Estrela solitária do PSOL no Espírito Santo, a assistente social Camila Valadão enfim conseguiu se eleger para um mandato parlamentar, após ter batido numa trave em 2016 (foi a 5ª candidata mais votada individualmente para vereadora de Vitória) e na outra em 2018 (foi a 28ª candidata mais votada para deputada estadual). Nas duas ocasiões, apesar das expressivas votações, ficou fora porque a sua chapa não atingiu o quociente eleitoral. Desta vez, sim: por muito pouco, a chapa do PSOL, com seis candidatos a vereador, ultrapassou o número mágico.
Com seus 5.625 votos, Camila só não teve melhor desempenho pessoal que o vereador Denninho (Cidadania), reeleito com 7.213 votos. Mas, além dos muitos sufrágios recebidos por ela, um número chama ainda mais a atenção: a puxadora de votos do PSOL na eleição parlamentar teve quatro vezes a votação obtida pelo candidato a prefeito de Vitória pelo mesmo partido, o historiador Gilbertinho Campos. O candidato do PSOL recebeu tímidos 1.408 votos, tendo chegado em 10º lugar na disputa para prefeito. Isso reforça o quanto o PSOL é um partido de vocação parlamentar.
Para o próprio PSOL, a vitória da assistente social de 36 anos tem um significado político que vai muito além dela. Na prática, o Partido Socialismo e Liberdade, representante da esquerda política brasileira, passa a existir de fato no Espírito Santo, com espaço para defender e fazer ecoar as suas causas. Numa palavra, com um mandato.
Sim, o partido já existe aqui há anos, do ponto de vista da atuação da militância, de movimentos sociais etc. Mas, desde a sua fundação, em 2004 (como dissidência do PT no início do governo Lula), essa é apenas a primeira vez que o PSOL consegue eleger um(a) representante, para qualquer cargo eletivo, em toda a Grande Vitória.
Sem entrar no mérito das bandeiras, é um partido inegavelmente ideológico, programático, com um ideário bem definido. E não há melhor maneira de se vocalizar as suas causas do que no Parlamento, a caixa de ressonância da sociedade.
Até então, no território capixaba, o PSOL estava muito atrás, em termos de sucesso eleitoral, do que outros Estados onde o partido há muito tempo exerce mandatos e alguma influência real nas disputas políticas locais.
Tomem-se, por exemplo, centros urbanos bem maiores onde o partido já se mostra competitivo até em disputas majoritárias, para o Executivo municipal: a capital paulista, onde Guilherme Boulos chega agora ao segundo turno contra o prefeito Bruno Covas (PSDB), ou a capital fluminense, onde, em 2016, Marcelo Freixo também chegou ao segundo turno e teve mais de 40% contra Marcelo Crivella.
Enfim, Dezesseis anos após sua fundação, pode-se dizer que, com a eleição de Camila Valadão, o PSOL enfim atinge a maioridade no Espírito Santo. Não a maioridade penal (fixada legalmente em 18 anos, como o partido defende, aliás). Mas a maioridade eleitoral (esta, sim, fixada em 16 anos pela legislação brasileira).
PARA A HISTÓRIA
Gilbertinho é historiador. Quem fez história foi a correligionária.
EXCEÇÃO, MAS COM RESSALVA
O único quadro do PSOL que já exerceu um mandato no Espírito Santo foi Brice Bragato, mulher de Gilbertinho, mas é bem diferente, porque Brice não foi eleita pela sigla. Em 2002, ela se elegeu para a Assembleia pelo PT e, no meio da legislatura, com a fundação do PSOL, migrou para a sigla ainda mais à esquerda.
E NEUZINHA?
Falando em História, a campanha de Camila tem divulgado uma informação tecnicamente equivocada: a de que ela é a primeira mulher negra a chegar à Câmara de Vitória. Para fazer justiça, Neuzinha de Oliveira (PSDB) está ali há cinco mandatos, desde 2001, e se declara parda. Ou seja, é uma mulher negra (categoria étnica que abarca pessoas autodeclaradas pretas ou pardas).
E, FALANDO EM MULHERES FORTES…
De uma fonte que não joga no time de Célia Tavares (PT), finalista da disputa pela Prefeitura de Cariacica, mas que a conhece bem e a respeita imensamente: “Euclério não terá vida fácil em Cariacica. Lutará contra um recall riquíssimo de Helder Salomão e terá uma adversária indigesta: Célia é pior que Brice Bragato. Ela é filósofa. Tem ótima retórica. É tipo uma Brice, com mais conteúdo”.
Olha, se Célia tiver mesmo o perfil da ex-deputada estadual pelo PT (hoje no PSOL), conhecida por sua combatividade na Assembleia, Euclério pode se preparar para chumbo grosso no 2º turno em Cariacica.
CHUMBO TROCADO
Aliás, apesar de ter encarnado um personagem “paz e amor” no 1º turno em Cariacica, Euclério também sempre foi muito combativo, do jeito dele, na Assembleia. Resumindo: promete ser chumbo trocado.
OS IRMÃOS ANDREON
E, por falar na eleição a prefeito de Cariacica, os irmãos Andreon se dividiram nesse pleito local, mas nenhum dos dois conseguiu se sair muito bem. O professor Saulo Andreon (PSB) ficou com 7.325 votos (4,45% dos válidos). Já o vereador Celso Andreon (PSD) não foi além de 3.788 votos (2,30% dos válidos).
Numa corrida com 14 candidatos, eles chegaram, respectivamente, em 10º e em 12º lugar. Os votos auferidos pelos dois perfazem o total de 11.113. É menos que os 11.690 sufrágios alcançados pelo 7º colocado no 1º turno na cidade, o vereador Joel da Costa (PSL). Ou seja, mesmo somando seus votos, os irmãos teriam chegado na 8ª posição.
Em tempo, ambos são dissidentes do PT, partido que levou Célia Tavares ao 2º turno.
KARLA COSER PASSOU. MAS FOI POR POUCO
E, voltando a falar sobre as mulheres na eleição à Câmara de Vitória, o PT e especificamente a família de João Coser estão comemorando muito a eleição de Karla Coser, filha do ex-prefeito, para a Casa de Leis. Assim, depois de ter passado em branco na atual legislatura (2017/2020), o PT volta a ter representação no Legislativo da Capital, presidido pelo partido durante os oito anos de administração de Coser: de 2005 a 2010, com Alexandre Passos, e de 2011 a 2012, com Reinaldo Bolão.
Mas há um detalhe que está passando meio batido: Karla entrou, sim, mas por muito pouco não ficou de fora, por causa da “concorrência interna” na chapa. Com seus 1.961 votos, ela teve apenas 20 a mais que Jocelino Júnior, jovem líder comunitário do morro da Piedade, na região do Centro. Com 1.941 votos, ele foi o 10º candidato a vereador mais votado, mas não entrou por causa do quociente.
VEREADOR UNIVERSAL
Num caso raro de transferência bem-sucedida de transferência de domicílio eleitor e de território político, o pastor Devanir Ferreira (Republicanos), vereador de Vitória por um mandato (de 2013 a 2016) se elegeu dessa vez vereador… de Vila Velha, pelo mesmo partido. Ex-PRB, o Republicanos é o partido do bispo Marcelo Crivella e da Igreja Universal do Reino de Deus.