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Eleições 2020

O peso pessoal de Luciano na derrota precoce de Gandini em Vitória

Candidato pagou a conta no lugar do prefeito: no momento em que mais era preciso agregar forças políticas, o temperamento de Luciano e ressentimentos de potenciais aliados se voltaram contra ele e contribuíram para o inesperado revés

Publicado em 23 de Novembro de 2020 às 04:00

Públicado em 

23 nov 2020 às 04:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

vvogas@redegazeta.com.br

O pedo de Luciano atrapalhou a decolagem de Gandini
O peso de Luciano atrapalhou a decolagem de Gandini Crédito: Amarildo
Em sua reeleição ao cargo de prefeito de Vitória, há quatro anos, Luciano Rezende (Cidadania) contou com o apoio explícito de certo político influente do Espírito Santo. Já no início do segundo mandato, esse político dirigiu uma ou duas críticas pontuais à administração do prefeito. Certa noite, estava na passarela ao lado da avenida, no Sambão do Povo, durante o desfile das escolas de samba. Ao lado da primeira-dama, Luciano o viu, passou por ele e, mesmo num contexto festivo, não o cumprimentou.
A cena se repetiu em uma cerimônia oficial, na qual o mesmo político sentou-se na cadeira logo atrás de Luciano. “Ele se levantou e olhou através de mim, como se eu fosse transparente. Nem sequer me cumprimentou.”
A fonte prefere o anonimato por um motivo muito simples: não quer atrair para si ainda mais rancor por parte de Luciano. A personalidade do prefeito e seu “gênio muito difícil”, para dizer da forma mais branda possível, aliada a uma incapacidade crônica de lidar com qualquer tipo de crítica, são características sublinhadas por todos: adversários, aliados e, principalmente, ex-aliados (e o “ex”, via de regra, tem muito a ver com esse temperamento).
É voz corrente no meio político capixaba que o prefeito de Vitória tem virtudes inegáveis e mais do que elogiáveis, como a honestidade a toda prova, a intransigência com malfeitos e a seriedade no trato da coisa pública. Por outro lado, as mesmas pessoas que destacam tais virtudes apontam Luciano como o líder político mais difícil do Espírito Santo quando se trata de relacionamentos interpessoais.
O poder político que ele acumulou desde que chegou à prefeitura em 2013 parece ter ido acentuando no prefeito esses traços e, ao longo dos últimos oito anos, Luciano também foi acumulando arestas, desgastes e ressentimentos de muitos com ele. Muitos que, inclusive, poderiam ter se perfilado ao lado dele e de seu candidato, Fabrício Gandini (Cidadania), nesta eleição municipal, mas que fizeram questão de passar bem longe do palanque oficial.
“Ele é muito bom no trato da coisa pública, mas ruim no trato das pessoas. Não é um político de fino trato”, resume um dos muitos agentes políticos do Estado ouvidos para esta coluna. “Luciano tem aquele jeito dele...”, tangencia outra fonte da coluna, preferindo o eufemismo. “Você precisa ver como ele trata os subordinados dele...”, comenta um quadro filiado a um partido aliado.
E o que tudo isso tem a ver com o 2º turno da eleição para a escolha do sucessor de Luciano e com a derrota prematura do candidato do prefeito, logo no 1º turno, não esperada por ninguém, muito menos pelo grupo do prefeito? Pois é. No decorrer dos últimos dias, fiz a várias fontes envolvidas de algum modo na disputa as seguintes perguntas: por que Gandini perdeu? Qual foi a possível influência do “fator Luciano” nessa derrota? Até que ponto o surpreendente revés pode ser debitado da conta política do prefeito?
A resposta quase invariavelmente remetia ao ponto destacado no início desta análise. Esse “jeito de Luciano” não agrega. Ao contrário, afasta as pessoas. E, efetivamente, afastou muitos potenciais aliados que, não fosse por causa do prefeito, teriam tranquilamente se somado à campanha de Gandini. Numa campanha você precisa agregar. Um perfil agregador ajuda muito. No momento em que Gandini mais precisava atrair e acumular forças políticas, teve por patrono da candidatura um líder com vocação contrária: a de afastar aliados.
Diversos agentes políticos do Estado sublinham esse paradoxo e a influência pessoal negativa de Luciano como fatores determinantes para a derrota de Gandini – mas, acima de tudo, do próprio prefeito, que não conseguiu levar sequer para o 2º turno um candidato “treinado” e lançado por ele com tamanha antecedência.
Como administrador, as pesquisas mostram um Luciano que termina seu governo em Vitória avaliado em algum ponto entre razoável e bom. Se não há nada de excepcional, também não há nenhuma grande crítica da população ao trabalho dele como gestor. O problema todo está na personalidade, no estilo e na articulação política, que, num caso clássico de autossabotagem, voltaram-se agora contra ele mesmo e, extensivamente, contra seu candidato.
Como representante da situação no pleito, Gandini pagou uma conta que na verdade pertencia a seu padrinho.

