“Conta comigo para carregar o piano. Eu sou bom companheiro nos momentos bons. Mas, nos momentos difíceis, eu fico melhor. E não tenho medo da guerra não. Estamos juntos.” Equivalente a um juramento público de lealdade política, a fala foi feita pelo presidente da Assembleia Legislativa, Erick Musso (Republicanos), diretamente aos ouvidos do governador Renato Casagrande (PSB), que assistia a tudo da primeira fila. Erick também prometeu publicamente que, “no momento certo”, Casagrande terá o seu apoio não só administrativo e institucional como também politico (em provável referência à ainda mais provável candidatura do governador à reeleição em 2022).
O discurso de Erick, dirigido e dedicado a Casagrande, foi feito na manhã desta quinta-feira (28), durante evento do governo, realizado, simbolicamente, em Aracruz, terra natal e reduto eleitoral de Erick.
Ainda mais simbolicamente, o discurso de Erick para Casagrande foi feito na rua Luiz Teodoro Musso, que leva o nome do bisavô do atual presidente da Assembleia. Ali foi montado o palanque do governo estadual para a solenidade realizada por volta das 9h30, na qual o governador fez anúncios e assinou duas ordens de serviço para a cidade de Aracruz. Fazendo-se acompanhar por Erick, Casagrande passou a manhã inteira no município, em uma bateria de atividades, cujo auge foi o discurso de Erick.
Como o deputado destacou em seu discurso, esse foi o primeiro evento em que ambos apareceram juntos após as articulações que culminaram com um acordo entre ele e Casagrande visando à sua recondução à presidência da Assembleia pelo próximo biênio, em eleição pro forma a ocorrer na próxima segunda-feira (1º). Ou, como discursou o próprio Erick, foi a primeira aparição pública dos dois juntos após “uma pseudo-briga que nunca existiu”:
“Este é o primeiro evento depois de uma pseudo-briga que nunca existiu. Eu quero dizer ao senhor diante do meu povo, da minha gente e da minha cidade: o senhor tem a minha confiança, o meu apoio, a minha dedicação não só institucional, não só administrativa, mas no momento certo também política, porque o senhor merece, por tudo que o senhor tem feito em favor do Espírito Santo.”
Repudiando o que chamou de “esticação de corda” na política, Erick conclamou à união todas as autoridades políticas do Espírito Santo. Em menção também carregada de simbolismo, citou dois políticos presentes que, a princípio, não fazem parte de seu grupo político:
“É hora da união. É hora da união. A ‘esticação’ de corda neste país nós estamos vendo o que está fazendo com os brasileiros. O cabo de guerra esticado não leva ninguém a lugar nenhum. Temos os capixabas para vacinar. Temos que debater com os capixabas o retorno às aulas. Temos desafios e obstáculos. E, juntos, já vai ser difícil ‘pra danar’. Mas, se nós estivermos divididos, não vai triplicar não… E eu também não vou falar nem que vai ser 10 vezes mais [difícil], nem 11, pra não dizerem que é Republicanos e PP. Vai ser 23 vezes pior, se nós estivermos desunidos, porque aí nós falamos do nosso prefeito Coutinho e do nosso deputado Fabrício Gandini.”
O 23 é o número de urna do partido Cidadania, de Doutor Coutinho e de Gandini (o presidente estadual da sigla). Na eleição de novembro passado, Coutinho derrotou em Aracruz o candidato apoiado por Erick, Alcântaro (PSD), enquanto Gandini foi batido em Vitória pelo candidato apoiado por Erick, Lorenzo Pasolini (Republicanos). Além disso, Gandini foi um dos deputados que protestaram publicamente e entraram com ação na Justiça para barrar a tentativa de reeleição antecipada de Erick em novembro de 2019.
Virtualmente reeleito, o presidente da Assembleia incluiu os chefes de outras instituições estaduais nessa “união de forças” em prol do Espírito Santo, ressaltando o “equilíbrio institucional” do Estado, “de dar inveja” a outras unidades da federação:
“Vamos juntos, não em favor de projetos pessoais, não em defesa de um mandato de olhar para o próprio umbigo. Mas vamos dar as mãos: as instituições, as prefeituras [...], as câmaras, os Poderes constituídos… E nós temos um equilíbrio institucional de dar inveja aos Estados da federação, sob a figura do desembargador Ronaldo, presidente do Tribunal de Justiça, sob a figura da doutora Luciana, nossa procuradora-geral do Ministério Público, sob a figura do conselheiro Rodrigo Chamoun, presidente do Tribunal de Contas, sob a figura do nosso Gilmar, reconduzido agora na Defensoria Pública, e com nós dois”, arrematou, aludindo a si mesmo e a Casagrande.
E finalizou com a frase que abre este relato, apresentando-se diante de Casagrande e de muitas testemunhas, em sua terra, como companheiro bom nos momentos bons e melhor ainda nos difíceis; como o homem que “carregará o piano” (supõe-se: para o governador tocar); e como um oficial disposto a ir para a guerra por ele e por seu governo, se preciso:
“Conta comigo para carregar o piano”, disse a Casagrande. “Eu sou bom companheiro nos momentos bons. Mas, nos momentos difíceis, eu fico melhor. E não tenho medo da guerra não. Estamos juntos. Viva Aracruz! Viva o Espírito Santo!"