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Entrevista exclusiva

Paulo Hartung: “Se está testando a democracia, está mal-intencionado”

Em conversa com a coluna, ex-governador fala sobre o manifesto "Estamos Juntos", assinado por ele e outros líderes políticos que vão de Haddad a FHC, em defesa da democracia, que ele acredita estar realmente em risco sob o governo Bolsonaro. Também analisa a condução da crise da pandemia: "A preço de hoje, sairemos da crise nos arrastando"

Publicado em 06 de Junho de 2020 às 06:00

Públicado em 

06 jun 2020 às 06:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

vvogas@redegazeta.com.br

Paulo Hartung, ex-governador do ES
Paulo Hartung, ex-governador do ES Crédito: Reinaldo Carvalho/ALES
Ainda em 2018, o então governador Paulo Hartung advertiu diversas vezes para o flerte histórico do então candidato Jair Bolsonaro com o autoritarismo. Agora, os termos “golpe de Estado” e “ditadura militar” fizeram o seu caminho de volta ao noticiário político. Desnecessário enumerar as demonstrações de apoio pessoal do presidente a movimentos populares com pauta antidemocráticaO general Heleno outro dia emitiu nota com a expressão "consequências imprevisíveis". Foi o bastante para 89 militares da reserva divulgarem carta de apoio a Heleno, falando em “guerra civil”. Por sua vez, o ministro Celso de Mello mandou mensagem para os colegas de STF advertindo para o perigo real de instauração de uma nova ditadura militar no país.
Em meio a esse clima de tensão, um grupo de líderes políticos e potenciais líderes políticos, além de artistas e intelectuais, decidiu deixar as diferenças de lado (ainda que momentaneamente) e se mobilizar em um projeto comum contra o que encaram como ameaça real à nossa democracia. O primeiro resultado prático desse movimento foi um manifesto intitulado “Estamos Juntos”, publicado na internet e em jornais de grande circulação no último dia 30 e assinado por atores que você não imaginaria ver sentados à mesma mesa: de FHC (PSDB) a Fernando Haddad (PT); de Luciano Huck (sem partido) a Flávio Dino (PCdoB); de Marcelo Freixo (PSOL) a Tabata Amaral (PDT); de Jean Wyllys (PSOL) a Cristovam Buarque (Cidadania). Entre os signatários, encontra-se Paulo Hartung (sem partido).
Remetendo ao movimento Diretas Já, pela redemocratização do país após a ditadura militar (1964-1985), o grupo afirma representar "mais de dois terços da população do Brasil".
"Somos cidadãs, cidadãos, empresas, organizações e instituições brasileiras e fazemos parte da maioria que defende a vida, a liberdade e a democracia. Somos a maioria e exigimos que nossos representantes e lideranças políticas exerçam com afinco e dignidade seu papel diante da devastadora crise sanitária, política e econômica que atravessa o país", diz o texto.
"Como aconteceu no movimento Diretas Já, é hora de deixar de lado velhas disputas em busca do bem comum. Esquerda, centro e direita unidos para defender a lei, a ordem, a política, a ética, as famílias, o voto, a ciência, a verdade, o respeito e a valorização da diversidade, a liberdade de imprensa, a importância da arte, a preservação do meio ambiente e a responsabilidade na economia", afirma o movimento.
Para entender melhor a proposta do “Estamos Juntos”, conversamos na última quinta-feira (4) com Paulo Hartung. Confira abaixo a entrevista do ex-governador (a segunda parte você vê aqui neste domingo):

O senhor é um dos integrantes desse heterogêneo grupo de líderes políticos de esquerda, centro e centro-direita que assinam o manifesto "Estamos Juntos”. Qual é o objetivo de vocês?

O objetivo é uma sinalização de segmentos amplos da sociedade na defesa das instituições democráticas. A centralidade desse movimento é a defesa da democracia.

Por que essa defesa veemente agora? Vocês acreditam que as instituições democráticas possam estar ameaçadas de verdade?

A evolução do quadro político em nosso país inspira uma atitude de atenção em relação a desdobramentos indesejáveis que possam vir a ocorrer. Então, eu acho que é papel das lideranças responsáveis e das instituições responsáveis fazer um sinal de alerta à sociedade. E minha visão é que o manifesto cumpriu plenamente o seu objetivo. Teve repercussão extraordinária. Acho que foi um passo importante, com precisão de tempo, que é muito importante num assunto como esse.
"É papel das lideranças responsáveis fazer um alerta à sociedade neste momento.[...] Precisamos erguer um muro de contenção, de defesa das instituições democráticas."
Paulo Hartung (sem partido) - Ex-governador do ES

Como assim?

Para entender o que se passa com as democracias no mundo. Você tem que ter um olhar local, e nós estamos discutindo o local com muita clareza, mas olhar também o que está acontecendo no mundo. E o que está acontecendo no mundo, na minha visão? A emergência de novas tecnologias, particularmente de tecnologias de comunicação e informação, impactou a vida humana de maneira espetacular. A forma de consumir mudou, a forma de trabalhar está mudando e isso está se acelerando agora com a pandemia, a forma de produzir mudou… E isso, de certa forma, bateu em toda a vida humana. E resvalou nas instituições da democracia. Eu não tenho dúvida de que a política é uma invenção extraordinária do ser humano. Antes da política, era a prevalência da força, a barbárie, a lei do mais forte. A política traz o diálogo, a negociação. E, na invenção da política, a invenção das instituições democráticas é um outro poste importante da caminhada civilizatória. Aí nós montamos a ideia de não ter poder absoluto, de ter equilíbrio de poder, de ter freios e contrapesos. Mas o impacto das novas tecnologias tensiona as instituições. Você vê os Indignados na Espanha e tantos outros movimentos sociais e de jovens que foram feitos mundo afora e que também tensionaram as instituições democráticas, expondo a necessidade de elas representarem essa mudança da sociedade em curso. Então nós, democratas, nós que entendemos a democracia como um valor da sociedade humana, como uma evolução na caminhada humana, temos que ter também esse olhar para fora, para entendermos o tamanho dessa ameaça. E ver que também há frestas de solução.

