Já esperada por alguns, surpreendente para outros, a decisão do deputado federal Amaro Neto (Republicanos) de não ser candidato a prefeito da Serra gera um tremor de terra no mapa político-eleitoral capixaba, com o poder de mudar o cenário não só na Serra como em muitos outros municípios. Nesta primeira análise, apontamos algumas das consequências imediatas da não candidatura de Amaro no município atualmente governado por Audifax Barcelos (Rede), envolvendo o próprio prefeito, o deputado Sérgio Vidigal (PDT) e outros pré-candidatos:
1) TODOS PASSAM A QUERER O APOIO DE AMARO
A primeira consequência é, talvez, a mais evidente de todas. A partir do momento que Amaro declara não ser candidato, ele passa instantaneamente à condição de cabo eleitoral mais cobiçado por todos os pré-candidatos a prefeito do município. Vale lembrar: Amaro não será candidato, mas agora é eleitor da Serra.
Em breve conversa com a coluna já na manhã desta sexta-feira (14), no frescor do anúncio de Amaro, dois pré-candidatos afirmaram que já pretendem abrir diálogo com Amaro e com o Republicanos visando obter o apoio dele: os deputados Bruno Lamas (PSB) e Alexandre Xambinho (PL).
O segundo, inclusive, esteve a ponto de trocar a Rede pelo próprio Republicanos para concorrer à Prefeitura da Serra. O arranjo inicial era esse, se Amaro tivesse permanecido em Vitória. Como Amaro transferiu o domicílio eleitoral para a Serra, Xambinho "sobrou" àquela altura e, para garantir a possibilidade de ser candidato, migrou para o Partido Liberal. Mas conserva excelente relação com Amaro e com o grupo político dele.
Neste tópico, vale um asterisco sobre o também deputado estadual Vandinho Leite. Presidente estadual do PSDB e pré-candidato a prefeito da Serra pela sigla, Vandinho estava fechadíssimo com o Republicanos e, até abril, esperava contar com o apoio de Amaro. Com a mudança deste para a Serra, pegando de surpresa até aliados, Vandinho foi quem teve a reação mais sanguínea.
Sentindo-se apunhalado, o tucano chegou a chamar Amaro de "palhaço" na imprensa e nas redes sociais. Como registramos aqui então, ele pode ter se precipitado e queimado de cara uma ponte importante com Amaro, que não dera nenhuma certeza de que seria mesmo candidato. E agora, como fica a relação? Será que a briga tem volta? Não conseguimos contato com nenhum dos dois.
2) VIDIGAL MAIS CANDIDATO DO QUE NUNCA
O deputado federal e ex-prefeito Sérgio Vidigal (PDT) é mais candidato a prefeito que nunca. A saída de Amaro abre ainda mais o jogo para ele e, simplesmente, não há nada mais na sua frente que possa demovê-lo de lançar nova candidatura.
Na verdade, a candidatura de Vidigal já era dada como certa com ou sem Amaro no páreo. Todos os movimentos do ex-prefeito e dos pedetistas já indicavam isso. Havia, no entanto, uma fundada preocupação com o potencial de Amaro, por seu estilo popular, de tirar votos preciosos de Vidigal no segmento onde ele transita melhor: os eleitores de baixa renda (que na Serra são muitos).
Sem Amaro na disputa, Vidigal em tese volta a "reinar" como favorito nessa faixa do eleitorado.
3) AUDIFAX TERÁ QUE REPENSAR OS PLANOS PARA DERROTAR VIDIGAL
O prefeito Audifax Barcelos passa a se ver, mais do que nunca, premido a lançar e apostar em mais de um candidato contra Sérgio Vidigal. Em dado momento, quando Amaro transferiu seu título eleitoral para a Serra (em abril), havia uma aproximação forte, confirmada por redistas, entre Audifax e Amaro, que poderia até ser candidato com o apoio do prefeito (declarado ou não).
Esse movimento, como se vê agora, não foi à frente. Audifax não poderá mais contar com o peso de Amaro na disputa para alcançar aquele que, ninguém duvida, segue sendo o seu objetivo maior nesta eleição na Serra: impedir que Sérgio Vidigal retorne à prefeitura.
Dentro dessa perspectiva, convém ao prefeito o lançamento de muitas candidaturas na Serra, para dividir a votação e "forçar" um 2º turno. Quanto mais candidatos melhor – ainda mais agora, sem a presença de um puxador de votos, como Amaro poderia ser.
O prefeito pode seguir, então, a clássica estratégia de distribuir seus ovos em várias cestas. A Rede, seu partido, deve mesmo lançar à sucessão o vereador Fábio Duarte e investir na campanha dele. Mas, sendo o candidato da Rede, Duarte pode não ser necessariamente "o candidato de Audifax", com o prefeito não se envolvendo demais na campanha.
Enquanto isso, discretamente, Audifax poderá também apostar em outros candidatos e ajudá-los a crescer no processo. Bruno Lamas (PSB), por exemplo, está aí quase implorando pelo apoio dele, e os dois já trocaram afagos públicos nesta quinta-feira (13).
Acima de tudo, é importante para Audifax manter excelente relação com todos os pré-candidatos que sejam concorrentes de Vidigal. Quem quer que avance ao 2º turno contra o pedetista será automaticamente o favorito para contar com o apoio do prefeito nessa disputa.