O Espírito Santo tem sido dominado por uma polarização política fútil e inútil, que coloca tudo em termos de “direita versus esquerda”, quando não de “conservadores versus comunistas”. Além de pouco ou nada produtiva, essa polarização não faz muito sentido, principalmente quando se analisa a trajetória política e partidária de alguns de seus protagonistas que hoje (vou frisar: hoje) se encontram posicionados no lado direito desse campo de batalha artificial. Sim, artificial.
Provando o alto grau de artificialidade dessa luta que hoje tem lugar no Estado, o “direitismo convicto” atualmente declarado por alguns deputados e outros agentes políticos simplesmente não encontra confirmação nas respectivas biografias políticas.
Hoje visto como um expoente da direita (ou extrema-direita) no Espírito Santo, o deputado estadual Capitão Assumção foi deputado federal pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB), sigla do governador Renato Casagrande, em seu único mandato anterior, de janeiro de 2009 a janeiro de 2011. Integrou uma bancada de esquerda, de um importante partido da base dos governos do PT, na virada da administração de Lula para a de Dilma. Assumção também ocupou cargo comissionado em parte do primeiro governo de Casagrande no Estado (2011-2014). Um governo de esquerda, cabe ressaltar.
Atualmente sem mandato, o ex-presidente estadual do PSL Carlos Manato exerceu três mandatos seguidos de deputado federal pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT), agremiação de esquerda (ou, no mínimo, centro-esquerda), cujo fundador e ícone é o falecido Leonel Brizola, um dos cinco políticos de esquerda mais importantes do país no século XX.
Tais mandatos foram de 2003 a 2014, coincidindo com os dois governos de Lula (2003-2010) e o primeiro de Dilma (2011-2014). O PDT também apoiou os governos petistas, com direito ao controle do Ministério do Trabalho. Deputados pedetistas tinham cotas de indicações para ocupação de cargos em órgãos federais nos Estados, inclusive no Espírito Santo. Por muito tempo, o principal aliado político de Manato foi Sérgio Vidigal, político de centro-esquerda e com notório DNA pedetista.
Quem também já passou pelo PDT foi Danilo Bahiense, hoje deputado estadual pelo PSL. Em 2010, ele foi candidato a uma vaga na Assembleia pelo partido de esquerda. Isso no auge do PT no poder.
Quanto ao deputado estadual Vandinho Leite (PSDB), após passar pelo então PR (partido do Centrão no Congresso que apoiou Lula e Dilma), filiou-se ao Partido Socialista Brasileiro (PSB) em 2013, pelo qual concorreu a deputado federal no ano seguinte. Durante quase todo o primeiro governo Casagrande (jan./2011 a abr./2014), foi secretário estadual de Esportes, destacando-se pela entrega de campos de futebol para diversas comunidades de norte a sul do Estado, no projeto Campo Bom de Bola.
Coincidência ou não, todos se juntaram a movimentos de direita já no segundo governo Dilma (jan./2015 a mai./2016), com a administração da petista já em franca decadência, isto é, como o fim da “era PT”. Manato, Assumção e Bahiense se filiaram ao PSL em 2018 – após a queda de Dilma Rousseff e a virada da mesa do poder no país. E todos se beneficiaram eleitoralmente da “onda Bolsonaro”.
A adesão desses atores políticos ao bolsonarismo pode ser sincera. Mas isso não muda o fato de que, no auge dos governos petistas, eles estavam bem estabelecidos em partidos de esquerda, integrantes da base de governos igualmente de esquerda, o que mostra que esse antagonismo todo é muito, mas muito relativo.
Aí poderão dizer: “Na época não havia opção, só havia partidos de esquerda, não havia uma direita organizada e consolidada no país”.
Isso não é verdade. Foi escolha mesmo.
