O governo Casagrande perdeu o seu direito de errar na Segurança Pública. Todas as suas “cartas-bônus” já foram queimadas. Agora, não pode continuar nesse jogo de tentativa e erro. É preciso, antes de tudo e o quanto antes, encontrar um rumo eficiente, bem definido, e manter-se nesse rumo até o fim, sem novas turbulências na gestão da Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp) e, o que é mais importante, no enfrentamento à criminalidade no Espírito Santo. É o que a população capixaba merece e espera.
Nesta terça-feira (7), como noticiamos aqui na coluna, o governador exonerou do cargo o comandante-geral da Polícia Militar, coronel Márcio Eugênio Sartório, agora substituído pelo coronel Douglas Caus. Um dia antes, já pedira o cargo ao secretário de Segurança Pública, Roberto Sá, que dá lugar agora ao coronel Alexandre Ramalho no comando da Sesp. Cumpre lembrar que, em novembro passado, com menos de um ano de governo, Casagrande já trocara o então chefe da PMES, coronel Moacir Barreto, pelo coronel Sartório, por sua vez agora substituído no cargo por Caus.
Fazendo as contas, só no comando-geral da PMES, o governo já vai para a terceira “tentativa”. Na chefia da Sesp, entra agora na segunda. Somando Barreto, Sá e Sartório, acumulam-se três trocas significativas na alta cúpula da Segurança Pública do Estado, antes de completado o primeiro terço do atual governo Casagrande, no fim deste mês de abril (16 de 48 meses = 1/3).
Tamanha dança das cadeiras não é nem um pouco comum, muito menos desejável, principalmente em uma área tão sensível e importante como a Segurança Pública, que requer continuidade na definição e na execução de estratégias. Denota, paradoxalmente, “insegurança” e falta de rumo claro. Transmite a impressão de um governo que tateia no escuro. Ou falta planejamento, ou o planejamento é ruim ou, simplesmente, não se consegue atingir o que se planeja na área. Seja qual for o caso, nenhuma das opções é boa.
Evidentemente, não há nada a desabonar o ex-secretário e os dois comandantes-gerais exonerados até este ponto. Basta passar o olho nos respectivos currículos para constatar que são quadros excelentes, altamente qualificados. Sartório, por exemplo, além de toda a especialização profissional, tem a ficha funcional marcada por proezas esportivas: é multicampeão estadual e nacional de torneios hípicos envolvendo militares.
No entanto, a brevidade da permanência de todos eles nos cargos indica uma conclusão inequívoca: não eram as pessoas certas no lugar certo e na hora certa. O próprio governo reconhece isso, na medida em que decide trocá-los – o equivalente a uma confissão de que a escolha, quando feita, foi equivocada. E aqui não há como fugir do óbvio: se a escolha foi equivocada, o erro também está em quem fez a escolha. Nesse caso, o governador, comandante em chefe da PMES e chefe imediato do secretário de Segurança.
O exemplo mais notório é Sartório (com perdão pela rima acidental). Sua passagem incrivelmente curta de quatro meses pelo comando-geral da PMES sinaliza que o governador se deu conta de que cometeu um erro ao nomeá-lo e que o coronel não era exatamente a pessoa que ele buscava para a função no momento. Mas, ora, se não era ele o quadro ideal, com o perfil procurado no momento, não teria sido possível identificar isso lá em novembro, quando Barreto saiu, até para evitar esse constrangimento?
A BOLA ENSINA...
Assim como todas as atividades não essenciais (e policiamento ostensivo não é uma delas), os campeonatos de futebol pelo mundo inteiro estão paralisados neste momento, em função da pandemia do coronavírus. Mas o velho esporte bretão, mesmo para quem não o curte, tem lições a nos ensinar. Uma delas, que se aplica bem ao caso:
Quem consegue se lembrar de cabeça de três times que tenham sido vitoriosos e alcançado conquistas importantes mudando o treinador uma ou até mais vezes no meio da competição? A mim ocorrem os dois últimos títulos brasileiros do Flamengo: com Andrade assumindo o lugar de Cuca em 2009 e, no caso mais recente, com o “Mister” Jorge Jesus substituindo Abel Braga no ano passado (sim, o colunista é flamenguista).
Mas são exceções que confirmam a regra. Normalmente, esses clubes que trocam demais o técnico, além de mostrar uma diretoria perdida, brigam nas últimas posições da tabela.
Se em time que está ganhando não se mexe, em time que se mexe demais...
Vale no futebol. Vale na política.