O MDB vive um momento delicado no Espírito Santo. Nacionalmente, o partido está longe de viver os seus dias mais gloriosos. No Estado também, com alguns agravantes. Após o fiasco de popularidade do governo Temer, a sigla teve fraco desempenho na eleição de 2018. No plano estadual, o resultado foi ainda pior. A bancada do MDB na Assembleia encolheu drasticamente: os sete deputados estaduais que a legenda chegou a ter em meados do mandato passado (2015-2018) se transformaram em dois na atual legislatura. No Congresso, uma situação inédita na história: hoje, a bancada federal capixaba não possui nem um representante sequer do MDB.
Somente no plano municipal, a sigla segue bem em ocupação de espaços, graças ao bom desempenho obtido em 2016. Hoje, tem 17 prefeitos capixabas.
Em 2018, o partido sofreu dois duros “golpes” no Estado, efetuados por aquele que era, até então, a principal referência local dos emedebistas: o então governador Paulo Hartung. Primeiro, em 9 de julho, a menos de um mês do fim do prazo para registro de candidaturas, Hartung comunicou que não seria candidato à reeleição, pegando de surpresa inclusive a direção do próprio partido e o presidente estadual, Lelo Coimbra.
Atrelado à liderança de Hartung e sem tempo de se reorganizar, o MDB ficou à deriva. Aliado indissociável de Hartung, Lelo acabou levando o partido para a coligação da senadora Rose de Freitas, candidata ao governo estadual pelo Podemos. Rose, por sinal, foi outra baixa sentida: no início de abril, sem legenda no MDB para concorrer ao Palácio Anchieta, a senadora trocou de agremiação. Como o próprio Lelo resumiu em julho, o partido, que tinha dois candidatos ao governo, acabou sem nenhum.
Com controle sobre os recursos do fundo eleitoral criado para financiar candidaturas, Lelo concentrou o repasse da direção nacional na própria campanha a federal. Assim, o MDB-ES apostou todas as fichas na reeleição do dirigente. Mas, com 52.766 votos, Lelo ficou fora. Após a eleição de outubro, veio o segundo “golpe” desferido por PH: ele comunicou oficialmente a sua desfiliação do MDB.
Como ficou na chapa majoritária de Rose, derrotada na eleição ao Anchieta, o MDB está fora do governo Casagrande, embora seus agora dois únicos deputados estaduais, Hércules Silveira e José Esmeraldo, façam parte da base governista.
O ano de 2018, assim, marca o fim de um ciclo para o MDB-ES; 2019, o início de outro, muito incerto. Quem liderará o partido? Lelo se manterá no comando ou outro líder ascenderá? Que rumo o MDB tomará no Estado? Na ausência de PH, Rose seria uma líder natural para assumir as rédeas, mas também é passado. Sem um nem outro, o partido carece hoje, nitidamente, de uma referência política forte para liderar esse necessário processo de reconstrução sobre novas bases.
Tumultuada e suspensa pela Justiça, a eleição da nova Executiva do MDB em Vitória é a perfeita tradução desse momento delicado e conturbado pelo qual passa o partido atualmente no Espírito Santo – com todos os conflitos típicos de um período de transição entre o velho não de todo superado e o novo não inteiramente estabelecido. Os dois nomes na disputa pela presidência – Luzia Toledo e Esmeraldo – refletem a dificuldade de renovação de quadros no velho MDB. Ao mesmo tempo, tal disputa revela exatamente essa carência de uma liderança forte e natural, capaz de aglutinar todas as forças internas em torno de si.
Na ausência de PH, está reaberta a luta pelo controle partidário no MDB estadual. Lelo Coimbra, cuja liderança interna sempre derivou da ascendência natural de Hartung, pode estar com o comando ameaçado. Em Vitória, apoia a chapa de Luzia, que tem entre os membros Chico Donato, secretário-geral do MDB-ES e braço direito de Lelo. Já Esmeraldo – antigo crítico de Lelo – tem o apoio de Marcelino Fraga, cuja influência no MDB tinha ficado lá atrás, antes da volta de PH à legenda (2005), mas que agora pode encontrar terreno para reascender. A convenção estadual deve ser realizada até o fim de junho.
Por ora, o que podemos dizer é que, em 2018, o PMDB sacou o P de partido. Com ele, foi-se embora também o de “poderosíssimo”.
Olha a diferença...
Hoje, dos dez deputados federais e três senadores pelo ES, nenhum é do MDB, quadro muito diferente daquele de 1986, apogeu do partido no Estado. Naquele ano, no primeiro pleito após a redemocratização, o PMDB-ES elegeu o governador (Max Mauro) e sete dos 10 deputados federais, que seriam constituintes em 1988, além de ter feito um segundo senador: Gerson Camata. José Ignácio Ferreira já estava lá, eleito em 1982, também pelo PMDB.
Nem precisa ir tão longe...
O quadro atual também é muito diferente daquele de um passado não tão distante: em 2014, com a chegada de Rose ao Senado pelo MDB, o partido chegou a ter dois dos três senadores capixabas, além de Lelo na Câmara. Naquele ano, fez quatro deputados estaduais. Mas, graças à influência de Hartung, conseguiu novas adesões ao longo da legislatura. No início de 2018, chegou a contabilizar sete dos 30 membros da Assembleia (de longe, a maior bancada): Hércules Silveira, José Esmeraldo, Luzia Toledo, Esmael Almeida, Marcelo Santos, Gildevan Fernandes e Erick Musso.
Numa operação que teve a participação do próprio Hartung, como ele mesmo admitiu à coluna na época, os três últimos trocaram de sigla na janela de março de 2018, a fim de “desinchar” a chapa proporcional. Dos quatro que restaram e que tentaram a reeleição, só Hércules e Esmeraldo tiveram êxito.
Adeus, grandes figuras!
Como frisa o historiador Estilaque Ferreira dos Santos, a trajetória do MDB no Espírito Santo está ligada a cinco líderes: Dirceu Cardoso, José Ignácio Ferreira, Gerson Camata, Max Mauro e Paulo Hartung. “Na ausência de uma grande figura, o partido afundou no Espírito Santo”, conclui.