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Eleições 2020

Luiz Paulo: “O Último dos Moitucanos” e a morte do PSDB raiz no ES

Ex-prefeito de Vitória é o tucano capixaba mais identificado com aquele PSDB original de FHC. Sua derrota prematura na eleição de Vitória, além de enfraquecê-lo ainda mais, decreta o fim de um ciclo para o partido no Estado

Publicado em 28 de Setembro de 2020 às 21:38

Públicado em 

28 set 2020 às 21:38
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

vvogas@redegazeta.com.br

Luiz Paulo: o Último dos Moitucanos
Luiz Paulo: o Último dos Moitucanos Crédito: Amarildo
Os resultados das eleições municipais oficialmente inauguradas no último domingo (27) só serão conhecidos em novembro, mas o período anterior à campanha, de definição de chapas e candidaturas, começou a definir o pleito e também teve seus vencedores e vencidos. Nessa última categoria, não se pode deixar de destacar o ex-prefeito de Vitória, Luiz Paulo Vellozo Lucas, do PSDB, que nem sequer conseguiu alinhar o seu carro no grid de largada da corrida rumo à prefeitura da Capital.
Na última eleição municipal, Luiz Paulo começou a decidir a eleição ao Executivo de Vitória ao retirar a sua pré-candidatura a poucos dias do início da campanha para declarar apoio a Luciano Rezende (Cidadania). Mas foi um movimento consciente e voluntário. Agora é diferente. Luiz Paulo queria e tentou ser candidato. Mas, antes mesmo de a bola rolar, foi derrotado nesse jogo pela direção municipal e estadual do próprio partido (que lançou a vereadora Neuzinha de Oliveira). E ainda viu a nacional lavar as mãos.
O mundo político dá voltas, então não vamos aqui decretar a morte política de ninguém. O ex-prefeito segue sendo um agente político relevante, inclusive nesse pleito em Vitória (vamos ver se apoiará alguém). Mas é inegável que essa derrota prematura o enfraquece no cenário municipal e estadual, principalmente porque se soma a uma sequência de reveses acumulados por ele ao longo da última década.
Após governar Vitória por dois mandatos com bons resultados (1997/2004) e exercer um mandato de deputado federal (2007/2010), sempre pelo PSDB, Luiz Paulo foi candidato a governador em 2010, para garantir um palanque no Estado ao candidato tucano à Presidência, José Serra. Perdeu no 1º turno para Renato Casagrande (PSB). Dois anos depois, apoiado por Paulo Hartung, perdeu para Luciano Rezende, de virada, a eleição a prefeito de Vitória.
Em 2014, não conseguiu ser candidato ao Senado, engolido pelo movimento de um antigo aliado (seu candidato à sucessão em 2004) que se tornaria um adversário interno no PSDB: César Colnago levou o partido para a coligação de Hartung ao governo e tornou-se vice do mesmo Hartung, que apoiou Rose de Freitas ao Senado. Em 2016, veio o recuo em favor de Luciano na Capital.
Em novembro do ano seguinte, unido a Max Filho, Sergio Majeski e outros mais, Luiz Paulo tentou tomar do grupo de Colnago o comando do PSDB pelo voto, na convenção estadual do partido, em um movimento então apelidado pela coluna de “PSDB Autêntico” (o nome seria incorporado pela chapa). Nada feito. Prevaleceu a chapa hartunguista encabeçada por Colnago, reunindo Octaciano Neto, Vandinho Leite, entre outros aliados de PH.
Em 2018, filiado ao Cidadania, Luiz Paulo concorreu novamente a um assento na Câmara Federal. Foi mal votado. Em 2019, assumiu a presidência do centro de pesquisas do governo estadual, o Instituto Jones dos Santos Neves. Estava bem lá. Saiu em abril deste ano, para tentar viabilizar a candidatura. E o desfecho foi o já mencionado.

