“Mais que esconder o jogo, a avaliação de agentes políticos da cidade [de Colatina] é que ele [Guerino Balestrassi] na verdade está esperando a decisão de outro líder local para poder tomar a sua: a do próprio prefeito [Sérgio Meneguelli]. Para muitos, Guerino só entra nesse páreo se Meneguelli não buscar a reeleição.” A análise acima foi publicada aqui no dia 16 de agosto. Agora, ela se concretiza.
Guerino Balestrassi (PSC) quer mesmo ser candidato novamente a prefeito da cidade governada por ele por dois mandatos seguidos, de 2001 a 2008. Com a desistência de Meneguelli em concorrer à reeleição – condição fundamental para isso, conforme destacamos há um mês –, o caminho ficou escancarado para que o ex-prefeito consume o seu projeto de voltar a disputar o comando do Executivo da maior cidade da região Noroeste do Estado.
No momento, o ex-prefeito trabalha para buscar atrair para sua coligação dois partidos muito importantes nessa eleição local, principalmente por serem representados na cidade por dois dos principais líderes políticos de Colatina: o PSB do secretário estadual de Agricultura, Paulo Foletto, e o Cidadania do deputado federal Josias Da Vitória.
A adesão dessas duas siglas, ou de pelo menos de uma delas, à candidatura de Guerino, seria um “plus eleitoral” para o ex-prefeito, mas a verdade é que o lançamento dele a esta altura independe dessa suplementação. Com os apoiadores e partidos aliados que Guerino já reúne em torno de si, ele já tem sustentação suficiente para bancar a candidatura, como o próprio afirma à coluna: “Já. Já dá, sim”.
Em relação aos partidos aliados, Guerino, além do próprio PSC (partido nanico), já pode dizer que tem o apoio de quatro siglas que, de fato, por seu tamanho, sustentam qualquer candidatura: o PSD, o PDT, o DEM e o PP. As quatro podem ser consideradas de médio para grande porte, inclusive no que se refere às respectivas bancadas no Congresso Nacional, fator determinante para o financiamento público da campanha do candidato e seu tempo no horário eleitoral (Colatina tem propaganda no rádio e na TV).
CANDIDATURA FECHADA NA CASA DE PERGENTINO
O grupo político de Pergentino tem muita influência sobre o DEM e controla na cidade o PDT, que chegou a ensaiar lançar na disputa o médico Rogério Resende, coordenador do curso de Medicina da Unesc, agora indicado a vice de Guerino. Já o PP, partido de Renzo, é o partido com maior bancada na Câmara de Colatina (são quatro vereadores, incluindo o presidente Eliesio Bolzani) e também já pulou para dentro da nova barca pilotada pelo ex-prefeito nessa disputa.
De quebra, o PSD adere automaticamente à chapa de Guerino, com a retirada da pré-candidatura do economista Sebastião Demoner. Como também anotamos aqui no dia 16 de agosto, “o economista só deve ser candidato se Guerino não for. Se o ex-prefeito entrar no páreo, deve remover a candidatura de Demoner”. É o que efetivamente ocorre agora.
A aliança em torno de Guerino entre PSC, PSD, PDT, PP e DEM foi selada em reunião na casa de Pergentino Júnior, na noite da última quinta-feira (17), instantes após o anúncio da refugada do prefeito Meneguelli. Além do ex-prefeito e do anfitrião, o encontro teve a participação de Renzo, Demoner e três vereadores do PP: Eliesio, Juarez e Tedinha. Guerino relata o resultado:
“Botei meu nome à disposição para analisarem essa possibilidade. Teve um grupo que já se interessou. Eu, o PSC e o PSD já estamos juntos desde o início e continuamos juntos. Tentei levar para o Demoner, mas o grupo me pediu para que a candidatura fosse a minha. Ficaria mais fácil de juntar. E eles ficaram de fazer um trabalho com o PSB e o Cidadania, para buscar trazê-los também.”
Guerino também conta que, na quinta-feira mesmo, conversou por telefone com Foletto e com Da Vitória. Ou seja, a aproximação está em curso. “Eles estão analisando o processo porque têm candidatura. E também estão conversando entre eles, porque já estavam tentando construir esse bloco já há algum tempo”, explica o ex-prefeito.
De fato, a formação de um “chapão” com Guerino na cabeça, o grupo de Pergentino e Renzo, PSB e Cidadania é viável, mas a engenharia é complexa. Há o raciocínio mais prático (o da conjuntura eleitoral do município) e há o raciocínio estratégico (o da conjuntura política estadual).
PARA CASAGRANDE, INTERESSA ESSE “CHAPÃO”
No plano estadual, o PSB de Foletto governa o Estado, com Renato Casagrande, contando com o apoio do Cidadania (Da Vitória e Pergentino) e do PP (Renzo). Ou seja, estão todos no mesmo movimento político liderado por Renato Casagrande. Desse ponto de vista, uma união de forças na eleição em Colatina faz pleno sentido. Mas, além de Guerino, tanto o PSB como o Cidadania possuem e mantêm seus próprios candidatos à prefeitura: respectivamente, o vereador Renann Bragatto e a professora Maricélis.
Antes do anúncio da desistência de Meneguelli, visando derrotar (ou, pelo menos, “assustar”) o atual prefeito, PSB e Cidadania chegaram a ensaiar uma aproximação, que poderia culminar com uma união de forças ao redor de um só candidato, mas sem resultados práticos. Agora, com a saída de Meneguelli e a ascensão de Guerino no processo, o ex-prefeito é mais um vetor nesse campo de forças para derrotar a situação em Colatina e um agente importante que se soma a essa negociação com Foletto e Da Vitória.
Na verdade, para Casagrande e seu grupo, o recuo de Meneguelli gera um cenário em que se faz ainda mais importante uma união de forças governistas para chegar à Prefeitura de Colatina.
Filiado ao Republicanos, o atual prefeito não é propriamente um aliado do Palácio Anchieta, mas tampouco um adversário. Porém, com Meneguelli fora, o presidente do Republicanos em Colatina, Marcos Guerra, levou o partido para a chapa liderada por Luciano Merlo (Patriota), na qual o próprio Guerra deverá ser o vice. O mesmo fizeram PSDB e MDB, até então com Meneguelli.
Tanto Merlo como Guerra são declaradamente de direita, bolsonaristas convictos e, mais importante de tudo: muito próximos ao ex-deputado federal Carlos Manato (sem partido), que disputou o governo com Casagrande em 2018 e hoje lidera um movimento de direita em oposição ao governador no Estado.
Resumindo: essa chapa Merlo/Guerra está num polo oposto ao de Casagrande, e sua eventual eleição em Colatina é tudo que o governador não quer.
FOLETTO E DA VITÓRIA MANTÊM SEUS CANDIDATOS
Por outro lado, a viabilização de um “chapão palaciano” na cidade, com as bênção de Casagrande, pode esbarrar em questões práticas. Segundo Foletto, está mantida a candidatura de Renann Bragatto.
“O grupo do Renzo tinha um combinado com o PSB e fugiu, de repente sumiu. fiquei sabendo que estão se aproximando lá do Guerino. E também estão chamando a gente. Acho que em Colatina, com a saída do Sérgio Meneguelli, tem um cenário que se descortina muito amplo ainda. Mas acho difícil esse chapão. A candidatura do Renann está mantida e será mantida”, afirma Foletto.
Da Vitória também sustenta a candidatura de sua pupila: “Do mesmo jeito que eles esperam a Maricélis, a gente também espera que Guerino possa vir. Maricélis tem declarado publicamente que está aberta para composições maiores, inclusive com o Foletto e com os partidos que estão orbitando em volta dessa candidatura do Guerino. Além do Cidadania, Maricélis já está com o Avante, o PSL e o Podemos. Ela me surpreende a cada segundo. Nunca vi uma candidata com tanta disposição”.
Assim, para que Guerino, Bragatto e Maricélis possam se fundir em um só candidato, muita gente terá que ceder em muita coisa. Vamos ver no que isso vai dar.
Que Guerino é candidato, isso é. Resta saber se será o candidato do Palácio Anchieta.
POR QUE MENEGUELLI DESISTIU???
Quer entender a desistência de Meneguelli? Leia a coluna abaixo, publicada no dia 17 de agosto, precisamente um mês antes do anúncio do prefeito, na última quinta-feira (17).