Erick Musso e Casagrande: da cisão à quase fusão política
Quem os viu, quem os vê...
Erick Musso e Casagrande: da cisão à quase fusão política
Após o tremor na relação no fim de 2019, o agora reeleito presidente da Assembleia tem repetido como um mantra seu compromisso total de união com o governo Casagrande e de apoio político ao governador
Publicado em 03 de Fevereiro de 2021 às 02:00
Públicado em
03 fev 2021 às 02:00
Colunista
Vitor Vogas
vvogas@redegazeta.com.br
Erick Musso prega união total com o governo CasagrandeCrédito: Amarildo
Mas a “união” não ficou só no discurso de Erick. Na mesma sessão para a eleição da nova Mesa Diretora, esse mote também se fez muito presente nos pronunciamentos de deputados da base de Casagrande, como Renzo Vasconcelos, Marcelo Santos e, destacadamente, Eustáquio de Freitas (o mais fiel ao governador).
Esse clima predominante de “vamos todos dar as mãos” e de “juntos somos mais” é mais um indício de que Casagrande contratou um céu de brigadeiro na relação com a Assembleia e deve ter vida muito tranquila ao longo de 2021 – ao menos até o início das movimentações tendo em vista as eleições estaduais do ano que vem.
É uma significativa alteração de cenário político, num intervalo de 14 meses. Vamos lembrar que, em novembro de 2019, os chefes dos dois Poderes estiveram muito perto de romper, no episódio em que Erick, de maneira apressada e posteriormente frustrada, resolveu antecipar precisamente essa eleição que acaba de ocorrer (desta vez, na data normal). Sentindo-se enganado, o governador moveu então céus e terras, incluindo outras instituições do Estado, para anular aquela votação antecipada, o que de fato foi feito dias depois por iniciativa do próprio Erick.
O clima ruim entre os dois foi captado pela lente fotográfica de um colega em um icônico registro do momento político, durante a posse do atual presidente do Tribunal de Contas do Estado, Rodrigo Chamoun, no começo de dezembro de 2019. Dividindo por força do ofício a mesa de autoridades, Casagrande evitava olhar para Erick, com cara de irritação, enquanto Erick olhava para o lado oposto. Entre eles, apenas o (constrangido) conselheiro Sérgio Aboudib.
Casagrande, Sérgio Aboudib e Erick MussoCrédito: Colaborador da coluna
Mas quem os viu, quem os vê… A quase cisão do Novembro Sangrento de 2019 virou hoje, praticamente, fusão política. Agora, os dois são só afagos públicos, principalmente de Erick em direção a Casagrande. Contrastando com a foto acima e simbolizando a radical mudança no status do relacionamento, veja-se por exemplo esta imagem, captada pelo fotógrafo oficial do Palácio Anchieta durante solenidade do governo em Aracruz na última quinta-feira (28), a quatro dias de Erick ser reeleito com o apoio de Casagrande.
Erick Musso com Renato Casagrande em solenidade do governo em Aracruz, na última quinta-feira (28/01/2021)Crédito: Hélio Filho
Abaixo, compilamos algumas das frases mais emblemáticas do discurso de aclamação de Erick, com o seu mote reiterado da união, mesclado com manifestações diretas de gratidão ao próprio Casagrande. Em alguns pontos do discurso lido por ele, o presidente repetiu o trecho para dar ênfase.
Com união e caminhando de mãos dadas, [vamos] conseguir atravessar esse mar que ainda é tão revolto e desafiador.
Foi por isso que foi construída nesta Casa uma estratégia de união de forças e não de divisão [repetiu o trecho]. O progresso só advém da união. E estamos e estaremos cada vez mais unidos.
Juntos sempre nos tornaremos mais fortes.
Essas são algumas ações do Legislativo que mostram a nossa união e a confiança na liderança do governador Renato Casagrande.
De novo, amigos e amigas, preciso usar a palavra união, porque realmente acredito que é da união que vão nascer as soluções para um ano desafiador. Tenho insistido que somente com a união entre os Poderes Legislativo, Executivo, Judiciário, Ministério Público, Tribunal de Contas, Defensoria Pública, entidades representativas de classe e a sociedade civil organizada, conseguiremos dar passos firmes e seguros rumo a um cenário que nos leve a acreditar que dias melhores virão.
Quero agradecer particularmente ao governador Renato Casagrande pela confiança e pela parceria. E por nos conduzir no caminho do desenvolvimento e ao caminho da cura. O senhor, governador, tem o meu respeito. O senhor tem sido um líder incansável nesta crise que nós estamos enfrentando. O senhor tem e terá na Assembleia Legislativa parceria sólida para continuar conduzindo o nosso Estado para o rumo do desenvolvimento social e econômico.
Faço um apelo para que a gente exercite e pratique a união. Não estou pedindo para deixarem de acreditar nas suas convicções. Mas que o nosso olhar esteja voltado para o desejo da maioria. Com união alavancaremos políticas públicas que amenizem a difícil situação da população, principalmente dos menos favorecidos.
Concluo reiterando que só a união salvará o nosso país [repetiu o trecho], deixando para trás toda e qualquer diferença.
Não obstante a manifesta “gratidão” a Casagrande, Erick garantiu publicamente: “Nossa Casa continuará sendo harmônica e independente [repetiu o trecho], com bons debates, democráticos e salutares".
Erick também fez um pungente desabafo, às lágrimas, no fim do discurso: “Foram 446 dias de massacre, de desconfiança, de ataques, de quererem jogar todos na vala comum. Mas foram 446 dias de silêncio. E Deus e vocês vão me dar a oportunidade de concluir na história do Estado um terceiro mandato finito à frente da presidência da Assembleia do Espírito Santo”.
O número citado por Erick é um mistério, mas, pelo contexto, presume-se que seja uma remissão ao episódio da reeleição antecipada, em 27/11/2019. Porém minhas contas divergem (bastante) das dele. Desde então, passaram-se 432 dias (não 446) até 01/02/2021.
Em tempo: durante a sua reeleição na última segunda-feira, Erick viveu outros momentos, mais íntimos, de emoção. Longe das câmeras, chegou a chorar em meio a um forte abraço no deputado e aliado Marcos Mansur (PSDB).
“Rouco de ouvir” ou “surdo de falar”?!?
Foi bem no finzinho do discurso, enquanto as lágrimas já lhe escorriam, então vamos descontar a emoção do momento... mas Erick Musso afirmou que, hoje, fica “surdo de tanto falar”. Provavelmente, o que ele quis dizer foi que hoje fica “rouco de tanto ouvir”. E emendou, em tom de desabafo: “Já dizia a minha bisavó lá na roça: ‘quem fala muito dá bom dia a cavalo’”.
Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo