Em sua primeira tuitada já como presidente empossado, no início da tarde desta quarta-feira (20), Joe Biden informou que no mesmo dia iria para o Salão Oval para começar logo a trabalhar, entregando medidas ousadas e alívio imediato às famílias norte-americanas. "Alívio imediato". Foi o que senti ao ouvir o seu discurso de posse, em frente ao Capitólio. Como não deixou dúvida o discurso seminal de seu governo, a assunção de Biden ao cargo até então ocupado por Trump significa, antes de tudo, a restauração da normalidade política nos Estados Unidos e além. E isso, por si só, em tempos tão anormais, já é muito. Neste seu retorno triunfal, o "normal" é muito bem-vindo.
Assim como em seu primeiro pronunciamento após a confirmação matemática de sua vitória eleitoral em novembro, o tom e a mensagem do democrata em seu primeiro discurso como presidente foram muito adequados para o momento. Mais que adequados, necessários. Em tudo foi o oposto de Trump. Sua palavra-chave, repetida incansavelmente, foi união (unity), contrapondo-se ao divisionismo que é o próprio alicerce da política tal como concebida e praticada por Donald Trump nos últimos quatro anos. O America first, agora, dá lugar ao America as one.
Valorização da democracia. Tolerância e respeito um pelo outro. Conciliação. Reunificação. Governar para todos. Uma só América. Diminuir a temperatura. Acabar com os gritos. Trabalhar juntos. No discurso da vitória, Biden havia destacado a necessidade de "curar a alma da nação". No de posse, garantiu que toda a sua alma está em unir o povo e a nação norte-americana. E pediu a cada compatriota que se junte a ele nessa causa.
Contra "as forças que nos dividem", em um país que tem united até no nome, Biden pregou a tolerância, o diálogo fraterno e o respeito mútuo: "Podemos ver um ao outro não como adversários, mas como vizinhos. Podemos tratar um ao outro com dignidade e respeito". Sem união não há paz, disse ele, só ressentimento e medo. No lugar do progresso, disse ele, a divisão da nação só gera "raiva exaustiva", ódio e um estado de caos.
O presidente recém-empossado exaltou a democracia e celebrou a discordância como um dos fundamentos do regime democrático construído nos Estados Unidos, mas lembrou que discordar não precisa nem deve ser sinônimo de guerrear, assim como a política não deve ser vista como um meio para se destruir adversários. "Precisamos superar essa guerra civil que coloca azuis contra vermelhos"; "A política não precisa ser um fogo que destrói tudo pelo caminho. Cada discordância não precisa ser uma causa para uma guerra total"; "Discordâncias não precisam levar à desunião. E eu prometo que serei o presidente de todos os americanos".
Dirigida especificamente aos eleitores que não votaram nele, essa última frase de Biden merece ser sublinhada. Nada exemplifica melhor a diferença entre os dois do que o aceno do novo presidente aos eleitores de Trump e a empatia demonstrada para com eles. "Empatia com o adversário derrotado"? Trump sempre tratou adversários (reais ou imaginários) como losers e como inimigos a serem aniquilados.
EXERCÍCIO DE ALTERIDADE
"Como minha mãe dizia, tente se colocar no lugar do outro, nem que seja só por um momento", disse Biden. A empatia revelada pelo sucessor de Trump traduz uma compreensão sobre a democracia que sobra em um, mas falta ao outro. Alguém consegue imaginar o agora ex-presidente se dispondo a esse exercício de alteridade e se colocando mesmo no lugar do outro (digamos, George Floyd), nem que seja só por um segundo?
Ao contrário, Trump é o rei do egocentrismo. No lugar do "mimimi", consagrou o "Me! Me! Me!". E seu America first na verdade encobre o Trump first, que não aceita chegar em segundo lugar, a ponto de rasgar a Constituição, tripudiar da democracia e incitar seus seguidores radicais e supremacistas a uma insurreição popular.
Como todo líder populista com vocação autoritária (e é inevitável um paralelo com o nosso), Trump sempre operou na frequência do antagonismo político. Alimenta-se do choque, do conflito, da controvérsia. "União", "tolerância", "respeito mútuo", "empatia"… É possível imaginar Trump fazendo um discurso que contenha um só desses elementos?
O discurso (re)inaugurado por Biden representa, assim, uma mudança radical de discurso na Casa Branca – e, por conseguinte, no cenário político mundial. Mas é este o ponto que quero frisar: é uma "mudança para trás". Não no sentido de ser reacionária, mas de ser restauradora, de trazer de volta o "velho normal", que neste caso é o velho "normal", ou seja, a "normalidade" anterior à chegada de Trump à Casa Branca.
O "NORMAL" PEDE PASSAGEM
O discurso inaugural de Biden foi bom, mas foi tão bom precisamente por ter sido um discurso "normal", no sentido de que ele disse exatamente o que a ocasião pedia e exatamente o que se esperaria ouvir de um presidente recém-empossado, num tom que os americanos chamam de "presidencial".
Em qualquer outro momento ou circunstância, esse teria sido um discurso ok, mas quase convencional, nem um pouco extraordinário. Mas não se trata de uma circunstância como outra qualquer. Trata-se do fim da era Trump: a era do ódio cego, da truculência, do preconceito, do desrespeito ao outro, da ignorância, da arrogância, da divisão, da segregação, das grosserias, das agressões verbais rotineiras, da apologia da violência...
Tudo isso praticado e estimulado pelo próprio líder da nação, praticamente como política de governo, ditando assim, pelo "poder de seu exemplo" (para emprestar outra expressão de Biden), uma forma de fazer política que se alastrou pelo mundo, inspirando outros tantos líderes de extrema-direita autoritários e populistas, eleitos democraticamente como ele (vide o exemplo brasileiro).
Com Trump, tudo isso havia se tornado o "novo normal" na política ocidental. Toda essa retórica e esse comportamento, até então inaceitáveis, entraram no dia a dia da nação mais poderosa do planeta – e assim, extensivamente, do mundo sob sua influência. Após quatro anos de trumpismo, a barbárie e a baixaria se normatizaram. Viraram regra na Casa Branca. E alguns podem até ter esquecido como seria, realmente, um discurso normal de um presidente normal, com adequado "tom presidencial".
O que faz, enfim, o discurso de posse de Biden soar tão bom é o contraste com o de Donald Trump. De certo modo, essa mudança no campo discursivo (onde se dá a disputa ideológica) começa a recolocar as coisas nos eixos de onde nunca deveriam ter saído. Se fosse a sucessão de outro presidente, teria sido um discurso só "normal". Nesse caso, por romper radicalmente com o padrão discursivo da era Trump, esse "normal" soa especialmente bom, bonito e bem-vindo.
Alvíssaras à normalidade!
ADENDO: DITADOR ENRUSTIDO
O presidente da mais sólida e pujante democracia do mundo jamais compreendeu o conceito de democracia e, no fundo, sai de cena como um autocrata frustrado. Em essência, é um líder político com evidentes inclinações ditatoriais, contidas pelo sistema de freios e contrapesos próprios da democracia em que se elegeu (esse "estorvo" para ele). Trump deu o "azar" de ter governado não uma republiqueta qualquer, mas um país onde não pôde desenvolver plenamente sua indisfarçável vocação para ditador.