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Líder de Casagrande impõe derrota ao próprio governo na Assembleia

Veto do governador a projeto de Enivaldo dos Anjos foi derrubado em plenário nesta segunda-feira. Derrota, porém, pode ter entrado no cálculo político do Palácio Anchieta

Publicado em 14 de Outubro de 2019 às 08:30

Públicado em 

14 out 2019 às 08:30
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

vvogas@redegazeta.com.br

Líder do governo, Enivaldo dos Anjos permitiu que mais um veto de Casagrande fosse rejeitado em plenário Crédito: Amarildo
Em aparente demonstração de rebeldia por parte da base de Casagrande (PSB) e de unidade por parte de deputados não alinhados ao governo, o plenário da Assembleia Legislativa derrubou ontem o veto do governador a um projeto de lei que estabelece regras mais rigorosas para os municípios prestarem contas sobre a utilização dos recursos repassados pelo Estado por meio do Fundo para a Redução das Desigualdades Regionais.
Vetos do governador a projetos de deputados são muito comuns. O que não é tão comum é o plenário rejeitar os vetos que vêm do Palácio Anchieta. Ou pelo menos não era. Ao longo deste primeiro ano do atual governo Casagrande, não é a primeira vez que o plenário “se rebela” para fazer valer um projeto de iniciativa de um dos parlamentares, contra a vontade do Executivo.
O projeto em questão foi apresentado pelo próprio líder do governo, Enivaldo dos Anjos (PSD), que assim se viu em uma bifurcação, entre a condição de autor do projeto vetado e a de líder do governo que vetou o projeto.
A autoria da proposição falou mais alto que a liderança: durante a votação, Enivaldo recomendou aos demais deputados voto pela derrubada do veto. Este realmente foi rejeitado, por goleada: 19 votos a 5. Os únicos que acompanharam o veto de Casagrande foram o vice-líder do governo no plenário, Dary Pagung (PSB), Freitas (PSB), Gandini (Cidadania), Luciano Machado (PV) e Hércules Silveira (MDB).
Agora, o presidente da Assembleia, Erick Musso (Republicanos), deve promulgar a lei.
Não é a primeira vez que Enivaldo libera a base governista para rejeitar vetos enviados pelo governador. A primeira vez foi em 20 de maio, quando ele “liberou” a base para derrubar cinco vetos de Casagrande, numa tacada só, causando considerável espanto até a alguns colegas, como Sergio Majeski (PSB): “O líder do governo passou para a oposição?”, perguntou, na ocasião, o professor, com um quê de ironia.
É um padrão de liderança atípico, em que a defesa do governo por vezes é relativizada, dependendo de quem assina o projeto. Enivaldo explica à coluna:
"Tenho agido no plenário como líder do governo nas matérias do governo. Mas, nas matérias dos deputados, temos sempre adotado o princípio de avaliar a possibilidade de tramitação das matérias. Nesse caso específico, a bancada ficou liberada da orientação dos líderes, para votar como quisesse"
Enivaldo dos Anjos (PSD) - Líder do governo na Assembleia Legislativa
Mas isso não contraria a posição do próprio governo? Ou este também liberou a base?
“Se o governador vetou, é evidente que o governo entendeu que deveria vetar”, responde Enivaldo.

O TEOR DO PROJETO

O projeto de Enivaldo trata da fiscalização dos recursos do Fundo para a Redução das Desigualdades Regionais, criado no primeiro governo de Paulo Hartung, pela Lei 8.308/2006, com o objetivo de beneficiar 67 municípios não produtores de petróleo (que não recebem royalties), como uma maneira de atenuar a disparidade de arrecadação entre esses e os municípios produtores.
O Fundo é formado com 30% dos royalties recebidos diretamente da União pelo governo do Estado, que então repassa essa porcentagem para os municípios não produtores. Os valores para cada cidade são diferenciados, respeitando-se critérios como o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Em princípio, conforme reza a lei que o criou, esses recursos extras só poderiam ser gastos pelas prefeituras municipais em investimentos (saneamento básico, habitação, mobilidade urbana, calçamento de ruas etc.).
No entanto, nos últimos anos – incluindo todo o último governo Paulo Hartung e este primeiro ano de Casagrande –, o Executivo tem mandado à Assembleia projetos que flexibilizam essa norma, permitindo que os prefeitos utilizem determinado percentual do repasse, por exemplo, para fazer frente a despesas de custeio (contas de água, energia, telefonia, aluguéis, fornecedores etc.).
Ocorre que, na prática, não há nenhum mecanismo de controle e fiscalização que possibilite à sociedade saber como esses recursos realmente estão sendo gastos. Em 2017, a Assembleia chegou a aprovar um projeto que obriga as prefeituras a enviarem um relatório de prestação de contas à própria Assembleia, mas pouquíssimas respeitam a exigência, e fica tudo por isso mesmo.
Agora, o projeto de autoria de Enivaldo, aprovado em 21 de agosto em plenário, estabelece algumas novas obrigações para os gestores municipais e atribuições para o Tribunal de Contas do Estado (TCES) e para a própria Assembleia nesse processo de fiscalização.
Produção de petróleo em terra, em Linhares, gera royalties que abastecem o Fundo para Redução das Desigualdades Regionais Crédito: Carlos Alberto Silva
Entre tais alterações, o projeto obriga o TCES a encaminhar à Comissão de Finanças da Assembleia, nos meses de agosto e dezembro, a relação de municípios que não tenham enviado em tempo hábil o relatório de aplicação dos recursos.
Além disso, o TCES ficará incumbido de encaminhar parecer sobre esses relatórios em prazo determinado para a Comissão de Finanças, de modo que o colegiado possa aprovar a prestação de contas ou, em caso de inconformidades, adotar medidas de bloqueio a futuros repasses. Após passar pelo plenário, esse parecer será remetido ao Poder Executivo.
Essas novas regras foram exatamente as que receberam, em 11 de setembro, o veto parcial por parte do governador no projeto de Enivaldo. Seguindo parecer da Procuradoria Geral do Estado (PGE), Casagrande entendeu que o projeto, nessa parte, continha vício de iniciativa: como cria novas obrigações para o TCES, só poderia ter partido do próprio tribunal.
“O veto veio com o argumento da PGE de que a lei é somente de iniciativa do TCES. Os deputados não concordaram com isso, até porque o TCES é órgão auxiliar da Assembleia Legislativa”, relata Enivaldo, para justificar a rejeição do plenário ao veto.
Seja como for, fica aí registrada mais uma pequena derrota do governo em uma votação na Assembleia, imposta pelo próprio líder de Casagrande.

CÁLCULO POLÍTICO DO GOVERNO: PERDEU GANHANDO?

Não se pode ignorar, contudo, que essa derrota pode ter sido não só prevista, como devidamente calculada, premeditada e absorvida pelo governo. Isso porque, no fim das contas, o efeito prático da lei resultante do projeto de Enivaldo pode acabar sendo nulo.
O Fundo para Redução das Desigualdades Regionais, nos moldes em que funciona hoje, está com os dias contados, como antecipou o próprio Renato Casagrande no último dia 9. Se for realmente extinto, a lei de autoria de Enivaldo se tornará inócua: que valor tem uma legislação que disciplina o uso do dinheiro de um fundo que não existe mais?
É bem possível que isso tenha entrado no cálculo político do governo, que assim resolveu fazer vista grossa, concedendo à Assembleia uma chance de reafirmar sua autonomia e, a Enivaldo, uma pequena vitória política. E, se há algo que o governo não deseja, é ver o seu líder insatisfeito neste momento.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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