Política (ainda mais no PSDB) é algo tão insano e imprevisível que não vamos aqui dizer “game over” nem carimbar que a candidatura de Luiz Paulo Vellozo Lucas (PSDB) a prefeito de Vitória já tenha ido para o espaço. Mas a situação do ex-prefeito é politicamente complicadíssima e todas as evidências hoje (frisemos: hoje) convergem para a conclusão de que ele está fora do páreo em Vitória. Além de tecnicamente sem legenda do próprio partido para disputar a prefeitura, Luiz Paulo acabou ficando isolado nos últimos dias, nesta reta final das definições de alianças eleitorais.
O ex-prefeito jogou a toalha? Não, não jogou. Como deixou claro, publicamente, na convenção do PP em Vitória na noite de terça-feira (15), ele seguirá acreditando, até o último minuto (no dia 26 de setembro), que a Comissão Executiva Nacional do PSDB possa intervir nos rumos eleitorais do partido em Vitória, determinando que ele seja o candidato do PSDB. Talvez até possa. Mas, a cada instante que passa, essa possibilidade se torna menos factível e o galho onde se equilibra o tucano fica mais curto. É uma questão de timing e de sustentabilidade política.
Veja bem, Luiz Paulo conta com uma intervenção da direção nacional. Mas, se a nacional quisesse mesmo interceder a favor dele em Vitória, por que não fez isso até o momento? Na última segunda-feira (14), sem a presença de Luiz Paulo, a Executiva do PSDB na Capital realizou sua convenção, homologando a candidatura da vereadora Neuzinha de Oliveira, presidente municipal da sigla, a prefeita da cidade. Nos próximos dias, se não houver essa reviravolta ditada de Brasília, Neuzinha tende a levar o partido para a coligação de Lorenzo Pazolini (Republicanos) e se fazer vice na chapa do deputado estadual.
Então a pergunta é: se quisesse mesmo intervir na decisão em Vitória, a direção nacional do PSDB não deveria ter feito isso antes da convenção (como teria plenos poderes para fazer)? Por que a direção nacional deixaria ocorrer sem óbice uma convenção que foi “a consagração de Neuzinha”, permitindo que Luiz Paulo perca um por um seus aliados para outros candidatos, para só depois voltar atrás, anular a convenção municipal, gerar constrangimento geral e dizer "parem tudo, nosso candidato é Luiz Paulo"?
Do ponto de vista estratégico, isso não faz o menor sentido, pois a essa altura os aliados eleitorais de Luiz Paulo já terão se dispersado (como, aliás, já estão se dispersando). Assim, mesmo que hipoteticamente a cúpula nacional do PSDB decrete nos próximos dias que o candidato em Vitória é Luiz Paulo, ficará muito difícil para ele sustentar politicamente a candidatura, isolado como acabou ficando neste ponto decisivo do processo…
Enfim, seria uma barbeiragem política por parte do PSDB…
A DEBANDADA DOS ALIADOS E O DESMORONAMENTO DA CANDIDATURA
Que Luiz Paulo quer mesmo ser candidato novamente a prefeito, é um fato. Em meados de agosto, uma fonte da coluna chegou a dizer que ele estava “com sangue nos olhos”. Se não o quisesse, não teria voltado ao PSDB em abril (dentro do prazo para ser candidato), recorrendo à ajuda direta do presidente nacional, Bruno Araújo. Não teria mobilizado seus advogados para obter, no início de agosto, a liminar que suspendeu os efeitos de uma condenação que o tornava inelegível. Nem teria feito o intenso esforço de articulação de bastidores com representantes de outros partidos para se viabilizar eleitoralmente.
Desse esforço surgiu, de julho para agosto, a “Aliança Cívica por Vitória”, reunião de forças políticas “com um projeto em comum para a cidade”. Além de Luiz Paulo, a frente foi composta por PP, PSB e Rede. Havia, ainda, uma chance real de o DEM, por ação de Theodorico e Ricardo Ferraço, engrossar a coligação de Luiz Paulo, se ele se viabilizasse dentro do PSDB. Pois bem, essa frente implodiu.