A MORTE DO “PSDB RAIZ” NO ES

Ao mesmo tempo que cabe uma reflexão sobre os efeitos desse episódio na trajetória política de Luiz Paulo, parece-nos ainda mais pertinente analisar o que isso representa para o próprio PSDB no Espírito Santo. Estamos falando aqui, afinal, de uma espécie raríssima, em extinção – talvez o último espécime, na Mata Atlântica capixaba, do tucanus autenticus
A derrota precoce de Luiz Paulo no atual processo eleitoral – sobretudo pela maneira como se deu – pode marcar o fim definitivo de um ciclo, de uma era, para o PSDB no Espírito Santo. A meu ver representa a morte do “PSDB raiz” em solo capixaba.
Definitivamente, não existe mais no Estado aquele PSDB idealizado por FHC, Mario Covas, Franco Montoro, entre outros, e fundado em 1988 sob inspiração de partidos sociais-democratas europeus. Luiz Paulo é “o último dos moitucanos”: o único político remanescente no Estado fortemente identificado com aquele ideário original do PSDB.
O que restou de pé no Estado hoje é algo muito distante daquele partido original de centro-esquerda que trouxe a tão almejada estabilidade econômica ao Brasil e governou o país por oito anos com FHC (1995/2002). Agora, seguindo a guinada à direita ditada nacionalmente por João Doria desde que este colou em Bolsonaro para se eleger governador de São Paulo em 2018, o presidente estadual do PSDB, Vandinho Leite, conduz aqui uma mudança ainda mais intensa.
Como candidato a prefeito da Serra, Vandinho apresenta-se como representante do bolsonarismo, no discurso e até na adoção da simbologia do presidente da República: faz foto abraçado à bandeira de Israel, elabora projeto na Assembleia em defesa do uso da cloroquina e assim sucessivamente.
No Espírito Santo, Vandinho está radicalizando nessa "nova orientação" do PSDB, mais até do que tem feito o partido no plano nacional (enquanto ele se alinha a Bolsonaro, por exemplo, o próprio Doria passou a antagonizar com o presidente da República). Não é necessariamente pior, não é isso que estamos dizendo. Mas é sem dúvida alguma outra coisa: outro partido, com outras inclinações político-ideológicas. 
Enquanto isso, como outra referência do PSDB no Espírito Santo, sobra um deslocado Max Filho, político historicamente de esquerda, com raízes no brizolismo e no trabalhismo. E que vai ficando por ali por puro pragmatismo, nem um pouco identificado com esse "novo PSDB" capixaba assumidamente de direita, mas no qual pelo menos encontra apoio, estrutura e comodidade para buscar sua reeleição na Prefeitura de Vila Velha. E até voos maiores em 2022.
Politicamente antitéticos, Vandinho e Max Filho, os dois principais líderes com mandato filiados ao partido hoje no Espírito Santo, traduzem precisamente esse momento de metamorfose vivido pelo PSDB. Trata-se, afinal, de uma transição identitária. E, como toda transição, não se dá de um só golpe, como uma limpa machadada. Há um período de coexistência entre a velha identidade ainda não inteiramente superada e a nova identidade ainda não de todo estabelecida.
Aliás, em caso de vitória de Vandinho na Serra e de reeleição de Max em Vila Velha, será um exercício muito curioso observar e comparar as diretrizes da gestão de cada um nas respectivas cidades nos próximos anos.

MAX: TUCANO FORA DE ÉPOCA

É curioso: o Max Filho do ano 2000, recém-eleito para o primeiro mandato de prefeito de Vila Velha, dificilmente caberia naquele PSDB dos tempos do governo de FHC. Ficaria deslocado, pois aquele PSDB estava mais à direita que ele. Hoje, o Max de 2020 encontra-se deslocado no PSDB, pois continua à esquerda do partido. Mas esse Max de hoje talvez coubesse muito bem naquele PSDB da época do governo FHC.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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