Alguns deputados estaduais têm fincado os dois pés na oposição ao governo Casagrande na Assembleia Legislativa. Entre eles, destacam-se Capitão Assumção (PSL), Vandinho Leite (PSDB) e Lorenzo Pazolini (sem partido). Na tarde desta terça-feira (1º), este último entrou em colisão frontal com o líder do governo na Casa, Enivaldo dos Anjos (PSD). Da tribuna, Enivaldo fez uma declaração de guerra ao delegado de polícia.
“Nós também sabemos botar o dedo na ferida. E não é só botar o dedo levemente. É botar e afundar, para ver se a ferida aguenta! Para ver se a pessoa tem condições de sangrar, sem abaixar a cabeça e sem se arrepender”, ameaçou o líder do governo.
Em resposta, Pazolini citou o Barão de Itararé: “O tambor faz muito barulho, mas é vazio por dentro”.
ENTENDA O CONTEXTO
O pano de fundo do conflito foi a discussão do projeto de lei complementar do governo Casagrande, votado e aprovado nesta terça-feira em plenário após pedido de urgência de Enivaldo, que cria uma fundação de direito privado para administrar hospitais atualmente geridos pelo Estado (a Fundação iNOVA).
Logo no início do debate, Pazolini usou a tribuna para desfiar críticas ao projeto. De acordo com o parlamentar, o modelo proposto pelo governo – que simplifica processos de compra e contratações nos hospitais – representará uma “burla ao procedimento licitatório”. A expressão foi utilizada pelo menos três vezes no discurso do deputado.
Pazolini afirmou, ainda, que o modelo de gestão por meio da nova estatal dará margem a um “regime especial de contratação seletivo de amigos”. Para ele, por meio da fundação, hospitais poderão ser administrados por um “grupo de amigos”.
Enivaldo, então, enfurecido, subiu à tribuna para responder a Pazolini. Fez, então, o que pode ser considerado o mais duro pronunciamento, este ano, de um parlamentar contra outro na Assembleia. Segundo o líder do governo, o delegado atacou a honra do governador Renato Casagrande (PSB) e, daqui para a frente, não deve merecer a menor consideração por parte do governo.
“Tem gente que vem aqui e discursa parecendo que é a favor do caos. Tem gente que quer fechar o Hospital Infantil porque um ar-refrigerado queimou. Tem gente que quer submeter o governo à escravidão do poder econômico. […] Teve deputado aqui inclusive que atingiu a honra do governador, dizendo que essa matéria é para criar condição de praticar roubo em processo de licitação”, começou Enivaldo, com o dedo em riste.
"Parece acusação de delegado, que nunca tem a obrigação de provar. É só jogar o barro na parede. É só dizer que a pessoa é desonesta, sem a responsabilidade de provar isso. E quando todos sabem que se pode concordar ou discordar, mas não existe um capixaba que tenha condições, em sã consciência, de dizer que o governador Renato Casagrande é um administrador desonesto."
Implacável, Enivaldo afirmou que Pazolini está "louco para ocupar a mídia".
“Isso, além de ser irresponsabilidade, é uma injustiça muito grande. O governador Renato Casagrande é uma pessoa cordata, uma pessoa sensata, uma pessoa civilizada, um homem da atividade política com o maior respeito neste Estado. […] E ainda tem que receber daqueles afoitos por aparecer, daqueles loucos para ocupar a mídia, acusações levianas e grosseiras. Aparecer é muito bom, mas é preciso que se tenha responsabilidade. É preciso que não se jogue lama nas pessoas que estão dedicando a sua vida e a sua história em favor do Estado do Espírito Santo.”
De acordo com Enivaldo, Pazolini não está sabendo fazer oposição, mas fazendo um “processo de espetáculo” para chamar a atenção para si. Nas entrelinhas, o líder do governo sugeriu que o comportamento do adversário se deve à aproximação das eleições municipais de 2020, nas quais Pazolini figura como um dos pré-candidatos a prefeito de Vitória.
“O meu protesto aqui é pela falta de entendimento do que é ser oposição, afinal. Porque, se a gente abre o diálogo, se a gente faz a discussão, se a gente acolhe as emendas, ainda é pouco. Ainda tem que ser chamado de desonesto.”
Ainda segundo o líder do governo, Pazolini de agora em diante será tratado como opositor. E conclamou os demais aliados do governo a segui-lo.