Aparentemente, desde quinta-feira (10), quase todos começaram a pressentir o desmoronamento da candidatura de Luiz Paulo. No mesmo dia, a Rede não quis pagar para ver nem esperar a resolução do imbróglio dentro do PSDB. Para garantir uma boa posição na disputa, tratou de fechar logo aliança com o PSB e emplacar sua porta-voz estadual, Laís Garcia, como vice da chapa liderada pelo vice-prefeito Sérgio Sá (PSB).
Aí, na segunda-feira (14), foi a vez de o DEM desistir de esperar. Enquanto se desenrolava a convenção do PSDB, a direção estadual e municipal do partido fechou apoio a Pazolini (o que eles jamais teriam feito sem o aval de Theodorico Ferraço, até então um dos fiadores de Luiz Paulo no processo).
Restou o PP, que até pretendia indicar seu presidente municipal, Marcos Delmaestro, a vice de Luiz Paulo, mas que, nesta quinta-feira, também anunciará oficialmente aliança com o PSB e apoio à candidatura de Sérgio Sá. Na convenção do PP terça-feira, Luiz Paulo compareceu e, em gesto de dignidade, “liberou” o PP. Foi sincero: nem ele pode dar certeza de candidatura.
Uma fala do próprio Delmaestro durante a convenção do PP resume o isolamento de Luiz Paulo e o descolamento atual entre ele e os dirigentes locais do próprio partido: “Nós não tínhamos um acordo com o PSDB e sim com o Luiz Paulo”. Pois é. Para efeito de formalização de candidaturas e alianças, o que vale é o que decidem partidos, não pessoas.
Reunindo todos esses elementos, fica muito difícil crer, a esta altura, em um gesto de Bruno Araújo para salvar Luiz Paulo em Vitória. E, mesmo que isso ocorra, o ex-prefeito talvez já nem terá sustentação, após a debandada dos potenciais aliados… Será muito complicado.
Só uma “magia” daquelas de macete de vídeo-game para evitar esse “game over”.
PRETO NO BRANCO
A Resolução 005/2020 da Comissão Executiva Nacional do PSDB determinava que, até cinco dias antes da convenção municipal (no caso de Vitória, até o dia 9), os interessados deveriam registrar pré-candidatura (o que Neuzinha fez, mas Luiz Paulo não) e que a Executiva Municipal deveria enviar à Nacional um relatório com a relação de candidatos e o planejamento de alianças na eleição local.
Nos termos da mesma resolução, a Nacional tinha até o meio-da da última segunda (14), horas antes da convenção em Vitória, para enviar à Executiva Municipal um parecer, autorizando ou não as candidaturas e alianças propostas. O secretário do PSDB em Vitória, Wemerson Alves Pedroni, afirma que a Nacional não enviou um parecer antes da convenção, o que significa que “todo o processo foi aprovado”, de maneira tácita. Diz, ainda, que o presidente nacional do partido, Bruno Araújo, ligou para Neuzinha na manhã de segunda, antes da convenção, “parabenizando-a pela condução do processo em Vitória”.
SEM PERDA DE TEMPO
Já na noite de segunda-feira, logo após a convenção municipal do PSDB que ratificou a candidatura de Neuzinha, Marcos Delmaestro (PP) reuniu-se com Sérgio Sá (PSB) para começarem a discutir uma aliança na Capital.
FESTA DOS OUTROS
A “festa do PSDB” em Vitória, na convenção, foi a festa de Neuzinha. Uma festa para a qual Luiz Paulo não foi convidado. Na verdade ele até poderia ter ido, como qualquer filiado. Mas teria sido bem constrangedor (e até um pouco humilhante para ele mesmo). Ficaria parecendo um penetra bom de bico comprido no ninho de outros tucanos.