabuleiro político-eleitoral do Espírito Santo.
Quintino no lugar de Lovato (o qual, há menos de dois meses, já substituíra Manato) significa, na prática, mudanças na postura mantida pela bancada do partido na Assembleia, na interface com o governo Casagrande e, no plano mais imediato, em seu quadro de pré-candidatos às prefeituras municipais no Estado. Significa que, por incrível que pareça, o PSL pode se aproximar da base do governo Casagrande – algo que soaria absolutamente inverossímil até dois meses atrás. Significa que o PSL pode até apoiar a candidatura do deputado estadual Fabrício Gandini (Cidadania) a prefeito de Vitória.
E, antes de mais nada, significa que o deputado estadual Capitão Assumção, definitivamente, não terá legenda no PSL, seu atual partido, para disputar eleição alguma este ano, muito menos a prefeito de Vitória. O mesmo vale para o Subtenente Assis na disputa pela Prefeitura de Cariacica, para Jonas Nogueira na disputa em Cachoeiro e para outros pré-candidatos a prefeito que, muito embora filiados ao PSL, têm suado a camisa para ajudar na coleta de assinaturas visando à fundação do Aliança pelo Brasil, futuro partido do presidente Bolsonaro, de quem Bivar, mais que desafeto, tornou-se inimigo político.
Só para exemplificar, no evento realizado em Vitória em 29 de fevereiro – espécie de “pré-lançamento” do Aliança –, a advogada Karina Kufa, tesoureira da futura sigla – no momento, enfrentando o coronavírus –, declarou aos apoiadores do presidente que o “PSL tornou-se inimigo do Brasil”, tamanha a animosidade entre os dois grupos resultantes da cisão entre Bivar e Bolsonaro.
Nesse espólio, Quintino está do lado de Bivar, de quem é o novo pupilo e porta-voz em terras capixabas, enquanto Assumção, Assis, Manato, entre outros, mantiveram-se do lado de Bolsonaro. Não há mais espaço para eles no PSL. Pragmático e sem mandato, Manato já saiu da sigla. Também sem mandato e sem amarras, Assis já procura outro abrigo até o dia 4 de abril para viabilizar candidatura em Cariacica.
Para Assumção, a situação é mais complexa: com mandato parlamentar, ele pode até trocar o PSL por outra sigla para concorrer em Vitória; se o fizer, porém, sem justa causa, fatalmente o PSL, sob nova direção, reclamará seu mandato de deputado à Justiça Eleitoral, com base no entendimento consagrado pelo STF de que o mandato de um deputado pertence ao partido ou coligação pelo qual ele elegeu-se.
QUINTINO: MISSÃO DADA SERÁ CUMPRIDA
Não por menos, Quintino voltou da audiência em Brasília com Bivar, no último dia 3, dizendo à coluna que recebeu do presidente nacional uma missão: “cortar” as pré-candidaturas de deputados infiéis ao PSL e que só querem usar o partido como “barriga de aluguel”. Na mesma entrevista, já antecipara que, mesmo que ainda não fosse o presidente de direito, recebera de Bivar autonomia e poderes para agir como presidente de fato no Estado.
E agora, como presidente de direito, Quintino mantém-se determinado a cumprir aquela missão que lhe foi delegada? A resposta não admite dúvida.
"Olha, eu sou militar. Eu obedeço a ordens. O PSL tem uma hierarquia interna, e a direção estadual deve respeitar a nacional. Eu vou cumprir rigorosamente o que me foi determinado."
Já no que tange ao planejamento eleitoral, especificamente em Vitória, uma mudança aguda pode estar a caminho: muito próximo de Gandini, Quintino admite, sim, a possibilidade de levar o PSL a apoiar a candidatura a prefeito do deputado do Cidadania, afilhado político do atual ocupante do cargo, Luciano Rezende (também do Cidadania). Todos os nomes citados neste parágrafo são de aliados de Casagrande.
"Apoiar Gandini é uma possibilidade. Vamos levar e apresentar para a nacional todas as nossas opções para Vitória. Podemos lançar um candidato próprio a prefeito. Ou podemos apoiar outro candidato, entrando em sua coligação. Esse candidato pode inclusive ser Gandini."
Quintino admite, inclusive, que ele e Gandini já inauguraram conversas que podem desembocar em uma aliança eleitoral: "É um amigo. Já conversamos, sim, sobre uma possível composição, mas sem nenhum compromisso. Se apoiarmos outro candidato, vamos pleitear o lugar de vice na chapa”, antecipa o novo presidente.