"Algumas pessoas querem ser tratadas como oposição no sentido estrito da palavra e não devem merecer nenhuma consideração. […] Aqueles que só querem buscar espaço na mídia para poder fazer processo de espetáculo não merecem nem a nossa consideração nem o nosso respeito."
TORNOZELEIRAS E PISÃO NO TORNOZELO
Enivaldo aproveitou o embalo para lavar a roupa suja por um episódio anterior. Segundo ele, Pazolini estaria expondo, humilhando e ridicularizando os colegas de plenário.
Pazolini apresentou projeto que obrigava apenados do sistema jurídico estadual a pagarem pelo uso da tornozeleira eletrônica. Casagrande vetou esse projeto, e o veto foi mantido em plenário, na última segunda-feira (30). O MBL Espírito Santo fez um post exigindo que os deputados derrubassem o veto. Pazolini compartilhou esse post em suas redes sociais.
Depois da manutenção do veto, o MBL fez novo post, expondo a foto de todos os deputados que votaram contra o projeto de Pazolini (a grande maioria, da base de Casagrande).
Enivaldo não perdoou:
“Outro dia aqui nós todos, por unanimidade, aprovamos o projeto de um deputado [o projeto de Pazolini]. Essa matéria foi vetada. E nós, reconhecendo que ela era inconstitucional tanto pela Procuradoria da Assembleia como pela Procuradoria do Estado, recebemos hoje um monte de mensagens no celular, feitas por esse deputado, espalhadas por esse deputado, dizendo ‘aqui está o nome daqueles que são contra cobrar tornozeleira de preso’. Isso é uma falta de ética, é uma falta de lisura, é uma falta de compreensão do que é ser político, do que é ter atividade política.”
E foi aí que fez a ameaça:
“Eu estou pensando seriamente em mudar a minha história de relacionamento com esse deputado. Levá-la mais para lá da cerca. Levá-la mais, para mostrar como é que ele agia quando exercia atividade pública, para saber se realmente essa condição que ele tem hoje de querer expor os colegas, humilhar os colegas perante a população, se isso é justo, se isso é correto. Porque, se essa for a regra, nós também sabemos jogar. Nós também sabemos botar o dedo na ferida. E não é só botar o dedo levemente. É botar e afundar, para ver se a ferida aguenta. Para ver se a pessoa tem condições de sangrar, sem abaixar a cabeça e sem se arrepender.”
PAZOLINI: "NÃO VOU ME INTIMIDAR"
Após a sessão, perguntei a Pazolini como ele responde às palavras de Enivaldo.
“Recebo com muita tranquilidade. Vou continuar fazendo o meu trabalho. A sociedade me elegeu para isso, para fiscalizar os atos do Poder Executivo. Em momento algum vou me intimidar com qualquer tipo de manifestação aqui dentro. A minha resposta é a frase do Barão de Itararé: ‘o tambor faz muito barulho, mas é oco por dentro’. Essa é a nossa resposta.”
Declarando-se um deputado “independente” – e não oposicionista –, Pazolini argumenta que em momento algum imputou a Casagrande ato de desonestidade, mas tão somente criticou o novo modelo de aquisições e contratações a ser adotado pelo governo na gestão dos hospitais que passarão a ser geridos pela Fundação iNOVA.
“Jamais. De forma alguma. O que eu disse é o seguinte: o artigo 19, parágrafo 1º do projeto traz o afrouxamento das regras licitatórias. Isso é fato, porque não vai seguir a legislação sobre licitações. Então, há um afrouxamento, sim, do procedimento licitatório. Por isso nós fomos contra. Já fui auditor do Tribunal de Contas do Estado, já fiscalizei muito e sei como as coisas funcionam."
"Esse afrouxamento não interessa à sociedade capixaba. Não interessa a ninguém. Foi isso que eu disse. Não imputei nenhum ato de desonestidade a ninguém. O procedimento licitatório fragilizado possibilita maior ocorrência de fraude. Fragiliza a fiscalização e gera maior possibilidade de burla"
Também ouvido pela coluna após a sessão, Enivaldo reiterou que fogo será respondido com fogo.
“A minha colocação foi muito com base no ponto em que ele duvidou da questão moral do governo. E portanto nós fizemos a ele uma exortação para que mantenha o nível do debate, em cima do que é permitido para que a boa convivência seja mantida. Caso contrário, se ele partir para atacar o governo no campo moral, vamos reagir no mesmo nível e no mesmo tom.”