Uma disputa de viés ideológico e de baixa qualidade, trazida por um avião da FAB, pousou com estrondo no solo do Espírito Santo. Essa disputa é ditada diretamente de dentro do Palácio do Planalto e, durante a pandemia do novo coronavírus, está mais enraizada que nunca em terras capixabas.
Ao contrário do que muitos querem fazer crer, a ideologia não é um mal em si, mas, ao contrário, algo próprio e inerente a toda ação política e a todo discurso político. Natural, portanto, que diferenças ideológicas se manifestem, por exemplo, no embate entre a oposição e o governo estadual. O problema é o exagero, o excesso de ideologização, que se traduz em extremismo, o qual rima, por sua vez, com fanatismo.
Nos últimos tempos, é o que se extrai da atuação da oposição ao governo Casagrande na Assembleia Legislativa. Isso é ruim para a própria oposição, que, assim, aparenta desespero. Soa como apelação e como oposição como um fim em si mesmo, só por oposição. Enfraquece a própria credibilidade.
Esse extremismo embota a visão e retira do debate o mínimo equilíbrio necessário, inclusive para que a oposição possa crescer, atingir seus objetivos e para que possa ser levada a sério fora do seu nicho de seguidores já convertidos. Ultimamente, tanto em publicações na internet como em pronunciamentos nas sessões da Assembleia, está faltando esse equilíbrio a opositores. Está faltando lógica e está faltando lucidez, enquanto sobram radicalismo e demagogia. Darei só um exemplo clamoroso.
Na sessão do último dia 15, o deputado Capitão Assumção (Patriota), em discurso com o dedo em riste, dentes trincados e webcam tremendo por causa do gestual, afirmou textualmente sobre o secretário estadual da Saúde, Nésio Fernandes (filiado ao PCdoB e situado em outro polo ideológico, do ponto de vista estritamente partidário):
“Esse camarada está matando os nossos capixabas! São mais de mil mortos que estão na conta desse secretário! […] Cada deputado é dono do seu próprio mandato e deve obrigação ao povo, e não a um médico cubano irresponsável que está matando os capixabas! O sangue de mais de mil capixabas está nas mãos desse sanguinário, que obedece a ordens de Cuba! […] Vocês estão matando os capixabas! Não se precaveram para essa lástima, para essa tragédia, e querem pôr essa responsabilidade agora nas costas dos capixabas!”
Isso é apelação pura e simples.
Em primero lugar, após uma acusação como essa, seria forçosa uma reflexão sobre o que o deputado está fazendo para colaborar de verdade no combate à pandemia, para poupar vidas, além de praticar a estratégia de negacionismo ditada por seu líder e fazer campanha diária contra o isolamento social (até agora, a única estratégia com eficácia cientificamente validada para reduzir o contágio e preservar vidas).
Soa cômodo (e de novo: apelativo) sair apontado A, B ou C como “culpado por todas as mortes” por Covid-19 no Estado e, ao mesmo tempo, como autoridade política, manter uma atitude que em nada contribui para reduzir esse número de mortes, muito pelo contrário.
O governo estadual comete falhas? Comete-as. A primeira e mais evidente delas é a tomada de algumas decisões dúbias e questionáveis. Em relação à possível decretação de um lockdown, houve mensagens e medidas contraditórias, além de vaivém e bate-cabeça entre secretários, pontos já detidamente criticados aqui, inclusive.
Há suspeitas e investigações relacionadas a contratações emergenciais, como a do MPES que atinge quatro contratos firmados pelo hospital Dório Silva. Há denúncias, investigadas pelos próprios deputados, relativas à falta de medicamentos e equipamentos e às condições de trabalho dos profissionais de saúde na linha de frente. Há a ação civil pública ajuizada pelo MPF apontando inconsistências no Painel Covid-19 e a divulgação de "dados enganosos" sobre a ocupação dos leitos para pacientes da doença na rede pública do Estado.
A decisão de não abrir hospitais de campanha é controversa até entre especialistas: alguns entendem a abertura como necessária, embora o próprio Ministério da Saúde recomende a medida só em último caso e o governo insista na tese de que a expansão dos leitos promovida em hospitais estaduais permanentes já superou muitas vezes a que teria sido proporcionada com a criação de hospitais de campanha (provisórios e com estrutura precária).
E aí pergunto: não obstante tudo isso, é correto afirmar que o governador do Estado ou o secretário da Saúde é culpado pelas mortes de uma doença nova, fatal e sem cura? É óbvio que não!
Por essa linha demagógica, poderíamos também afirmar, perfeitamente, que a culpa maior, até por estatura hierárquica, compete ao atual ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello, e/ou à pessoa do presidente da República, Jair Bolsonaro, apoiado incondicionalmente por Assumção.
Ora, é um presidente avestruz (o único entre as potências mundiais). É o rei do negacionismo, por sinal seguido aqui, com obediência e disciplina, pelo deputado bolsonarista. Desde o início, o presidente optou pela estratégia de fingir que o problema não é com ele e que, aliás, nem existe.
Contra todas as evidências, manteve-se e mantém-se inarredável nessa estratégia baseada em omissão deliberada e negação dos fatos. Fugiu, e assim persiste, de todas as responsabilidades imagináveis de um presidente da República numa crise humanitária como esta, sendo a maior delas de muito simples definição: liderar o país de verdade na travessia desta crise.
Tivesse Bolsonaro se disposto, minimamente, a coordenar os esforços sanitários em todos os níveis federativos, passando por Estados e municípios, será que o Brasil (Espírito Santo incluso) estaria experimentando hoje um quadro menos desesperador que o atual, com números possivelmente menos trágicos? É provável que sim.
Dito tudo isso, pergunto: ainda assim, é correto botar todas as mortes do país na conta de Bolsonaro, dizer que ele é pessoalmente responsável por cada vítima de Covid-19 no Brasil? É óbvio que não!!!
Então por que o que não vale para um (o aliado) deveria se aplicar ao outro (o adversário)?
Mais bom-senso seria bem-vindo.
No cumprimento de seu papel de fiscalizar, criticar e cobrar o governo, a oposição é útil e importantíssima em nossa democracia. Mas, quando desce a esse nível de apelação, soa como oposição radical, enfraquecendo a própria atuação. Dentro do seu nicho, isso pode até fortalecê-la. Mas seu nicho já é seu nicho, já está convertido. Fora dele, pode ser ruim para ela mesma, na medida em que perde credibilidade com declarações raivosas e destrambelhadas como essa (e outras) de Assumção.