A cerca de 12 horas para a abertura das seções eleitorais e início da votação nesse domingo (15), a última pesquisa Ibope/Rede Gazeta sobre a eleição para a Prefeitura de Vitória mostra um cenário aberto e um empate triplo de tirar o fôlego entre os três candidatos que lideram a corrida e que agora aparecem praticamente colados: considerando-se apenas os votos válidos, Lorenzo Pazolini (Republicanos) desponta com 27%, seguido de muito perto por João Coser (PT) e Fabrício Gandini (Cidadania), com 26% cada um. Tecnicamente, os três estão empatados, já que a margem de erro do levantamento é de 4 pontos percentuais para mais ou para menos.
Antes de tudo, essa terceira e última sondagem do Ibope em Vitória confirma a tendência previamente destacada e analisada aqui na coluna, captada pela pesquisa anterior da série, no dia 3 de novembro: Vitória com certeza terá 2º turno, e a chegada nesse domingo ficará entre Pazolini, Coser e Gandini. Isso é possível afirmar, categoricamente.
Como só há duas vagas em disputa, um dos três ficará de fora da próxima etapa da eleição. A questão é: qual dos três? Com os dados informados pela pesquisa deste sábado, é simplesmente impossível arriscar qualquer previsão. Caberá ao eleitor da Capital decidir qual deles será "eliminado",dentre esses três favoritos.
UMA CURVA BOA PARA PAZOLINI
Não obstante o equilíbrio e a imprevisibilidade da corrida, não se pode deixar de pôr em relevo o crescimento de Pazolini em relação à pesquisa anterior. Esse na verdade vem a ser o “fato novo” contido no novo levantamento. Desde o início da série, o deputado estadual pelo Republicanos apresenta um crescimento regular – diferentemente de Coser e Gandini, que largaram na frente, mas desde então se mantiveram praticamente no mesmo patamar.
Na primeira pesquisa, publicada em 13 de outubro, considerando sempre apenas votos válidos, Pazolini tinha 13%. Na de 3 de novembro, subiu para 20%. Agora, saltou para 27%.
Enquanto isso, Coser largou na ponta, com 28%, subiu para 29% e agora está com 26%.
Já Gandini largou com 27%, depois caiu para 26% e agora se mantém com 26%.
Assim, enquanto Pazolini cresceu em ritmo consistente, Coser e Gandini oscilaram dentro da margem de erro. O delegado largou de trás, mas engatou uma quinta marcha e, pela primeira vez, numericamente, ultrapassa os dois principais adversários e aparece liderando a corrida.
Essa informação é de suma importância, porque (de novo) a chegada nesse domingo é imprevisível, mas, neste momento, o traçado da linha de cada um no gráfico talvez seja ainda mais importante que o último número em si, pois a linha indica a trajetória do candidato, ou seja, uma tendência de crescimento, queda ou estagnação.
No caso de Pazolini, desde a primeira pesquisa, em 13 de outubro, a trajetória da sua linha é ascendente, enquanto as de Coser e Gandini são, basicamente, uma linha reta, na horizontal. O desafio de Pazolini, então, nos últimos momentos da campanha, é manter essa trajetória, enquanto o de Coser e Gandini é revertê-la.
É preciso destacar, ainda, que esse último levantamento Ibope/Rede Gazeta veio positivo para Pazolini não só pelo número principal (os votos válidos), mas também por outros elementos. Ele tem a rejeição bem mais baixa que as dos dois rivais: a dele ficou em 18%, ante 27% de Gandini e 35% de Coser.
Nas simulações de segundo turno, Pazolini também melhorou seu desempenho e agora derrota Coser e Gandini.
DADOS PREOCUPANTES PARA GANDINI
A pesquisa, em seu conjunto, não veio muito boa para o candidato da situação, apoiado pelo prefeito Luciano Rezende (Cidadania). Em primeiro lugar, à medida que Pazolini ascende, também acende o alerta geral no comitê de campanha de Gandini.
Além disso, desde 3 de novembro, Gandini viu sua rejeição aumentar, de 21% para 27%. E se antes, em projeções de 2º turno, derrotava os dois oponentes, agora perde para Pazolini numa simulação de confronto direto e empata tecnicamente com Coser.
O QUE PODE TER AJUDADO PAZOLINI
Para explicar essa ascensão do candidato do Republicanos, sobretudo esse último impulso, e essas pequenas complicações do candidato do Cidadania, não há respostas prontas, mas um conjunto de hipóteses que podemos especular.