GANDINI NÃO SE FAZ DE ROGADO
O próprio Gandini comenta a nova perspectiva aberta de receber o apoio do PSL com a chegada de Quintino ao comando estadual:
“Tenho excelente relação com ele. Foi um dos primeiros deputados estaduais que conheci. Temos uma parceria e atuamos juntos na Comissão de Justiça da Assembleia. Essa é uma conversa que ainda precisamos ter, a partir da chegada dele à presidência estadual do PSL. Mas é claro que eu gostaria muito de contar com o apoio dele e do partido.”
CIDADANIA E PSL: MISTURA IDEOLÓGICA
Caso se confirme, essa aliança do PSL com o Cidadania em Vitória terá um aspecto muito inusitado: o ideológico. O partido de Gandini e Luciano é o antigo PPS, por sua vez originário do PCB (Partido Comunista Brasileiro). Agora pode se aliar ao PSL, partido que abrigou a candidatura de Bolsonaro em 2018 e pelo qual ele teve sucesso nas urnas, esbravejando contra o “comunismo” e os “comunistas” – os reais e, principalmente, os imaginários.
A CURVA PARABÓLICA DO PSL: DA OPOSIÇÃO A CASAGRANDE PARA OS BRAÇOS DO GOVERNADOR
Até o início de fevereiro, Carlos Manato era o presidente do PSL-ES, o que significava oposição a Casagrande. Presidente estadual do partido até o início de 2018, Amarildo Lovato retornou ao posto, por decisão da direção nacional, e acabou exercendo um mandato tampão. Apesar do pouco tempo, Lovato na presidência já representou uma primeira escala nessa transição do PSL: ele fez parte do último governo Paulo Hartung (à frente do Ipem-ES) e é bem mais moderado que Manato.
Mas, em recente conversa com a coluna, Lovato não admitiu nem a hipótese de o PSL apoiar o governo Casagrande, ressaltando que o partido é de direita – “Conversar, sim; apoiar, jamais!” – nem a de o PSL apoiar Gandini em Vitória – “Fora de cogitação”. Agora, a troca de Lovato por Quintino completa essa transição. Quintino cogita composição com Gandini (um dos candidatos da base do governador na Capital). E nem sequer menciona o componente ideológico (direita, esquerda etc.).
POR QUE CORONEL QUINTINO?!?
Assumção: direita bolsonarista; Torino Marques: direita bolsonarista; Danilo Bahiense: direita bolsonarista (embora mais contido nas manifestações). Coronel Quintino: apesar de eleito pelo PSL em 2018, jamais defendeu o governo Bolsonaro de verdade na Assembleia e, ao contrário, chegou a criticar posições do presidente e de seu governo em entrevista à coluna em outubro de 2019. Praticamente um antibolsonarista camuflado. Não é difícil compreender por que caiu nas graças de Bivar em Brasília para tocar o partido no Estado neste novo momento.
COMO ELE SOUBE?!?
Quintino soube de sua nomeação no lugar de Lovato, em caráter oficial, na tarde desta terça-feira (17), ao receber telefonema de um advogado do PSL nacional. Falando em nome de Bivar, o advogado lhe pediu seus dados pessoais para mudar o cadastro do diretório do PSL no Espírito Santo junto à Justiça Eleitoral.
COMO AMARILDO LOVATO REAGIU?
O agora antecessor de Quintino procurou se agarrar ao cargo como pôde e o quanto pôde. Até esta terça-feira (17), negava peremptoriamente que pudesse deixar a presidência do PSL-ES, contra as crescentes especulações. Na nota endereçada a correligionários, ele deixou claro que não saiu por opção pessoal: "Peço desculpa a todos, mas infelizmente a vida é assim".
TORINO EM DIFICULDADES
Desde o início de 2019, o deputado Torino Marques chegou a ser apresentado pelo então presidente estadual do PSL, Carlos Manato, como opção do partido para concorrer à Prefeitura de Vitória e à da Serra. Agora, qualquer candidatura dele este ano fica muito complicada, pelos mesmos motivos que se aplicam a Capitão Assumção.
Torino não chega a ser um “bolsonarista raiz” como Assumção, mas costuma defender o governo Bolsonaro no plenário da Assembleia. No último domingo, esteve na manifestação de rua contra o Congresso e o STF, convocada pelo presidente, depois “desconvocada” por ele e enfim apoiada pessoalmente pelo próprio Bolsonaro.
SÓ PARA CONSTAR
Sobre a declaração de Quintino de que é militar e obedece a ordens, não podemos deixar passar batida sua participação na greve da PMES em fevereiro de 2017, apoiando publicamente o movimento de insubordinação da tropa.