A esta altura, o ingresso do senador no partido de Lula seria praticamente um passo seguinte natural, tendo em vista a trajetória que ele mesmo construiu desde que chegou ao Senado, em 2019. Já se fala em Contarato ao governo do ES pelo PT em 2022
Publicado em 01 de Abril de 2021 às 02:00
Públicado em
01 abr 2021 às 02:00
Colunista
Vitor Vogas
vvogas@redegazeta.com.br
PT abre as portas e os braços para receber Fabiano ContaratoCrédito: Amarildo
A verdade é que, se confirmada, a provável filiação de Contarato ao PT não causaria surpresa alguma a esta altura dos acontecimentos. Em 2018, sim, teria surpreendido a muitos (dos seus eleitores, inclusive). Mas hoje, na realidade, o ingresso oficial de Contarato no PT seria praticamente um passo seguinte natural por parte do senador, tendo em vista a trajetória que ele mesmo construiu desde que chegou ao Senado, no início de 2019. Uma soma de sinais reforça essa tendência.
O partido quer aproveitar o bom momento – o primeiro após seis anos comendo lagartixa no sertão de Garanhuns – para se fortalecer, inclusive atraindo novos filiados de peso. E é aí que entra Contarato.
Embora enfraquecido nos últimos anos, o PT nunca deixou de ser o principal partido de oposição ao governo de Jair Bolsonaro em nível nacional. E quem tem sido Contarato, nos últimos 27 meses, senão um dos mais infatigáveis opositores ao governo Bolsonaro no Senado?
Atuando na bancada da Rede, ao lado de Randolfe Rodrigues (um ex-petista), o senador capixaba tem se notabilizado por não dar um dia de trégua ao presidente e seus ministros. À boca miúda, alguns chamam o capixaba de “7º senador do PT”, que no momento possui uma bancada de seis membros no Senado.
Contarato apresenta-se como um intransigente defensor da Constituição, dos direitos humanos e coletivos, das minorias e da democracia. Com essa descrição, o choque constante com o governo é inevitável. Seja na pauta de costumes, seja no tratamento (cloroquinesco) dado à pandemia do novo coronavírus, seja em temas como o afrouxamento das leis de trânsito, da legislação ambiental e das regras para acesso a armas de fogo por civis, Contarato regularmente se opõe a medidas, intenções e declarações do presidente da República.
Um exemplo concreto e documental dessa atuação do senador e delegado são as dezenas (quiçá centenas) de medidas judiciais com as quais ele já ingressou em tribunais como o STF e o TCU, com o intuito de questionar ou mesmo de reverter decisões do governo em diversas áreas, tais como as já citadas – o que leva defensores do presidente a chamarem-no, depreciativamente, de “promotor de Justiça” disfarçado de senador.
O CONFRONTO COM SERGIO MORO
Mas a oposição de Contarato vai além, muito além, de iniciativas jurídicas. Sempre que tem oportunidade de ficar frente a frente com representantes do primeiro escalão do governo, em audiências no Congresso Nacional, o senador não dá refresco aos interpelados. Que o digam Sergio Moro e Ernesto Araújo.
No último dia 24, na Comissão de Relações Exteriores do Senado, Contarato foi um dos seis senadores que, literalmente, rogaram ao então chanceler Ernesto Araújo que renunciasse ao cargo para o bem do país – e o fez de maneira enfática. Cinco dias depois, Araújo caiu.
Da mesma forma, no dia 19 de junho de 2019, partiu de Contarato o questionamento mais incisivo a Sergio Moro, quando o então ministro da Justiça foi sabatinado pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado, logo após o site The Intercept Brasil publicar a troca de mensagens, via aplicativo Telegram, do ex-juiz com procuradores da República de Curitiba, no caso conhecido como “Vaza Jato”. E olha que Moro àquela altura ainda era aliado de Bolsonaro. O senador pôs em xeque a isenção do então ministro no julgamento de Lula na Lava Jato:
“O que eu estou questionando, e não estou entrando nem no mérito do diálogo, é que houve a quebra do princípio da imparcialidade, quando o juiz, que tem que ser imparcial, mantém contato, por inúmeras vezes, com aquele que tem interesse cem por cento numa eventual sentença condenatória transitado em julgado... É isso só que estou julgando, então não coloque palavras na minha boca!”
