O número de pedidos de filiação ao Partido dos Trabalhadores (PT) tem se multiplicado a partir do “efeito Lula”. É como os próprios dirigentes petistas têm denominado o significativo aumento do ingresso de novos filiados (ou o retorno de antigos quadros que haviam deixado o partido), impulsionado por dois acontecimentos políticos que marcaram o mês de março: a decisão do ministro Edson Fachin de anular todas as condenações do ex-presidente no âmbito da Operação Lava Jato, no dia 8; e a decisão da 2ª turma do STF de reconhecer a parcialidade do ex-juiz Sergio Moro para julgar os processos a que Lula responde na Lava Jato, no dia 23.
No Espírito Santo, acompanhando o fenômeno nacional, esse efeito se traduz numericamente. Desde o dia 8 de março, data da decisão de Fachin, o ritmo de novas filiações ao PT no Estado cresceu 12 vezes em relação ao que vinha sendo registrado desde o início deste ano. É o que se pode concluir dos números enviados à coluna pela Executiva Estadual do PT.
Do dia 1º de janeiro ao dia 25 de março (data final do balanço ao qual tivemos acesso), o PT do Espírito Santo recebeu 113 novos pedidos de filiação.
Do primeiro dia do ano até o dia 7 de março, véspera da decisão de Fachin que na prática recolocou Lula no jogo eleitoral de 2022, o PT estadual havia recebido 26 novas filiações, ao longo de um intervalo de 66 dias. Isso dá uma média de 0,39 por dia, ou dois novos filiados a cada cinco dias.
Aí veio a decisão, em 8 de março. Dessa data até o dia 25, somaram-se 18 dias. Ao longo desse curto período, o PT do Espírito Santo recebeu 87 novas filiações. Isso corresponde a uma média de 4,83 filiações por dia, ou 24 novos filiados a cada cinco dias.
A cada cinco dias, portanto, a média de novos petistas com carteirinha no Espírito Santo saltou de dois para 24 – ou seja, 12 vezes mais. Donde o “efeito Lula” referido no início.
A presidente estadual do PT, Jackeline Rocha, não tem a menor dúvida de que os fatos estão conectados e guardam uma evidente relação de causa e efeito: a procura das pessoas pelo PT se intensificou de tal maneira porque a restituição dos direitos políticos de Lula – e, consequentemente, a remoção dos empecilhos para sua potencial candidatura à Presidência em 2022 – animou bastante a militância. A bem da verdade, com os direitos políticos de Lula, também foi restituído aos militantes petistas um ânimo que há muitos anos eles não encontravam.
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Assim, simpatizantes até então assustados com o antipetismo se sentiram motivados a dar o passo da filiação, enquanto ex-filiados que haviam se afastado durante os anos mais difíceis recobraram o ânimo e estão agora a fazer sua peregrinação de volta ao partido, seguindo o som da voz rouca de Lula e atendendo ao seu “chamado”, no discurso feito por ele no Sindicato dos Metalúrgicos, no ABC Paulista, no dia 10 de março – praticamente o pré-lançamento de sua nova candidatura presidencial.
"Sem dúvida, as duas coisas estão interligadas. Uma onda de esperança foi criada pela decisão do Fachin e pela possibilidade de o Lula ser elegível e ter seus direitos políticos preservados. Esse foi o efeito imediato. Nos últimos anos, nós passamos por um processo de criminalização muito grande. Isso fez com que, durante todo esse processo de perseguição e de injustiças, algumas lideranças deixassem o partido. E outras não tiveram a coragem de colocar realmente a sua digital numa filiação. Então essa decisão do Fachin representou um boom muito positivo no nosso processo de filiações. Essa decisão trouxe uma confiança a mais para o PT e encheu a militância de empolgação e de vontade de participar, não só de maneira voluntária, mas como membros da sigla", observa Jackeline Rocha.
Na planilha da Executiva Estadual do PT, chama a atenção ainda o pico de novas filiações registrado nos dias 22 e 23 de março, que foram precisamente os dias do julgamento da 2ª Turma do STF quanto à suspeição de Moro. Também aqui, a correlação é evidente, conforma assinala a presidente estadual da legenda:
"Também tem a ver, sim. O dia da declaração de suspeição do Sergio Moro é o dia que carimba que houve uma perseguição ao PT. Depois da Vaza-Jato e de tudo aquilo que veio à tona em relação à parcialidade do juiz, houve um efeito ainda maior de comoção. Não existe o Lula sem o PT e não existe o PT sem o Lula. Então, automaticamente, é como se as pessoas estivessem dando crédito ao partido novamente: 'Olha, realmente cometeram uma injustiça contra o Lula. E, se cometeram uma injustiça contra o Lula, cometeram uma injustiça contra o PT. É hora de a gente entrar pra dentro'. Então isso faz com que a gente possa levantar a cabeça e continuar caminhando de cabeça erguida, dentro das narrativas que nós construímos para a não criminalização do partido e, automaticamente, pela suspeição e pela parcialidade com que o Moro sempre tratou os processos do Lula. Aos poucos, a História vai devolvendo ao PT a sua verdade. Acho que algumas pessoas só estavam realmente esperando isso acontecer para entrarem no PT", avalia a dirigente.
E quanto aos "filhos pródigos" que não aguentaram o tranco, desfiliaram-se do PT justamente no período mais difícil ("Fora, Dilma!", impeachment, condenação e prisão de Lula, derrota para Bolsonaro em 2018) e que agora, nesse momento de "retomada" do partido, estão fazendo seu caminho de volta para casa? Em relação àqueles "companheiros" que só querem ser petistas na bonança, não fica uma ponta de ressentimento e quiçá de desconfiança pela possível deslealdade e até por certo oportunismo?
"Eles terão que fazer uma autocrítica", avisa Jackeline Rocha.