QUESTÃO DE PESO

Podemos dizer que, individualmente, o pupilo de Luciano é um candidato e um político bem mais “leve” que o próprio prefeito (embora, a meu juízo, tenha errado no tom e ficado muito mais “pesado” ao pesar demais a mão em sua briga pessoal com Pazolini). Mas, de maneira inevitável e involuntária, Gandini carregava sobre os ombros, desde o início da campanha, o peso de oito anos de gestão de Luciano e do mundo de rancores e dissabores de outros agentes políticos do Estado em relação ao prefeito.
Muita gente que poderia e até gostaria de ter aderido à campanha de Gandini manteve-se bem distante ou, em alguns casos, fez até questão de ir para outro lado, ajudar e apoiar um adversário. Muitas dessas pessoas têm voto. Gandini ficou de fora do 2º turno por 1.201 votos. É só fazer as contas.

OUTROS ERROS: COLIGAÇÃO GRANDE, MAS OCA

Com um total de sete partidos, Gandini entrou nessa disputa com a maior das coligações, reunindo em torno de si o PDT, o PSL, o PV, o PSC, o Podemos e o Avante, além do próprio Cidadania. Isso sem contar o PTB, cuja chapa de vereadores ele ajudou pessoalmente a montar. Entretanto, talvez à exceção do PDT, o que havia aí, quando olhado de perto, era um emaranhado de partidos aliados com muito tempo de TV somado, mas pouquíssima “organicidade”; partidos carentes de militância real, apaixonada e com identidade ideológica.

A SOMBRA DE LUCIANO

Sem jamais renegar Luciano, Gandini fez o possível para se desvencilhar da imagem do padrinho político e provar a sua afirmação, dada à coluna em outubro de 2019, de que seria ele mesmo, e não o mentor, o protagonista de sua campanha. Luciano chegou a fazer aparições pontuais – como no fatídico comício do dia 2 de novembro no clube Álvares Cabral. Mas, na propaganda eleitoral de rádio e TV de Gandini, o prefeito jamais apareceu por uma fração de segundo que fosse, nem seu nome jamais foi mencionado.
Era impossível, porém, ignorar a “presença” de Luciano. Os dois eram (e são) indissociáveis, até porque a linha mestra da propaganda de Gandini era se apresentar como um bom gestor, como alguém que se preparou a vida inteira para se tornar prefeito, exibindo o portfólio de projetos que ele ajudou a implantar e os investimentos que conseguiu captar para a cidade, em seu trabalho como secretário… Secretário na equipe de Luciano.
Todo mundo sabia que o candidato estava se referindo à sua atuação como braço direito do prefeito, em seu “estágio preparatório” para chegar à cadeira de Luciano, de 2017 a 2018, como o “supersecretário” municipal de Gestão, Planejamento e Comunicação. A secretaria, aliás, resultou da junção de três pastas, fundidas sob medida para dar a Gandini o maior espaço possível de modo que ele pudesse brilhar e provar o seu talento (a propósito, verdadeiro) como gestor público.
Às vezes a propaganda de Gandini até passava a falsa impressão de que estávamos diante não do candidato à sucessão, e sim do atual prefeito, de tanto que ele se arrogava os méritos pelos feitos da atual administração. Mas não tinha jeito. Mesmo ausente, Luciano estava ali. E muita gente pode ter deixado de votar em Gandini, apesar de seus incontestáveis méritos individuais, porque realmente enxergou em sua candidatura um “terceiro mandato do Luciano”. Ou, pelo menos, do grupo do prefeito.

O RASTRO DE MÁGOAS E RANCORES

Vai longe a lista de exemplos de políticos importantes que poderiam ter se juntado à campanha de Gandini. Um deles: Sergio Majeski (PSB). O deputado estadual apoiou abertamente a reeleição de Luciano em 2016. Na metade do seu primeiro mandato, Majeski já era muito popular e, num 2º turno apertadíssimo, entre Luciano e Amaro Neto, deu um apoio certamente importante para a vitória do primeiro.
Mas, nos anos seguintes, essa relação não foi cultivada. Gradativamente, Majeski se afastou de Luciano (ou foi afugentado por ele). Há muito tempo, os dois nem sequer se falam. Desta vez, no 1º turno, o deputado apoiou o vereador Mazinho dos Anjos (PSD) e quis distância do palanque oficial. No 2º turno, está neutro.

