Dominantes no Espírito Santo no último governo Paulo Hartung (2015-2018), o MDB e o PSDB, dois partidos muito tradicionais, perderam muito espaço recentemente no mapa político do Estado, com a debandada de dezenas de prefeitos eleitos em 2016 e até então filiados a esses dois partidos. Desde 2018, ano da eleição do governador Renato Casagrande (PSB), as duas siglas, somadas, perderam exatamente 20 prefeitos no Espírito Santo.
No referido período, o MDB perdeu o comando de dez municípios, conforme analisamos aqui nesta terça-feira (28), sendo nove por desfiliação voluntária: os de Anchieta, Colatina, Conceição do Castelo, Divino de São Lourenço, Ibatiba, Ibitirama, Itaguaçu, Santa Maria de Jetibá e São José do Calçado.
Já no PSDB, o estrago é quase idêntico: desde 2018, o partido atualmente presidido pelo deputado estadual Vandinho Leite perdeu os prefeitos de dez municípios, oito deles por desfiliação espontânea: os de Alegre, Boa Esperança, Conceição da Barra, Governador Lindenberg, Marilândia, Pedro Canário, Sooretama e Itapemirim
Ou seja, considerando só desfiliações voluntárias, MDB e PSDB, juntos, sofreram o desfalque de 17 prefeitos em menos de dois anos no Espírito Santo. Para ser preciso, tirando o prefeito de Colatina, Sergio Meneguelli – que deixou o MDB em agosto de 2018 –, 16 prefeitos saíram desses dois partidos nos últimos meses (oito de cada sigla).
É muito razoável concluir que a grande maioria deles não sentiu muita “firmeza” no MDB e no PSDB e decidiu trocar de partido em busca de melhor acomodação na próxima eleição municipal, marcada para outubro deste ano. O prazo para filiação de quem vai concorrer ao pleito encerrou-se no dia 4 de abril.
Além disso, por que essa constatação numérica é tão importante? Porque talvez seja o melhor reflexo, até o momento, da mudança no “pêndulo do poder” em nível estadual. MDB e PSDB foram os dois maiores sustentáculos do governo anterior ao de Casagrande. Eram, respectivamente, o partido do então governador Paulo Hartung (sem partido desde o fim de 2018) e o de seu vice-governador, César Colnago (ainda no PSDB).
Com a dobradinha MDB/PSDB no Palácio Anchieta de 2015 a 2018, esses dois partidos fizeram a festa na última eleição municipal, realizada em 2016. Juntos, emplacaram 30 dos 78 prefeitos do Espírito Santo. O MDB foi o recordista, com 17 prefeitos eleitos. O PSDB foi o segundo colocado, chegando ao Executivo de 13 cidades.
Em 2018, Casagrande voltou ao poder estadual. E o cenário, hoje, para os dois partidos, é muito diferente: agora, o MDB só tem sete prefeitos no Estado, enquanto o PSDB se mantém no governo de apenas seis municípios.
REVOADA TUCANA: O ESTRAGO NO PSDB
Em 2016, como vimos, o PSDB elegeu 13 prefeitos no Espírito Santo. Mas esse número chegou a crescer ainda mais depois disso.
Em 2017, com o afastamento do prefeito Luciano Paiva, em Itapemirim, o vice-prefeito, Thiago Peçanha, eleito com ele um ano antes, assumiu a prefeitura da cidade. Peçanha estava então no PSDB. Em 2018, o prefeito de Guarapari, Edson Magalhães, eleito pelo PSD, pulou para o ninho tucano. Ele ameaçou migrar de novo, dessa vez para o DEM, mas acabou ficando no PSDB.
Com isso, em meados de 2018, o PSDB chegou à expressiva marca de 15 prefeitos com mandato no Espírito Santo.
De lá para cá, porém, o partido sofreu uma incrível debandada de prefeitos, ou, no caso, uma “revoada tucana”. O número de baixas se iguala ao do MDB, que, no mesmo período, caiu de 17 para sete prefeitos no Estado.
Entre casos de perda do mandato, expulsão por decisão do partido e, principalmente, migração partidária, o PSDB perdeu dez daqueles 15 prefeitos que chegou a ter há dois anos no Espírito Santo. Dez prefeitos a menos, de norte a sul do Espírito Santo. Um estrago para qualquer partido.
Diferentemente de outras siglas (como o PSB, o Cidadania e o Republicanos), o PSDB não filiou nem um prefeito sequer na temporada de trocas partidárias (encerrada no dia 4 de abril, para quem pretende disputar a próxima eleição municipal). Mas chegou ao comando de mais um município, com a vitória de Domingos Fracaroli na eleição extemporânea realizada em Castelo, em outubro de 2019, após o TRE ter cassado o mandato de Luiz Carlos Piassi (MDB), prefeito eleito em 2016.
Assim, só restam hoje seis prefeitos filiados ao PSDB no Estado (sendo que só cinco deles podem tentar a reeleição). São eles:
1. Castelo – Domingos Fracaroli
2. Guarapari – Edson Magalhães
3. Ponto Belo – Sergio Murilo Moreira Coelho (não pode se reeleger)*
4. São Mateus – Daniel da Açaí
5. Vargem Alta – João Chrisóstomo Altoé
6. Vila Velha – Max Filho
Já os dez prefeitos que o PSDB perdeu são os seguintes:
1. Alegre – José Guilherme Gonçalves Aguilar (Zé Guilherme) – foi para o PSC
2. Boa Esperança – Lauro Vieira da Silva – foi para o PP
3. Conceição da Barra – Chicão – foi para o PSB em fevereiro; em março, foi cassado pelo TRE
4. Governador Lindenberg – Geraldo Loss – foi para o Cidadania
5. Irupi – Carlos Henrique Emerick Storck – cassado pelo TRE em 2019
6. Marilândia – Geder Camata – foi para o Podemos
7. Pedro Canário – Bruno Cinco Estrelas – foi para o Republicanos
8. Presidente Kennedy – Amanda Quinta – afastada pela Justiça e expulsa pelo PSDB em 2019, após ter sido presa na Operação Rubi
9. Sooretama – Alessandro Broedel – foi para o Republicanos
10. Itapemirim – Thiago Peçanha – foi para o Republicanos
No interior, o PSDB ainda sofreu desfiliações de potenciais candidatos a prefeito. Em Itaguaçu, por exemplo, o atual prefeito, Darly Dettmann (PSB), não pode disputar novo mandato, mas filiou seu vice e candidato à sucessão, João Luiz Becalli, ao PSB. Beccalli estava no PSDB.
SEM RETORNO
Tentamos falar nesta terça-feira com o deputado estadual Vandinho Leite, presidente regional do PSDB desde o primeiro semestre de 2019, para ouvir suas explicações sobre a debandada de prefeitos tucanos. O fato coincide com seu período na presidência. O deputado não atendeu a nossas ligações nem respondeu nossas mensagens. Também fizemos contato com a assessoria do deputado e lhe encaminhamos nossos questionamentos, mas não obtivemos retorno.
* Sergio Murilo Moreira Coelho está encerrando o segundo mandato consecutivo. Elegeu-se vice-prefeito em 2012, já no PSDB, mas assumiu a Prefeitura de Ponto Belo em dezembro de 2014, quando o titular, Edivaldo Rocha Santana, foi cassado pela Câmara Municipal.