Matematicamente, o resultado apertadíssimo da eleição pela presidência estadual do PT, no último sábado (19), indica uma conclusão irrefutável: com 50,4% dos votos para a microempresária Jackeline Rocha (vencedora) e 49,2% para o deputado federal Helder Salomão (vencido), o PT que sai dessa processo interno é, mais uma vez, um partido rachado ao meio, que terá muito trabalho para juntar os próprios cacos visando às próximas eleições municipais.
Politicamente, porém, o discurso de todos os protagonistas do processo, tanto vencedores como vencidos, aponta na direção contrária: a da unificação do PT no Espírito Santo.
O mantra da “unidade” e da “unificação” está presente, inclusive, no discurso conciliador adotado após a vitória pela própria Jackeline Rocha, escolhida pela maioria dos 250 delegados com direito a voto no congresso estadual para a missão de substituir João Coser na presidência estadual do PT, pelos próximos quatro anos.
Será dela, mais do que de qualquer outro, a tarefa de segurar o tubo de cola-tudo e efetivamente dar liga às várias correntes – por vezes antagônicas – que compõem o partido no Espírito Santo, não permitindo que o PT se perca ainda mais em brigas internas autofágicas que só enfraquecem ainda mais um partido que já tem fatores externos de sobra para se preocupar. Não será tarefa fácil.
"De forma alguma o PT sai rachado do congresso. O processo neste congresso foi completamente diferente do de 2017, apesar dos números parecidos"
Jackeline se refere ao traumático processo, muito vivo na memória de petistas capixabas, que foi a eleição interna anterior, realizada em maio de 2017 e polarizada por Coser e pelo então deputado federal petista Givaldo Vieira: uma sangria desatada, cujos efeitos se sentem ainda hoje no partido.
Tanto a divisão de forças como o resultado da votação interna daquela disputa foram muito parecidos com a de agora: numa virada de mesa, Coser derrotou Givaldo por margem mínima de votos: 128 a 122. Naquela oportunidade, a corrente de Coser (Alternativa Socialista) pôde contar com o apoio da de Jackeline, a Construindo um Novo Brasil (CNB), ao passo que Givaldo liderou uma união de correntes insatisfeitas com a gestão de Coser, incluindo-se aí as da hoje deputada estadual Iriny Lopes, a de Perly Cipriano e a do próprio Helder Salomão.
Givaldo não aceitou o resultado, recorreu à direção nacional do PT, a eleição estadual foi parar no tapetão e isso praticamente produziu uma letargia no partido no ES, política e organizacionalmente: só para preencher as 22 vagas da nova Executiva estadual, o partido levou quatro meses. E prolongou-se por um bom tempo a troca de acusações entre o grupo de Coser e o de Givaldo, que enfim trocou o PT pelo PCdoB, para concorrer, sem êxito, à reeleição na Câmara dos Deputados em 2018.
Consumido por esse processo de autofagia, o PT capixaba fragmentou-se no momento em que mais necessitava estar unido e coeso, entre 2017 e 2018, com a onda bolsonarista chegando com tudo e o antipetismo mais forte do que nunca na sociedade capixaba.
Agora, a princípio – como indicam os números da eleição –, a correlação de forças se manteve, mudando-se apenas os respectivos protagonistas das chapas. No lugar de Coser (mas com o apoio declarado dele), Jackeline encabeçou a chapa resultante da união das respectivas correntes, mais o grupo do vereador de Cariacica André Lopes (decisivo no processo).
Enquanto isso, no lugar de Givaldo, coube a Helder encabeçar a chapa resultante da união de forças dos insatisfeitos com os rumos dados por Coser ao partido no Estado. Jackeline levou por placar ainda mais apertado que o do congresso de 2017: 126 votos para ela contra 123 para Helder.
Diante desse quadro, por que alguém deve acreditar que o pós-eleição dessa vez será diferente e não o aprofundamento do trauma e da cisão interna desencadeada em 2017? A resposta está na boca de todo(a)s o(a)s líderes petistas, a começar por Jackeline: apesar do placar muito estreito, o clima do congresso estadual dessa vez foi bem diferente daquele de dois anos atrás.
Em vez de uma disputa personalizada, marcada por troca de acusações e traições, a disputa dessa vez se deu apenas em torno das teses de cada chapa e, respeitadas as divergências, o congresso dessa vez ocorreu em clima muito mais pacífico e harmônico.