O DISTANCIAMENTO DE LUIZ PAULO

Outro exemplo ainda mais emblemático é Luiz Paulo Vellozo Lucas (PSDB) – este sim, podemos dizer sem erro, não apenas “importante”, mas essencial para a vitória de Luciano contra Amaro Neto e o grupo do então governador Paulo Hartung em 2016.
Até as vésperas do início daquela campanha, Luiz Paulo se apresentava como pré-candidato a prefeito (chegou a ir à redação de A Gazeta, literalmente, apresentando-se assim). Dias depois, rompido com Hartung, o ex-prefeito fez o movimento de xadrez político que, para muitos, entre os quais me incluo, decidiu aquela eleição antes mesmo de a bola rolar: retirou sua pré-candidatura e anunciou o seu apoio a Luciano.
Se o ex-prefeito tivesse permanecido na disputa, em um páreo muito equilibrado com Amaro, Lelo Coimbra e Luciano, este teria corrido o sério risco de perder votos para Luiz Paulo e de nem sequer passar para o 2º turno contra Amaro.
Veio a eleição seguinte em 2018, Luiz Paulo trocou o PSDB pelo partido de Luciano e, pelo Cidadania, concorreu a uma vaga de deputado federal. Não encontrou nenhum empenho pessoal a favor dele por parte de Luciano, que concentrou todas as suas fichas na candidatura ao mesmo cargo de sua aliada prioritária, Lenise Loureiro (Cidadania). Lenise também não se elegeu, o Cidadania só fez Da Vitória, e Luiz Paulo voltou a se afastar de Luciano (ou ser afastado).
Nos meses que antecederam a atual campanha, enquanto tentava articular a sua candidatura a prefeito que não vingou, Luiz Paulo, já de volta ao PSDB, reservava duras críticas a Luciano em conversas restritas. A outros agentes políticos, definia o “projeto político” do atual prefeito com uma palavra que não podemos reproduzir aqui. Sem legenda no PSDB, poderia ter fortalecido o palanque de Gandini – candidato mais próximo a ele no campo partidário. Foi outro que passou bem longe.

O ROMPIMENTO COM O PROGRESSISTAS

Outro exemplo, mas no campo partidário: o Progressistas (PP), uma das siglas que mais tem filiados e militantes no Espírito Santo. Na primeira administração de Luciano, o partido participou do 1º escalão. O presidente municipal do PP, Marcos Delmaestro, foi secretário de Assistência Social. Em 2016, saiu para ser candidato a vereador. Sem ter conseguido se eleger, voltou para a equipe de Luciano, mas em um cargo menor. O PP perdeu espaço na gestão. Frequentadores do andar da prefeitura onde fica o gabinete do prefeito relatam que os dois tiveram uma briga pessoal seriíssima.
Delmaestro saiu da prefeitura para o governo Casagrande. Em 2018, o presidente estadual do PP, Marcus Vicente, foi candidato à reeleição na Câmara dos Deputados e, tal como Luiz Paulo, não recebeu apoio algum de Luciano, focado na eleição de Lenise. Como deputado federal, Vicente havia ajudado na obtenção do importante empréstimo do Finisa para a Prefeitura de Vitória. Em 2019, o próprio já declarava a quem quisesse ouvir que, nesta eleição municipal, o PP não reeditaria a aliança com o Cidadania. De fato, o partido se posicionou no palanque do vice-prefeito Sérgio Sá (PSB). No 2º turno, está neutro.

OUTROS CASOS

O próprio Sérgio Sá também pode entrar nesta lista, pela maneira abrupta como foi exonerado, em janeiro, do cargo de secretário municipal de Obras e Habitação. Seu pai, o deputado José Esmeraldo (MDB), foi outro afastado com o tempo… A lista também abrange outrora aliados importantes na sociedade civil, como José Lino Sepulcri, presidente da Fecomércio.
É sintomático que o papel de coordenador da campanha de Gandini tenha cabido, no fim das contas, ao vereador Max da Mata (Avante), outro que também já brigou muito com Luciano e cuja relação com o prefeito já oscilou bastante. Nos últimos tempos, é aliado. Mas outros que já tiveram relação política muito mais longa e verdadeira com Luciano se apartaram (ou foram apartados) e, no presente processo eleitoral, repito, mantiveram distância crítica.
Enfim, é longo o rastro de aliados que se converteram (ou foram convertidos) em desafetos do prefeito.
E a fatura foi cobrada de Gandini.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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