Não podemos deixar de salientar os fatores jogando a favor de Pazolini (os mesmos que já explicavam o seu primeiro salto, da primeira para a segunda pesquisa):
Em primeiro lugar, assim como Coser e Gandini, o delgado está com uma campanha bem estruturada e bem abastecida com recursos do Fundo Eleitoral, repassados pela cúpula estadual e pela nacional do seu partido (o Republicanos de Marcelo Crivella, Russomanno, Flávio e Carlos Bolsonaro).
Pazolini também pode ter acertado na estratégia de bater, sistematicamente, na administração de Luciano, associando essas críticas a Gandini e tratando-o como o "candidato do prefeito".
Essa subida também pode ser, em parte, resultado da penetração do discurso pró-segurança do deputado e delegado de polícia, sobretudo nos bairros de periferia de Vitória (onde foi bem votado para deputado estadual em 2018). Para enfatizar sua atuação nessa área, Lorenzo, desde o início, escolheu Delegado Pazolini como nome de urna, e assim tem sido chamado pela campanha. Também pôs como vice uma oficial da PMES, a Capitã Estéfane (também do Republicanos). É uma “chapa puro sangue policial”.
Curiosamente, na concepção da estratégia e de seu slogan “Paz e Igualdade”, a “paz” (um trocadilho com Pazolini) foi pensada para sensibilizar os moradores de bairros de classe média alta, que veem a segurança como principal problema da cidade, enquanto a “igualdade” (de oportunidades etc.) foi idealizada para atrair o voto dos moradores de baixa renda. Porém, mirando num alvo, eles podem ter acertado em outro.
Não descarto, ainda, o "voto útil" e mais “ideológico” de eleitores de direita da cidade, visto que Pazolini se declara como integrante desse campo político (embora não tenha feito campanha com esse mote), e outros candidatos de direita, como Capitção Assumção (Patriota) e Mazinho (PSD), não chegaram a deslanchar.
AS POLÊMICAS DA RETA FINAL
Quanto a Gandini, na piora de alguns números seus, podem ter pesado as críticas ao grande evento promovido por sua campanha no dia 2 de novembro, para cerca de 2 mil pessoas, no Clube Álvares Cabral, após o qual vários participantes, incluindo o próprio candidato, confirmaram infecção pelo novo coronavírus.
Além disso, após ter contraído a doença, Gandini precisou ficar em quarentena, fora de combate durante alguns dias decisivos da campanha. essa ausência forçada pode ter pesado? Sim. Sem dúvida, foi ruim para o candidato ter perdido o contato direto com as ruas, passar um período sem poder pedir votos e apoio pessoalmente etc.
Mas relativizo o peso desse fator, pois houve situações contrárias: em Cariacica, por exemplo, Sandro Locutor (PROS) também pegou a doença, pouco antes de Gandini, e foi parar até no hospital, mas cresceu na última pesquisa Ibope/Rede Gazeta na cidade, publicada nesta sexta-feira (13).
Por fim, Gandini pode ter errado um pouco no tom adquirido pela campanha nas últimas três semanas . Talvez tenha exagerado um pouco na estratégia de alertar para uma ameaça de retorno do crime organizado ao poder e de associar Pazolini a figuras políticas de um passado nem um pouco glorioso da política capixaba, como José Carlos Gratz e Marcos Madureira (aliado histórico de Gratz e, efetivamente, primeiro suplente do delegado na Assembleia).
Também não é possível medir até que ponto a operação deflagrada pela Polícia Federal, na semana retrasada, autorizada pela Justiça Eleitoral, pode ter prejudicado Gandini, em uma iniciativa desencadeada pelo adversário.
A pedido da coligação de Pazolini, enquanto Gandini se recuperava da Covid-19, a Policía Federal cumpriu mandado de busca e apreensão em uma secretaria da Prefeitura de Vitória (a mesma que Gandini comandou de 2017 a 2018) para apurar a suspeita (frise-se: suspeita) de que a campanha dele tenha sido beneficiada com doações irregulares, em bens e serviços estimáveis em dinheiro, por meio de realização de pesquisa e produção de vídeos para a campanha.
Em tempo: há mais de uma semana, muita gente já comentava que não suportava mais a briga entre Gandini e Pazolini, na TV, no rádio e nas redes sociais, e a dimensão que essa contenda acabou assumindo. Eleitores em geral torcem o nariz para campanhas demasiadamente agressivas, pautadas por ataques a adversários. Mas também há que se relativizar a influência desse fator: se é que ele realmente teve alguma, o que pesou contra Gandini não parece ter afetado a campanha de Pazolini.