Prova maior disso seria o fato de que, antes da votação para a presidência estadual, a chapa de Helder e a de Jackeline decidiram juntar as respectivas teses em um documento só, que estabelece as prioridades estratégicas para o PT-ES nos próximos anos.
“O partido não sai rachado, muito pelo contrário, porque as teses apresentadas aos 52 diretórios municipais eleitos foram fundidas no congresso em uma só proposta de programa para o PT do Espírito Santo. Além dos atores e atrizes agora serem outros, o momento do partido é outro. Muita gente estava apostando na disputa interna, mas essa disputa acabou sendo boa para o PT”, defende a presidente estadual eleita.
Por quê?
"[A disputa foi boa] porque ajudou o partido a fazer uma autocrítica e a acumular convergências. Diferentemente daquele processo de 2017, desta vez foi só um debate de teses, sem apontamento de erros pessoais. Como costumamos dizer, limpamos a área"
DIVIDIDO, SIM; DESUNIDO, NÃO
“O partido não sai rachado”, também sustenta João Coser. “O congresso em si foi totalmente diferente do outro. Teve um clima amistoso. Conseguimos unificar as teses. Não foi um congresso tenso. O clima foi todo para cima. O congresso do PT mostrou uma grande maturidade.”
"O PT é um partido dividido. Infelizmente tem 50% que votaram numa chapa e 50% que votaram na outra. Mas, do ponto de vista político, tenho certeza de que a Jackeline vai encontrar um ambiente muito melhor que o meu. Durante a minha presidência, sofri denúncias infundadas, o que gerou um desgaste público para o partido e, no meu caso, um desgaste pessoal"
Coser também toca em outro ponto-chave: “A postura do Helder foi muito diferente daquela do Givaldo”.
ONZE CONTRA ONZE
De fato, o clima na direção estadual do PT daqui para a frente depende muita da postura a ser assumida por Helder. Na prática, o deputado federal terá metade do partido nas mãos: a Executiva estadual é formada por 22 assentos, distribuídos proporcionalmente de acordo com a votação de cada chapa no congresso. Assim, metade deles será reenchida por representantes da chapa de Helder. Na prática, 11 contra 11, como numa partida de futebol.
Se Helder quiser tensionar o partido por dentro, terá condições de fazê-lo. Pelo perfil do deputado – historicamente, mais moderado e conciliador do que era Givaldo – e pelos indicativos que ele já deu após a derrota, Coser e Jackeline não acreditam nisso.
“As relações internas vão se dar no debate e na política. Não acho que seja ruim a gente ter divergências de ideias e pensamentos, desde que isso não sirva para desconstruir o partido. Não vejo esse desejo de desconstrução da parte do agrupamento em que Helder está”, pondera Jackeline.
HELDER: “RESPEITO O RESULTADO”, MAS "NÃO SOMOS A MESMA COISA"
De fato, muito diferentemente de Givaldo em 2017, Helder deixa claro que acolhe o resultado do congresso e que vai contribuir para unificar e fortalecer o PT no Espírito Santo.
“Respeito o resultado. O partido está acostumado às disputas. Não foi a primeira nem será a última. Isso é salutar. Saímos fortalecidos do processo. Veja que precisaram unir três chapas para ter três votos a mais que nós. O nosso objetivo, desde o início, é a unificação do partido e o fortalecimento do partido no interior. O nosso trabalho será nesse sentido.”
Helder pondera, no entanto: unidade não significa igualdade. As diferenças entre seu grupo e o vencedor serão mantidas.
"Vamos trabalhar muito para que o PT saia fortalecido e unificado, porque isso é fundamental para as próximas disputas eleitorais, e para que o nosso grupo político saia cada vez mais fortalecido dentro do partido. Temos diferenças com o grupo que venceu e manteremos essas diferenças. Não somos a mesma coisa. Mas os interesses do partido são maiores que os interesses de um grupo político"
Helder de fato terá espaço e protagonismo, mas a bola agora está com Jackeline, assim como a missão de reerguer o PT. Se o partido seguir aprofundando, nos próximos anos, sua autoimplosão, pode fechar as portas e apagar a luz lá no sobrado que ocupa em uma ladeira lá no Centro de Vitória.