Derrotado por muito pouco no 2º turno da eleição pela Prefeitura de Vitória, o deputado estadual Fabrício Gandini (Cidadania) foi recebido, na noite desta terça-feira (17), por Renato Casagrande (PSB). Os dois se reuniram a portas fechadas no gabinete do governador, no Palácio Anchieta, por volta das 19h30, na presença do secretário-chefe da Casa Civil, Davi Diniz.
Como não poderia deixar de ser, Gandini foi ao encontro de Casagrande para conversar sobre o resultado do 1º turno do processo eleitoral em Vitória (surpreendente para muitos, que, até cerca de uma semana do primeiro escrutínio, davam por certo que Gandini seria um dos dois "classificados para a final"). Os dois fizeram um balanço do 1º turno, e o diálogo também passou pelo posicionamento a ser tomado por Gandini no 2º turno, disputado entre o ex-prefeito João Coser (PT) e o deputado estadual Lorenzo Pazolini (Republicanos).
Ao longo de todo o 1º turno, Gandini polarizou com Pazolini, num grande duelo à parte. Enquanto o deputado do Republicanos pratica oposição ao governo Casagrande, Gandini é fortíssimo aliado do atual governador, seja como membro da sua base parlamentar, seja como presidente da importantíssima Comissão de Justiça da Assembleia. Os partidos de Gandini (Cidadania) e de Casagrande (PSB) são os dois mais importantes pilares do atual governo e mantêm antiga aliança política no Estado, que passa fundamentalmente pela Prefeitura de Vitória.
Em outras palavras, o Cidadania é o principal partido aliado a dar sustentação política ao governo Casagrande. Por isso, uma das perguntas que mais circulam no momento entre agente políticos da Capital é: por que o governador "deixou" a situação chegar a esse ponto, correndo o risco de perder para um notório opositor e para outro grupo político o controle sobre a prefeitura mais estratégica do Estado, em vez de ter barrado desde o início a candidatura do vice-prefeito Sérgio Sá (PSB)?
Após uma união bem-sucedida na eleição de Luciano em 2012 e em sua reeleição quatro anos depois, PSB e Cidadania se separaram nessa disputa em Vitória, não obstante o forte elo que os une na geopolítica estadual. Lançaram candidatos próprios e, obviamente, dividiram votos.
Com 36.172 votos absolutos, Gandini chegou em 3º lugar, a 1.201 votos de Coser. Mesmo tendo chegado em 7º lugar, Sá obteve 7.110 votos. Em uma eleição tão apertada, a votação do candidato do PSB, se "transferida" para Gandini, mesmo que apenas em parte, teria sido mais que suficiente para ajudar o candidato do Cidadania lo a superar Coser e garanti-lo no 2º turno contra Pazolini.
Em fevereiro, durante entrevista dada à coluna no Palácio Anchieta, poucos dias antes de Sérgio Sá vencer a prévia do PSB em Vitória para consolidar pré-candidatura, Casagrande chegou a dizer, textualmente, ter "compromisso com o fortalecimento do projeto político de Luciano Rezende na Capital".
Não rolou esse "fortalecimento".
GANDINI TENDE A FICAR NEUTRO
Agora, a pergunta do milhão (o que fará Gandini nesse 2º turno em Vitória?) ainda carece de uma resposta oficial do próprio, mas começa a ser respondida por alguns aliados e interlocutores do deputado: a tendência de Gandini é manter-se neutro nessa etapa decisiva do processo. Com Pazolini ele já não iria em hipótese alguma. Mas tampouco deve perfilar-se a Coser. Tudo indica que, nesse sentido, ele já liberou os vereadores atuais e eleitos pelo Cidadania para se posicionarem individualmente, como cada um preferir.
Um exemplo, na manhã desta quarta-feira (18), foi dado pelo reeleito Luiz Emanuel Zouain, que declarou apoio a Pazolini. Por outro lado, o também reeleito Denninho Silva, campeão de votos na disputa legislativa municipal, não deverá seguir com o candidato do Republicanos. A tendência (sublinhando a palavra) é que ele manifeste apoio a Coser.
NOITE LONGA PARA DINIZ
Aliado de Gandini e do prefeito Luciano Rezende (ambos do Cidadania), Davi Diniz já foi filiado ao mesmo partido, presidido por Gandini no Estado. É grande aliado de ambos, apoiou a candidatura de Gandini no 1º turno e, como chefe da Casa Civil, é o principal encarregado das articulações políticas em nome do governo Casagrande, principalmente na interface com os deputados estaduais.
A noite desta terça-feira foi longa para o secretário. Gandini não foi o único a ser recebido por Casagrande no Palácio Anchieta. O gabinete do governador virou Meca de uma procissão, ou peregrinação, por parte de aliados derrotados que estão a lamber suas feridas e outros que avançaram ao 2º turno e agora esperam do governo Casagrande um apoio mais explícito e robusto.
O QUE DIZEM OS INTERLOCUTORES DE GANDINI?
Muito reservadamente, um interlocutor de Gandini me deu a seguinte declaração: "Ele está bem, já está se reestruturando. Vai focar no mandato, rodar o Estado e, pelo que entendi, cumprir o papel de vigilância em Vitória, seja quem for o vencedor".
Outra fonte também muito próxima ao deputado me disse o seguinte: "Eu penso que ele vai ficar neutro. Não vai apoiar ninguém. Mas vai votar no Coser. Não vai compor com ninguém. Não quer estar no governo de nenhum. Mas pensa que é melhor a ameaça e a falta de competência que já conhecemos do que a incerteza de quem tem o crime organizado no palanque".
Durante o 1º turno, a campanha de Gandini usou bastante essa "colagem" entre a figura de Pazolini e uma alegada "ameaça de retorno do crime organizado ao Estado".