“Já estamos em colapso.” O desabafo pungente é do prefeito de Colatina, Guerino Balestrassi (PSC), em referência ao município governado por ele, o maior de toda a região Noroeste do Espírito Santo. Segundo o prefeito, que neste ano iniciou seu terceiro mandato na cidade, Colatina já tem há alguns dias pacientes na fila de espera por um leito de UTI exclusivo para tratamento da Covid-19. Esses pacientes necessitam de internação urgente, mas já não conseguem dar entrada imediata em um dos hospitais públicos ou particulares do município.
“Desde sábado (13), temos uma preocupação muito grande com o quadro de Colatina. A cidade é um polo de saúde na região Noroeste do Estado, por isso tem uma procura muito grande de pacientes de outras cidades. O quadro é muito difícil. Já não temos vagas em leitos de UTI", relata o prefeito.
"Nesta quarta (17), tínhamos um cidadão precisando entrar na UTI e não tinha vaga. Antes, chegamos a ter quatro nessa situação. Em Colatina, já colapsamos. Até os hospitais particulares estão comprometidos"
Segundo ele, Colatina está trabalhando, em parceria com o Estado, para expandir a sua estrutura, abrindo dez novos leitos de UTI para Covid-19 em, no máximo, uma semana, com recursos estaduais. “Tem que ser rápido”, pede ele.
Outra dificuldade prática enfrentada pelo município é a limitação física dos hospitais, isto é, basicamente, não há mais espaço para se instalar esses novos leitos imprescindíveis. A situação é tão dramática e urgente que a prefeitura está considerando seriamente uma solução drástica: desocupar temporariamente o edifício onde funciona a sede da Secretaria Municipal de Saúde, localizado em frente a um hospital, e direcionar o imóvel para o atendimento de pacientes com Covid-19.
Em outras palavras, a sede da Secretaria de Saúde pode virar anexo de hospital, conforme explica o prefeito:
“Temos um problema de localização. Precisamos abrir mais leitos, mas não temos mais espaço no hospital. Vamos ter que começar a utilizar escritórios, gabinetes, enfim, o espaço administrativo do hospital. E os técnicos da prefeitura estão estudando soluções. Estamos estudando, inclusive, desocupar a sede da nossa Secretaria de Saúde, que fica em frente ao hospital, para arrumarmos espaço. A gente tem que arrumar espaço.”
Balestrassi também aponta um problema que no momento perturba o sono dele (e, possivelmente, de outros prefeitos capixabas): o risco os municípios perderem médicos para outros Estado nesta que é, até agora, a fase mais crítica da pandemia do novo coronavírus em todo o país.
“Nossa rede de recursos humanos é muito forte aqui. Muitos profissionais que atuam em Colatina fizeram seus estudos e a residência médica em São Paulo. Agora, no meio desta crise, esses médicos estão sendo assediados para voltarem para lá, para trabalhar no Albert Einstein e em outros hospitais, mediante pagamentos mais altos pela escala de plantões.”
Por isso, Balestrassi propôs ao governo do Estado que mexa na tabela da Secretaria de Saúde e eleve os valores pagos aos médicos plantonistas que atuam na rede estadual.
A sugestão foi reforçada por ele, falando diretamente ao governador Renato Casagrande (PSB) e ao secretário estadual de Saúde, Nésio Fernandes (PCdoB), durante a reunião virtual com a presença de 63 prefeitos e chefes de outras instituições realizada na noite desta quarta-feira, para discutirem as medidas mais restritivas impostas pelo decreto estadual que instituiu duas semanas de quarentena em todo o Espírito Santo. Não houve resposta imediata ao pedido.
DIFICULDADES EXTRAS
O prefeito de Colatina receia que a fiscalização do cumprimento das medidas restritivas, como o fechamento das atividades não essenciais, será tarefa dificílima para as prefeituras. “Aí sim precisamos da compreensão das pessoas e da ajuda das instituições.” De acordo com ele, há duas dificuldades adicionais, próprias do comportamento das pessoas: “Temos um problema sério de medo, porque as pessoas precisam produzir, e temos um problema sério de má-vontade de alguns”.
Balestrassi diz que os prefeitos devem manter “postura de equilíbrio” e “não entrar em brigas”. Perguntei-lhe se o bolsonarismo, especialmente enraizado em Colatina, tem atrapalhado o isolamento social na cidade, em virtude da postura negacionista incentivada pelo presidente da República.
O prefeito avalia que não se trata de um problema particularmente forte em Colatina, mas lamenta comportamentos radicais de pessoas que pregam soluções milagrosas. “Esse radicalismo existe nas vozes anônimas gerais que acham que existe solução fácil. O PT no passado também era assim.”
Quanto à contenção do acesso dos moradores a espaços públicos, Balestrassi afirma que vai liberar feiras livres na cidade durante estes 14 dias, mas “com muitas regras de convivência com a Covid”.