Em conversa com a coluna nesta quarta-feira (31), um petista do Espírito Santo fez questão de recordar esse episódio. Para ninguém essa postura de Contarato, de confrontar publicamente Sergio Moro, foi mais marcante do que o foi para os petistas, pois o tema da parcialidade do ex-juiz na condução dos processos de Lula na Lava Jato sempre foi prioritário tanto na narrativa política do PT quanto na tese de defesa do ex-presidente. No último dia 23, a 2ª Turma do STF reconheceu a parcialidade de Moro e o declarou suspeito nos julgamentos de Lula na Lava Jato.
Tudo considerado, resta evidente que, ao longo desses seus pouco mais de dois anos de atuação parlamentar, Contarato tem revelado, mais até que identidade com o PT, verdadeira aderência programática e ideológica ao partido. Ainda que não venha a confirmar filiação à sigla de Lula (mas acredito que o fará), o fato é que ele e o PT estão hoje na mesma sintonia.
Outro sinal eloquente foi dado pelo próprio Contarato, eu sua tuitada prenhe de simbolismo publicada logo após a decisão de Fachin no dia 8 de março: “A decisão sobre a nulidade das condenações repõe Lula no páreo em 2022, com favorito: Bolsonaro não vencerá de W.O. dessa vez e terá em contraste ao seu mandato trágico e mórbido o legado de prosperidade e esperança da Era Lula. Um meteoro caiu na constelação política”.
Apague-se o nome, ignore-se o partido. Se você desconhecesse seu autor, diria que foram palavras escritas por um petista, não? Ou, no mínimo, por um simpatizante do PT. Ou quiçá por alguém na iminência de se filiar ao partido – talvez exatamente para contribuir com essa “não reeleição de Bolsonaro por W.O.”. Mais que sintomático, esse tweet foi premonitório.
Questionado pela coluna na ocasião, Roberto Carlos opinou que, com certeza, seu retorno ao PT aproxima ainda mais o senador do partido de Lula.
Por fim, não é demais lembrar que, nas últimas eleições municipais, com participação pessoal de Contarato, a Rede firmou alianças programáticas com o PT, numa autodenominada “frente progressista”, em municípios muito importantes do Espírito Santo, como Vila Velha e Cachoeiro de Itapemirim – respectivamente em torno dos candidatos Rafael Primo (então na Rede) e Joana D’arck (PT).
As candidaturas foram muito mal votadas. Mas, no contexto dessa análise, foram importantes para demarcar essa afinidade político-ideológica de Contarato com o Partido dos Trabalhadores.
Já se fala em Contarato candidato a governador pelo PT
Neste tópico, propomos um exercício assumido de “futurologia política”, mas já praticado a sério em círculos petistas no Espírito Santo: a se confirmar a ida de Contarato para o PT, o senador pode resolver um problema eleitoral para o partido.
Com a provável candidatura de Lula à Presidência, o partido há de querer lançar candidato próprio ao governo do Estado em 2022. Faltam nomes competitivos, porém. O considerado mais viável, hoje, é Helder Salomão, o único congressista pelo PT do Espírito Santo. Mas, se Helder for para uma candidatura majoritária de sacrifício, o PT-ES pode perder a sua vaga na Câmara dos Deputados. Em vez de ganhar um governador, perderá um deputado federal.
Agora, vai que Contarato se filia ao PT e é lançado ao governo do Estado? Ele não correria esse risco de ficar sem mandato: como senador eleito em 2018, tem mandato garantido no Senado até 2026. E Helder poderá ir para a reeleição, ou quem sabe tentar a vaga única de senador em disputa no ano que vem (a de Rose de Freitas).
Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo