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Game of Tramas - finale (será?)

Oposição e aliados de Luciano abaixam as armas na Câmara de Vitória

Nenhum dos lados admite isso publicamente, mas, após meses medindo forças numa guerra política ininterrupta, grupo ligado ao prefeito Luciano e o do presidente da Câmara concordam em abaixar as armas para focar no que mais lhes interessa: a temporada eleitoral

Publicado em 26 de Julho de 2020 às 06:00

Públicado em 

26 jul 2020 às 06:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

vvogas@redegazeta.com.br

Luciano Rezende, Vinícius Simões e Cleber Felix
Luciano Rezende, Vinícius Simões e Cleber Felix Crédito: Montagem de Vitor Vogas
Após meses de uma guerra política sem limites que dominava a pauta da Câmara de Vitória desde antes da pandemia, a tropa de vereadores associados ao prefeito Luciano Rezende (Cidadania), liderada por Vinícius Simões (Cidadania), e a do presidente da Casa, Cleber Felix (DEM), estabeleceram um acordo de cessar-fogo; um armistício tácito, não verbalizado, mas que se faz muito evidente pelo conjunto de sinais – ou melhor, pela ausência deles.
As duas últimas semanas na Câmara foram de paz e pasmaceira, um idílio de quietude que contrasta com os mais de quatro meses de ininterrupta troca de hostilidades e ameaças entre os dois lados, com direito a instauração de CPIs, processos de parte a parte na Corregedoria da Casa, ações e reviravoltas na Justiça.
Conforme o pleito de novembro se aproxima e a própria reeleição desponta como prioridade absoluta para cada um dos 15 vereadores, ninguém parece muito interessado mais em prolongar esse jogo de guerra, apelidado aqui de “Game of Tramas”, o qual, sinceramente, não ajudava nenhum deles a atingir esse objetivo maior, pois não estava ficando bonito nem “pegando bem” para nenhum dos envolvidos. Ao contrário.
Do lado de Vinícius Simões, tendo por mentores Luciano e o deputado estadual Fabrício Gandini (presidente regional do Cidadania e pré-candidato do prefeito à prefeitura), as armas apontadas contra Clebinho eram uma CPI para investigar os atos da gestão do atual presidente (proposta por Vinícius) e, de modo particularmente ameaçador, uma representação movida por Vinícius na Corregedoria, contra Clebinho, que poderia culminar com o afastamento deste da presidência, por alegada incapacidade administrativa.
Já do lado de Clebinho, as armas que ameaçavam o prefeito, a gestão de Luciano e sua tropa de choque na Câmara eram um processo movido por Clebinho contra Vinícius Simões na Corregedoria, pedindo a cassação do mandato do vereador por quebra de decoro parlamentar, e, principalmente, uma trinca de CPIs:
Uma delas proposta pelo próprio Clebinho, em retaliação à de Vinícius contra ele, para investigar atos pregressos da gestão do vereador do Cidadania (seu antecessor na presidência da Câmara, no biênio 2017/2018); uma de autoria do vereador Roberto Martins (Rede), pré-candidato a prefeito e opositor de Luciano, para investigar supostas irregularidades no programa Porta a Porta; e a terceira proposta pelo vereador Mazinho dos Anjos (PSD), também pré-candidato a prefeito e também opositor do prefeito, supostamente para investigar “fake news”, mas basicamente focada na contratação de serviços de uma empresa de análise de “big data” por parte da prefeitura.

OS SINAIS DA “OPERAÇÃO ABAFA”

Por que podemos inferir que, num “acordão de bastidores”, as armas de ambos os lados começaram a ser abaixadas ao mesmo tempo? Por causa dos fatos eloquentes ocorridos no dia 13 de julho.
Nessa data, a Corregedoria reuniu-se para decidir se daria ou não continuidade aos processos propostos por Clebinho contra Vinícius e vice-versa. O do atual presidente contra Vinícius foi arquivado por unanimidade. Já era esperado. A representação era retaliação pura. Acintosamente frágil e desproporcional. Basicamente, Clebinho queria cassar o adversário por “quebra de decoro parlamentar” por causa de posts em que Vinícius reclamou da não realização de sessões virtuais pela Câmara no comecinho da pandemia. Cassar um mandato por causa disso?!?
A de Vinícius contra Clebinho até tinha um pouco mais de fundamento. Essa, sim, poderia dar em algo. No entanto, por 3 votos a 2, foi arquivada na Corregedoria antes mesmo de se abrir qualquer investigação, com direito a voto para salvar Clebinho do vereador Luiz Paulo Amorim (PV), aliado de Vinícius, Luciano e Gandini. Um primeiro sinal muito forte de possível acordo de “abafa tudo”; Mas o sinal mais contundente veio um pouco antes.

A SENHA DADA POR DAVI ESMAEL

Como sabe até a senhora que serve o cafezinho no plenário da Câmara, o mentor político de Clebinho e verdadeiro líder da oposição a Luciano na Câmara é o vereador Davi Esmael (PSD). Davi é titular da Corregedoria e líder da bancada do PSD, formada, além dele, por Mazinho dos Anjos.
Pouco antes da reunião virtual da Corregedoria no dia 13 de julho, Davi, como líder do PSD, protocolou um ofício em que, literalmente, declarou o “desinteresse” do PSD (ele e Mazinho) em participar das quatro CPIs instauradas. Nem mesmo a das fake news, que fora proposta pelo próprio Mazinho. Na prática, em documento assinado por Davi, Mazinho retirou o seu nome da CPI proposta por ele mesmo; uma comissão que tinha potencial para incomodar a base e a gestão de Luciano.
Não há outra interpretação possível: foi um senhor “gesto de boa vontade”, uma senha emitida por Davi para a base de Luciano, deflagrando o início, não oficial e não declarado, de uma operação que poderia ser chamada de “Deixa Quieto”, “Chega Disso”, “Abafa o Meu que Eu Abafo o Seu”.
Para completar o próprio gesto, Davi votou pelo sepultamento dos dois processos na Corregedoria (o de Clebinho contra Vinícius e vice-versa). E, durante a reunião do órgão disciplinar, fez fala com ênfase na necessidade de harmonização e pacificação da Casa, voltada especialmente para o líder de Luciano, o vereador Luiz Emanuel Zouain (Cidadania), outro artífice desse acordo de bastidores.

MAS E QUANTO ÀS CPIs?

Assim, as ameaças mútuas na Corregedoria morreram de mãos dadas. Subsistem as quatro CPIs, que oficialmente seguem instauradas e em funcionamento. Oficialmente. Na prática, é como se não estivessem. E, muito provavelmente, não darão em nada. Não só pelas dificuldades naturais – e óbvias desde o início – de se sustentarem os trabalhos de apuração exigidos por uma CPI em plena pandemia – como também, agora, pelo evidente desinteresse de parte a parte em se aprofundar qualquer investigação.
Exceção feita à do Porta a Porta, de Roberto Martins, que não participou desse acordão velado de cessar-fogo, mas que terá muitas dificuldades em produzir resultados práticos nessas condições práticas e políticas. Não é exagero dizer: as quatro CPIs viraram agora um problema para os parlamentares.

O “FURO” NA EXPLICAÇÃO DA DUPLA “DAVIZINHO”

Um último sinal inequívoco que confirma a tese da “Operação Abafa” é um “furo” na argumentação tanto de Davi quanto de Mazinho para justificar a retirada de seus nomes das CPIs que fustigavam a prefeitura – sobretudo a das “fake news”. Ambos alegaram à coluna que, na escolha dos integrantes da CPI – feita pelo próprio Clebinho –, a escalação favoreceu os aliados do prefeito.
A das “fake news” tem cinco vagas. Segundo os dois oposicionistas, três delas ficaram com vereadores da base de Luciano, os quais, com maioria, inviabilizariam os trabalhos investigativos pretendidos por Mazinho. Assim a CPI, no próprio nascimento, teria perdido a razão de ser, pois não investigaria nada efetivamente.
Esse argumento simplesmente não procede.
É só ler a lista de membros para chegar à conclusão contrária. Na CPI das Fake News, o 3 a 2, na verdade, era a favor da oposição (e assim foi estrategicamente montado por Clebinho). Entre os cinco membros estão, além do próprio Mazinho, os vereadores Roberto Martins e Sandro Parrini, aliado de Clebinho e correligionário dele no DEM. Três oposicionistas, que não compõem o “blocão de aliados do prefeito”. Em minoria, Nathan Medeiros (PSL) e Wanderson Marinho (PSC), dois vereadores da base.
Tanto é assim que Luiz Emanuel protestou e Vinícius Simões, em 29 de junho, chegou a apresentar a Clebinho “recurso ao plenário” (obviamente, ignorado), para reconsideração do ato baixado pelo presidente três dias antes, com a escalação das CPIs.
Segundo Vinícius, o presidente ignorou solenemente a regra regimental da proporcionalidade, que deveria garantir a maioria dos assentos nas CPIs ao bloco parlamentar formado no dia 23 de junho, com oito vereadores da base e liderado por ele: “O Ato do Presidência 71, de 26 de Junho de 2020, […] regulamentou a composição das Comissões Parlamentares de Inquérito sem a observância das indicações tempestivamente realizada pelo Bloco Parlamentar”.

CONCLUSÃO: CANHÃO VIROU BOMBINHA

Enfim, se a oposição representada por Mazinho e por Davi na verdade tinha a maioria e podia deitar e rolar nessa CPI das Fake News, mas diz que tinha a minoria e simplesmente desistiu da comissão, temos aí mais um sinal, forte sinal, de que o que está em curso mesmo é um acordão não declarado de cessar-fogo na Câmara de Vitória.
Os canhões apontados de parte a parte entre fevereiro e junho viraram bombinha de São João em “festa julina”, extemporânea.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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