Quer dizer, aqui e no mundo, a democracia representativa entra em crise também por conta própria, isto é, por não atender aos anseios da população de maneira satisfatória e se mostrar ineficiente em muitos pontos... Que “frestas de solução” o senhor vê?

De repente você tem a pandemia. As pessoas vão trabalhar em casa. O Parlamento funciona a distância. E a Justiça decide questões importantes por videoconferência. Isso mostra que há aí uma janela de oportunidades também para atualizar as instituições. Precisamos defender a democracia, mas precisamos ter a capacidade de mostrar à população que essa defesa não é estática. É uma defesa feita por quem percebe uma necessidade de atualização. Atualizar em quê? Na capacidade de essas instituições serem mais flexíveis, mais ágeis…
"Que Brasil vai sair no pós-crise? Um país se arrastando de joelhos ou um país de pé, com energia e tração? A preço de hoje, eu digo sem nenhuma chance de errar: vamos sair nos arrastando, vamos sair de joelhos."
Paulo Hartung (sem partido) - Ex-governador do ES

Na eleição de 2018, Jair Bolsonaro notoriamente beneficiou-se da fragmentação das forças de centro-esquerda. O exemplo mais emblemático foi o movimento de Lula para esvaziar o apoio do PSB a Ciro Gomes. Hoje, pesquisas mostram que o presidente tem o apoio de, no máximo, um terço da população. Parece pouco para se reeleger, mas, novamente, ele pode vir a ser favorecido pela divisão de forças não só da esquerda mas também de adversários situados no campo da direita. O senhor acredita que esse manifesto possa ser a centelha para a organização de um movimento maior e mais concreto, inclusive do ponto de vista eleitoral, de aglutinação de forças hoje dispersas numa espécie de Frente Ampla Democrática?

Eu me nego a discutir eleições de 2022, porque esse debate tem sido um desserviço ao país neste momento de pandemia. Tenho me manifestado nesse sentido. Precisamos romper com esse olhar obsessivo em direção a 2022. É uma eternidade e, com essa pandemia, ficou ainda mais distante. Nós precisamos é cuidar do país. Defender as instituições democráticas: isso virou um tema prioritário. Mas defender também uma coordenação racional para o país atravessar esta crise, para cuidar das vidas humanas, que é prioridade absoluta, e nós estamos perdendo muitas vidas humanas, excessivamente. E cuidar dos empregos, que também estão sendo destruídos nessa pandemia. Cuidar das atividades econômicas. E ainda precisamos de um olhar pós-crise, porque a crise vai passar. É claro que eu nunca convivi com uma crise dessa magnitude. Esta é a crise mais grave das nossas gerações. Mas convivi com dezenas de crises no país ao longo da minha militância na vida pública. Para lembrar só um exemplo, a crise de 2008/2009, da bolha do mercado imobiliário americano, que foi chamada de “marolinha” [por Lula], e de “marolinha” não tinha nada. Foi um tsunami na economia do país. Mas volto a dizer: nada é igual a esta crise, que é brutal, porque ceifa vidas humanas e “desliga” a economia, pois só há uma estratégia possível de saúde pública, que é o distanciamento social nos diversos níveis, na medida em que não temos remédio nem vacina. Ela é um desligar da economia. É como tirar um eletrodoméstico da tomada. Mas, enfim, se tem uma coisa que aprendi desde cedo, é que toda crise passa. Mesmo esta, que é a pior, vai passar. E, além de cuidar do emergencial, nós precisamos ter força para olhar para o pós-crise. Que Brasil vai sair no pós-crise? Um país se arrastando de joelhos ou um país de pé, com energia e tração, para voltar a prover oportunidades no pós-crise? A preço de hoje, eu digo sem nenhuma chance de errar: vamos sair nos arrastando, vamos sair de joelhos. Mas tem tempo para corrigir essa rota. Tenho batido nesta tecla: nós temos que sair dessa obsessão por 2022 e colocar foco agora nestas duas missões que temos: cuidar do emergencial na crise (salvar vidas, empregos, atividades econômicas e empresas) e preparar o Brasil para o pós-crise. Precisamos ancorar o endividamento que estamos fazendo na crise, que é grave, mas necessário. É preciso ancorá-lo, para que o país não derreta no pós-crise. Precisamos dinamizar a economia. Vou dar só um exemplo: essa falta de esgoto e de água tratada que se evidenciou com a pandemia. Esse é um espaço que, se acertarmos no Congresso Nacional o marco regulatório do saneamento básico, isso tem uma grande capacidade de atrair investimentos e de gerar empregos nessa área. São empregos de uma mão de obra desqualificada e intensiva, porque é construir rede de coleta de esgoto, rede de distribuição de água, estação de tratamento de esgoto e de água. Quer dizer, um mundo de empregos Brasil afora. E temos quase 30 milhões de brasileiros sem água tratada e mais 100 milhões sem esgoto. Então é muito serviço que se pode fazer para dar ao Brasil uma capacidade de andar no pós-crise. Mas, a preço de hoje, sairemos nos arrastando.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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