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Análise

Como “pré-candidato à Presidência”, Casagrande pode arrumar um problemão para si mesmo e para o ES

Ao aceitar cumprir esse papel na estratégia do PSB, governador pode dar munição a adversários, permitindo que seus gestos sejam vistos como “eleitoreiros” e desgastando-se por algo que no fundo pode não passar de um blefe

Publicado em 04 de Março de 2021 às 02:00

Públicado em 

04 mar 2021 às 02:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

vvogas@redegazeta.com.br

Carlos Siqueira e Renato Casagrande
Carlos Siqueira e Renato Casagrande Crédito: Amarildo
Ao apresentar Renato Casagrande como seu pré-candidato à Presidência da República, o PSB pode ter arrumado um problema enorme para o próprio governador. Ou o próprio Casagrande, ao topar desempenhar esse papel na estratégia eleitoral do PSB, pode ter arranjado um problemão para si mesmo.
De agora em diante, cada gesto de Casagrande passa a ser escrutinado e visto com outros olhos (não necessariamente mais clementes). Mesmo que seu discurso e suas ações estejam corretos, adversários poderão enxergar ou dar conotação eleitoral a qualquer coisa que Casagrande diga ou faça (mais ou menos como já ocorre com João Doria, guardadas as devidas proporções). Doria, ao contrário de Casagrande, tem chances muito reais de ser candidato à Presidência. Já o agora “possível presidenciável do PSB” pode se submeter a um desgaste desnecessário por algo que, no fundo, pode não passar de um blefe da cúpula nacional do seu partido.
Sem nenhum demérito a Casagrande (na verdade ele só recebeu a “indicação” do PSB justamente por seus méritos como governador e líder político), qualquer análise fria e realista indica que a chance de o governador do Espírito Santo realmente ser candidato à Presidência da República em 2022 é remotíssima (diria que de 1%, hoje). É um paradoxo até com a tese de unificação de candidaturas numa “frente ampla”, defendida por ele mesmo.
Em seu segundo mandato no governo estadual, Casagrande acaba de contornar o Cabo das Tormentas, relativamente bem e sem grandes dificuldades. Recém-iniciada a segunda metade do governo, tem se destacado nacionalmente pela gestão racional da crise da pandemia e tem endereçado algumas críticas pertinentes ao governo Bolsonaro, por conta de fatores como a ausência de coordenação nacional no enfrentamento à crise sanitária, a disfuncionalidade do Ministério da Saúde, o desinteresse pessoal do presidente, as constantes sabotagens de Bolsonaro às medidas de isolamento e à vacinação e os conflitos estéreis com governadores continuamente alimentados pelo chefe da nação.
Nessa difícil relação com o governo federal, Casagrande tem sido reconhecido como uma voz moderada e equilibrada, mas sem deixar de fazer críticas mais incisivas quando necessário. Tem autoridade para isso. Até hoje, era “só” um governador interessado no melhor para o Estado governado por ele e para o povo capixaba.
Ora, a partir do momento em que ele cai (e se deixa cair) na boca do povo, em nível nacional, como um possível candidato à Presidência, ainda que sua candidatura seja muitíssimo remota, Casagrande passa a fornecer de bandeja munição para seus opositores gastarem contra ele. Dá a adversários políticos, sobretudo aqueles alinhados a Bolsonaro, argumentos para desqualificar e descaracterizar suas posições, por exemplo, no debate relativo à pandemia.
Por mais corretas, oportunas e até necessárias que sejam suas críticas ao governo federal, elas poderão passar a ser interpretadas não como palavras de um governador em busca do melhor para seu povo, mas como discurso de um agente político que procura contrapor-se a Bolsonaro em busca de visibilidade e projeção eleitoral. Ficará sempre aquele “senão”. Na pior hipótese: “Esse cara só está criticando o Bolsonaro porque quer ocupar a cadeira dele”. Na melhor: “É, ele tem razão, mas… será que não está dizendo isso só porque quer ser candidato?”
Tenho cá minhas dúvidas se Casagrande precisaria se sujeitar agora a esse tipo de incerteza e de desgaste e se esse “pré-lançamento” de seu nome pelo PSB não poderia esperar um pouco mais – principalmente se de fato não passar de um balão de ensaio. A esta altura, mal superada a metade do seu governo e com mais de um ano de articulações eleitorais pela frente, parece-me um movimento bom para o PSB, mas talvez não tão bom assim para Casagrande.
E pior: com tal prematuridade, pode não ser um movimento tão bom assim para o próprio povo capixaba.
Convenhamos: sem que o Estado tivesse um “governador pré-candidato à Presidência”, Bolsonaro já não olhava o Espírito Santo com aquela atenção especial... Emblemático é o fato de ele nunca ter posto os pés aqui como presidente da República (o que, por seu perfil de belicismo ideológico, certamente tem a ver com o fato de ser o único Estado do Sul e do Sudeste governado por um partido de centro-esquerda).
O presidente já adora uma picuinha com governadores. Não me surpreenderá se, a partir desse movimento do PSB, o governo federal passar a relegar ao Espírito Santo ainda maior indiferença. Não digo nem “atrapalhar”. Apenas ignorar ainda mais um Estado que já não é considerado prioritário pela administração bolsonarista.
Não por acaso, Casagrande nesta quarta (3) confirmou ter sido convidado pelo presidente nacional do PSB, Carlos Siqueira, para ser pré-candidato ao Planalto, e se disse muito honrado e grato pelo convite, mas enfatizou que só discutirá qualquer candidatura, a qualquer cargo, no ano que vem. É óbvio: se ele admitir a esta altura que é pré-candidato à Presidência, será trucidado.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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