Para dar um exemplo emblemático, o DEM (ex-PFL, descendente direto da Arena) sempre esteve ali, na oposição ao PT, pelo flanco direito. Sim, aquele mesmo DEM que o então presidente Lula, em um de seus rompantes de autoritarismo descabido, chegou a dizer que pretendia “extirpar” da política brasileira, tamanho o incômodo que o partido lhe causava. Do DEM, nasceu o PSD,
Da mesma forma, em franca oposição ao PT, sempre esteve o PSDB, que já contava com alas mais de centro-direita, como aquela do então governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. Bom lembrar que Alckmin, um tucano de direita, bastante conservador, foi o candidato do partido à Presidência, contra Lula, já em 2006.
Isso sem falar no Partido Progressista (PP) e no Partido Liberal (PL), à época Partido Republicano (PR), com origens também na direita, além dos vários partidos com os pés e a cabeça mergulhados na direita conservadora de matriz evangélica, tais como o PSC e o Republicanos, então PRB, de Edir Macedo e Marcelo Crivella. Ocorre que todos os citados neste parágrafo estavam ocupados demais fazendo acordos para apoiar os governos do PT em troca de verbas, cargos, ministérios etc.
Resumindo: não é que “não houvesse direita organizada no país”. Simplesmente, não havia direita no poder. Só que, em 2016, isso mudou... E alguns acompanharam a mudança desse pêndulo de poder.
CARLOS VON JÁ ESTEVE COM MAX
Antes de se eleger deputado estadual pelo Avante em 2018, Carlos Von era do PSDB e, de 2017 a 2018, ocupou cargo comissionado na gestão de Max Filho (PSDB) em Vila Velha, como subsecretário municipal de Turismo. Von podia até já ser de direita, mas o fato é que encontrou abrigo político na administração de um prefeito notoriamente de esquerda: pessoalmente desconfortável com a guinada à direita do PSDB, Max é, nas origens, um “brizolista raiz”. Em suas primeiras campanhas eleitorais, pedia votos ostentando um lenço vermelho em torno do pescoço, símbolo de Leonel Brizola. Detalhe: Von contou com o apoio de Max na eleição de 2018.
PARA REFLEXÃO 1
Como deputado federal, num resquício paranoico da Guerra Fria, Bolsonaro dizia, da tribuna da Câmara, que os médicos cubanos do programa Mais Médicos eram, na verdade, “agentes infiltrados de Cuba no Brasil”, exatamente como Capitão Assumção acusa agora o secretário estadual da Saúde, Nésio Fernandes (PCdoB).
Bolsonaro também passou anos declarando que o Bolsa Família não passava de um programa criado pelo PT com fins eleitoreiros. Chegando à Presidência, não só manteve o programa como instituiu um 13º para os beneficiários. Só para provar que as coisas na política não são assim, ou preto ou vermelho, ou “nazista” ou “comunista”. Isso é debate político raso.
PARA REFLEXÃO 2
Em Cuba, país reconhecido mundialmente pela excelência na atenção primária da saúde pública, Nésio se especializou em Medicina da Família e da Comunidade, modalidade muito difundida e praticada nos... Estados Unidos! Alguém aí dirá que o Tio Sam é “comunista”?
PARA REFLEXÃO 3
Uma das críticas da oposição a Nésio é que a Secretaria de Estado da Saúde priorizou a aquisição de leitos pelo Estado em hospitais particulares em vez de investir na construção de hospitais de campanha. Olha, analisando friamente, isso nada mais é que priorizar parcerias do Estado com a iniciativa privada. E, honestamente, parceria do poder público com o capital privado (capitalismo) não soa muito como esse “comunismo sanguinário” de que o secretário tem sido acusado. Estamos em 2020.
PRIORIDADES INVERTIDAS
Em algumas das últimas sessões, as discussões acaloradas entre deputados na Assembleia têm sido dominadas por temas como o uso ou não da hidroxicloroquina e a ocupação dos leitos hospitalares. Mas essas são preocupações pertinentes lá na outra ponta, quando já há pacientes infectados pelo novo coronavírus.
O debate central, a meu ver, deveria ser: o que fazer para evitar um maior número de infectados? Até o momento, não há resposta cientificamente validada fora do isolamento social. E aí não adianta passar o tempo todo a debater e pregar o uso de cloroquina enquanto se sabota sistematicamente as estratégias de prevenção, que são o isolamento e o distanciamento social.