O Espírito Santo tem, na Vice-Governadoria, não só a primeira mulher a ocupar o cargo na história do Estado, mas uma feminista convicta, consciente e atuante na luta por mais espaço para as mulheres em todos os lugares de visibilidade. Essa palavra, aliás, é muito usada por Jacqueline Moraes (PSB).
Desde que os capixabas a elegeram vice-governadora, ao lado de Renato Casagrande (PSB) na eleição ao governo estadual, a ex-vereadora de Cariacica adquiriu uma improvável visibilidade. Escolhida por Casagrande no último instante do prazo para compor a chapa com ele, Jacqueline se preparava para ser candidata a deputada federal.
Agora ocupando esse espaço político privilegiado, ela se sente imbuída de uma missão: assumiu desde o início do mandato a função de porta-voz, ou embaixadora, das causas relacionadas à mulher em nome do governo: combate à violência doméstica, igualdade no mercado de trabalho, maior representatividade política.
A partir da própria visibilidade, Jacqueline diz querer ajudar a dar mais visibilidade a outras mulheres. Para isso, tem se movimentado intensamente, em uma maratona de palestras, discursos e debates nos mais variados espaços. A movimentação se intensificou em março, com o Dia Internacional da Mulher. “Foi uma agenda intensa e extensa”, conta ela, incluindo exposições em Câmaras Municipais e até em escolas. Às vezes ela é chamada; outras vezes, toma a iniciativa.
Para ilustrar, na última sexta-feira, após atender a coluna no Palácio Anchieta, a vice-governadora saiu correndo com assessores para pegar a estrada rumo a Muqui. À tarde, teve uma roda de conversa com trabalhadoras do maior assentamento rural do município. À noite, falou na Câmara Municipal. No sábado de manhã, participou do painel “Elas no Agro Capixaba”, durante uma feira agrícola em Cachoeiro. “Ela tem um motorzinho, desses que funcionam em alta rotação”, ri-se um dos seus assessores.
“Quando vim para o governo, já vim com essa proposta, que é o que eu busco: essa 'visibilização' das mulheres nos espaços de poder”, explica Jacqueline. “Quando conseguimos no espaço público, político, inserir essa participação e essa visibilidade das mulheres, conseguimos fazer com que isso desça de certa forma para os segmentos da sociedade. Os vários segmentos vão olhando e tendo esse radar de que é possível uma mulher vice-governadora. Então, dentro da Vice-Governadoria, quando nós chegamos, reuni a equipe e disse: ‘Eu não quero perder a essência do que vim fazer aqui, que é dar visibilidade às mulheres. Aceitei um convite, nós ganhamos uma eleição, e agora eu preciso trabalhar’.”
Jacqueline conta que tem buscado abrir canais de diálogo com a academia e com entidades como o MPES, a OAB-ES, o Judiciário, o Sebrae, a Assembleia Legislativa e a Defensoria Pública do Estado, em uma grande mobilização dentro e fora do governo. Dentro da administração, está em construção um programa chamado “Agenda Mulher”, que será coordenado por ela. A ideia é aglutinar, em um mesmo programa, todas as iniciativas que já existem e aquelas a serem criadas com recorte específico para a população feminina, nas mais diversas secretarias de Estado: Saúde, Segurança, Trabalho, Direitos Humanos etc.
“Vamos efetivar o Plano Estadual de Políticas para as Mulheres, construído no governo anterior do Renato, e o Pacto de Enfrentamento à Violência. Nosso foco é o empreendedorismo e a integração das políticas para a mulher. Com esse norte dessa agenda, estamos fazendo uma mobilização segmentada. Vamos conversar com as mulheres do agronegócio. Tivemos reuniões com pastoras, com a comunidade das religiões de matriz africana. Vamos ter reunião com a comunidade das mães que têm filhos LGBT...”, exemplifica.
Consciência e empreendedorismo
A vice-governadora quer jogar luz sobre as mulheres e os projetos voltados para elas, ampliando a participação e a representatividade feminina em todos os espaços de poder tanto político como econômico. Isso passa por várias dimensões, como a família, o mercado de trabalho e o mundo político.
Para isso, Jacqueline pretende desenvolver ações que estimulem nas mulheres, em uma frente, o empreendedorismo e a independência financeira; em outra frente, a consciência e a participação política, inclusive em disputas eleitorais. “Mas sem se deixarem manipular nem ser apenas usadas e descartadas pelos dirigentes partidários.”
Uma preocupação especial da vice-governadora é com o uso de mulheres pelos dirigentes como laranjas, apenas para cumprimento da “cota de gênero” (mínimo de 30% das candidaturas de cada partido para homens ou mulheres) e, em alguns casos, para desvios de recursos de fundos públicos para financiamento de campanha.
Como secretária de Mulheres do PSB-ES, ela foi autora, antes da eleição, da campanha #NãoSejaLaranja, a qual, segundo ela, transcendeu a esfera partidária. Chegou a bater de porta em porta de salões de beleza, para conscientizar a mulherada. Agora, quer potencializar a campanha, em nível estadual e com a estrutura do governo.
Para muitos, com esse trabalho, Jacqueline também está ganhando visibilidade para outra missão reservada para ela pelo PSB e por Renato Casagrande: concorrer à Prefeitura de Cariacica em 2020.
Observatório
Segundo Jacqueline Moraes, o programa "Agenda Mulher" também prevê o lançamento de um observatório, em parceria com o Instituto Jones dos Santos Neves, hoje comandado por Luiz Paulo Vellozo Lucas (PPS). Será um grande repositório de dados sobre as mulheres no Espírito Santo, nas mais diversas áreas.
Moral para Moraes
Desde que a escolheu para ser sua companheira de chapa, em agosto de 2018, o governador Renato Casagrande tem dado muita moral para Jacqueline Moraes. Isso inclui garantir-lhe direito a voz em cada reunião do secretariado, desde o período da transição. Quem o relata é ela mesma.
Voz assegurada
“O governador sempre me dá a voz em todas as reuniões de secretariado. No final ele diz: ‘Podemos encerrar? Então nossa vice vai falar.’ Nas primeiras reuniões, ainda na transição, eu falei sobre a sensibilização das pastas para esse recorte da mulher não só na composição das equipes mas também no direcionamento das políticas públicas. Precisamos que esse recorte esteja em evidência nas políticas de cada pasta. Conversei com cada secretário sobre isso.”
Mas ali ela não teve voz
Na parceria com Casagrande, a única vez em que Jacqueline ficou sem voz (literalmente) foi exatamente quando ele a convidou para ser sua vice na chapa majoritária do PSB. Ou seja, no marco inaugural da parceria. O relato dela é divertido:
“Eu ia ser candidata a deputada federal. E, nesse momento do fechamento da chapa, tem muitos cortes. O partido corta daqui, corta dali. Aí o Renato me chamou em uma sala e me falou: ‘Tenho uma notícia pra você. Você não pode mais ser candidata a deputada federal’. Aí eu falei (voz triste): ‘Ah, sério? Cortaram a minha cabeça?’ Perguntei exatamente assim. Aí ele: ‘Não. Eu quero te convidar para ser a minha vice-governadora’. Aí, naquela hora, a minha voz sumiu.”