A decisão de Amaro Neto de não disputar a eleição a prefeito da Serra produz múltiplos reflexos no pleito da própria Serra e também no de outros municípios (já detidamente analisados aqui). Mas, acima de tudo, o recuo do deputado federal afeta os planos eleitorais do seu próprio partido: o Republicanos.
Partido ascendente no cenário político capixaba, o antigo PRB tem um projeto ambicioso de expansão no Espírito Santo que depende fundamentalmente do sucesso de seu rol de candidatos a prefeito na eleição municipal de novembro. E, entre esses candidatos, Amaro era a principal aposta. Era.
Agora, com Amaro fora da eleição na Serra, o partido presidido no Estado por Roberto Carneiro já começa a rever seus planos e a reposicionar as suas peças no tabuleiro estendido sobre o mapa político estadual. De imediato, a direção do partido certamente terá que dividir melhor as suas fichas na mesa de apostas. Isso significa dividir melhor as atenções que antes tendiam a ficar concentradas sobre Amaro.
Automaticamente, candidatos da sigla em outras cidades crescem em importância e se valorizam muito no processo. O partido passa a priorizar as eleições de Lorenzo Pazolini (Vitória), Hudson Leal (Vila Velha) e Sérgio Meneguelli (Colatina).
Um exemplo visível disso é Hudson Leal. O deputado estadual se declara postulante à Prefeitura de Vila Velha desde o início de 2019. Mas, até o anúncio de Amaro, na última sexta-feira (14), vinha fazendo uma pré-campanha relativamente discreta. Coincidência ou não, desde o último domingo (16), tem intensificado o disparo de material sobre sua candidatura em redes sociais e aplicativos de mensagens.
Ao lado do também deputado estadual Lorenzo Pazolini, o médico passa a ser tratado como prioridade do Republicanos na Grande Vitória – mesmo porque o partido agora não tem candidato próprio nem à Prefeitura da Serra nem às de Cariacica e de Viana. Seguindo a mesma lógica, a candidatura de Pazolini na Capital muda de status, adquirindo ainda maior importância para o partido de Amaro.
Ainda na Região Metropolitana, o partido passa a dirigir um olhar especial para sua candidata a prefeita de Guarapari, a vereadora e lutadora de jiu-jitsu Fernanda Mazzelli, filiada à legenda em março.
Já no interior, o partido agora vai investir ainda mais fortemente na reeleição de prefeitos filiados ao Republicanos. Na temporada de filiações de candidatos, entre março e abril deste ano, o partido foi um dos que mais atraíram prefeitos em fim de mandato para os seus quadros, empatando em quantidade de “aquisições” com o Cidadania e perdendo, nesse aspecto, somente para o PSB – partido do governador Renato Casagrande, que é um polo natural de atração política.
Até março, o Republicanos só tinha um prefeito com mandato no Espírito Santo. Desde abril, possui sete – todos eles habilitados a pleitear a reeleição. Entre os quadros “recém-contratados”, a “estrela” é o prefeito de Colatina, Sérgio Meneguelli (eleito pelo MDB em 2016 e filiado ao Republicanos em março). Nesse quesito, a reeleição de Serginho, como é mais conhecido, ganha peso ainda maior para a direção partidária.
PRESSÃO SOBRE MENEGUELLI
Se Amaro era a principal aposta eleitoral do Republicanos, não é exagero dizer que Meneguelli era a segunda maior. E agora, com Amaro fora do páreo, passa a ser a principal. A questão é que o prefeito de Colatina, como já anotamos aqui, está relutante (ou escondendo muito bem o jogo): até agora não se decidiu se será candidato à reeleição. E, sobre o processo eleitoral, tem falado pouco ou nada.
É claro que essa postura pode não passar de estratégia para desorientar adversários. Mas, tanto em Colatina como no próprio Republicanos, alguns acreditam que ele realmente esteja indeciso e que, imprevisível como é, possa também recolher o seu carro para a garagem em cima do início da campanha.
Se isso ocorrer, a cúpula do Republicanos se verá diante de um problema sério, pois entrará nesse jogo desprovida daqueles que eram considerados seus dois maiores trunfos. Exatamente por isso, a direção do partido começou a pressionar Meneguelli mais intensamente por uma definição.
Nesta quarta-feira (19), o presidente estadual da sigla, Roberto Carneiro, almoçou com Meneguelli. E não foi o único. Ao redor da mesma mesa, sentaram-se outros líderes e pré-candidatos do partido, entre os quais o presidente da Assembleia Legislativa, Erick Musso, os já citados Hudson e Pazolini... e o próprio Amaro Neto.
A coluna apurou que, além de começarem a redesenhar os planos eleitorais da legenda, os dirigentes do Republicanos cobraram de Meneguelli (mais próximo a Erick) uma resposta sobre sua participação no pleito. Ele escorregou. Pedindo e ganhando mais tempo, disse que vai se posicionar no limite do prazo: 15 de setembro, última data para a realização das convenções partidárias. Ou seja, usará todo o tempo de que dispõe.
Com a retirada de Amaro, enfim, o olhar do Republicanos passa a ser mais “estadualizado” e menos regionalizado na Grande Vitória; antes estaria concentrado em Amaro; agora, fica mais distribuído.
O Republicanos tem 37 pré-candidaturas a prefeito, quase a metade dos 78 municípios capixabas.
O PAPEL QUE COMPETIRÁ A AMARO
Paralelamente, a direção partidária espera que Amaro, agora livre e desimpedido, cumpra um papel partidário importantíssimo: o de grande cabo eleitoral nesses e em outros municípios. Agora não mais atado à própria candidatura, sem precisar se concentrar na eleição da Serra, Amaro passa a ter plena liberdade para se movimentar e assim fortalecer a campanha de aliados de norte a sul do Estado, ajudando a eleger seus correligionários.
Assim, de principal aposta do partido, Amaro deve virar o principal cabo eleitoral do Republicanos. E talvez não só do Republicanos.
A desistência de Amaro não era o que o partido queria e não era o que a direção do Republicanos havia planejado para ele. O ideal para o partido era que ele se candidatasse e se elegesse prefeito da Serra. Mas, como o ótimo é inimigo do bom, a direção do partido está buscando se agarrar ao “lado positivo” da decisão do deputado.
E o lado bom da desistência de Amaro é precisamente a possibilidade de ele ajudar a eleger mais prefeitos no Espírito Santo dentro do grupo político do qual é parte. Ao mesmo tempo, ele não só preserva o seu mandato de deputado federal como se preserva, como já observamos aqui, para a próxima eleição estadual, em 2022, quando o partido pretende fazer dois deputados federais pelo Espírito Santo e tem planos ainda mais ousados na eleição majoritária (governador e senador).
A concretização desse projeto de expansão em 2022 depende diretamente de um bom resultado em 2020, com a ampliação do território político do Republicanos, ocupando prefeituras estratégicas.
AS MOTIVAÇÕES PESSOAIS E PROFISSIONAIS DE AMARO
A decisão de Amaro não foi a decisão do partido. Foi dele.
Foi uma decisão pessoal e intransferível, tomada com a sua família e respeitada pela direção da sigla, na qual influíram fatores pessoais e profissionais. Na primeira categoria, pesou o desgaste pessoal e familiar de disputar uma eleição a cada dois anos: foi candidato em 2014 (deputado estadual), 2016 (prefeito de Vitória) e 2018 (deputado federal). Na segunda categoria, pesou a vontade de continuar como apresentador de TV. Amaro também está bem ambientado em Brasília: gostando de ser deputado federal.