Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Guerra política

Por que Casagrande entrou em movimento do PSB em prol do impeachment?

Casagrande não a declara com todas as letras, mas nem precisa: a guerra do seu governo já foi instaurada contra o bolsonarismo no plano local em várias frentes, enquanto, no plano nacional, partido do governador trabalha para derrubar o presidente

Publicado em 21 de Junho de 2020 às 06:00

Públicado em 

21 jun 2020 às 06:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

vvogas@redegazeta.com.br

Renato Casagrande e Jair Bolsonaro
Renato Casagrande e Jair Bolsonaro Crédito: Reprodução
A cúpula nacional do PSB, partido de Renato Casagrande, acaba de aprovar, com participação e concordância do governador capixaba, resolução oficial que lança o impeachment como meta prioritária da “luta do partido”, com o direcionamento de todos os esforços dos socialistas e de toda a estrutura partidária para essa finalidade. A mesma resolução também prega a formação não de uma “frente ampla”, mas de uma "frente amplíssima contra o fundamentalismo de extrema-direita" (assim mesmo, no superlativo), que “ainda não se realizou em nenhum outro lugar do mundo”, “em defesa da democracia”, a fim de parar “a trajetória autoritária do governo Bolsonaro”.
Foi a informação que publicamos aqui, na manhã da última sexta-feira (19). No trecho que se refere especificamente à participação de Casagrande, lê-se no documento que a formação dessa frente anti-Bolsonaro tem o apoio, “especialmente, dos governadores socialistas Paulo Câmara, de Pernambuco, e Renato Casagrande, do Espírito Santo, que, apesar das limitações institucionais dos seus cargos, defendem uma postura ofensiva do PSB nesse quadro”.
Para bom entendedor: "Os dois também pensam assim, tá? Também querem que a gente vá pra cima. Apenas ninguém espere que eles confirmem isso, por causa do cargo que ocupam".
A pergunta que não cala é: por que Casagrande está envolvido pessoalmente nessa articulação e, principalmente, por que agora? Procurado pela coluna, por intermédio da Superintendência de Comunicação, para uma manifestação, o governador não se pronunciou sobre o tema. Só nos resta especular. O colunista tem uma teoria, que pode ser resumida com o seguinte “ensinamento”, atribuído ao fundador da rede de fastfood McDonald’s, Ray Crock: “Quando um adversário está se afogando, pegue uma mangueira e jogue água na boca dele”. O que vale para o mundo dos negócios aplica-se mais ainda ao ainda mais competitivo universo político.
O governo Bolsonaro nunca esteve tão frágil politicamente e assim também, por consequência, o bolsonarismo. “A Semana do Presidente” foi marcada por um acúmulo de reveses, particularmente na última quinta-feira (18), com a queda oficial do ministro da Educação, Abraham Weintraub, após desgaste sem par, e a prisão de Fabrício Queiroz (na casa do advogado de Bolsonaro). Além de amigo do presidente há pelo menos 30 anos, o ex-assessor e ex-motorista do seu primogênito, Flávio Bolsonaro, é suspeito de ser peça-chave no suposto esquema de peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa imputado ao hoje senador pelo Ministério Público do Rio de Janeiro.
Embora Rodrigo Maia (DEM) mantenha a cautela e repita que não fará andar nenhum processo do tipo no momento, os pedidos de impeachment do presidente se multiplicam e movimentos por ele ganham força. Enquanto isso, avança o inquérito das fake news e dos atos antidemocráticos (apoiados pessoalmente por Bolsonaro), cuja legalidade acaba de ser confirmada pelo STF, por 10 votos a 1. No mesmo STF, o ministro Fux, em decisão liminar, delimitou a atuação das Forças Armadas, lembrando que elas “não são o Poder moderador”.
É bom lembrar que Casagrande é um dos caciques nacionais do PSB. Enquanto esteve na planície, de 2015 a 2018, foi secretário-geral do partido, do qual é militante histórico e orgânico. E o que é hoje o PSB senão um dos principais partidos de oposição a Bolsonaro no Congresso (se não o principal)?
Neste cenário, sem muito a perder pessoalmente, pode ser que Casagrande tenha decidido “ir para a guerra” ao bolsonarismo, nos bastidores, ou juntar-se a essa guerra (sem poder declará-la). Captando o enfraquecimento de Bolsonaro em várias frentes e farto dos ataques de radicais bolsonaristas a ele mesmo e a seu governo no Estado, pode ter mesmo chutado o balde e decidido fazer a sua parte, veladamente, para ajudar a derrubar o presidente, isto é, ajudar a empurrar um edifício que já está desmoronando sozinho, como aqueles dois em Muzema, bairro da Zona Oeste do Rio controlado por milicianos, que desabaram sozinhos em abril de 2019.
Politicamente, com Bolsonaro no cargo e radicalizando contra a esquerda, e contra governadores de esquerda, Casagrande não tem nada a ganhar.
O grande problema é: no meio dessa guerra político-ideológica, quem pode perder (e muito) é a população capixaba. E Casagrande deve ter consciência disso. É o que explica, por exemplo, seu silêncio oficial sobre o tema do “impeachment”.
Até pela posição que ocupa e pelas exigências administrativas e institucionais do cargo, Casagrande tem evitado comentar essas iniciativas oficiais do próprio partido e tem mostrado dedos ao avaliar as condições políticas de Bolsonaro (o famoso “medir palavras”). Não faz oposição aberta e ninguém o viu (até agora) defendendo, por exemplo, o afastamento do presidente.
Poder até poderia, mas não seria prudente queimar pontes desse jeito com o presidente da República enquanto se está à frente de um Estado que depende, como qualquer unidade federativa, de verbas e programas federais, entre outros pontos, como garantias para a contratação de operações de crédito.
Mesmo sendo do mesmo partido, a situação de um governador é diferente daquela de um dirigente (que não tem mandato e pode sair por aí dizendo livremente o que pensa). Também é muito diferente da situação de um parlamentar (que não só pode como deve marcar posicionamentos políticos claros). Se mal colocada ou mal recebida no Planalto, a fala de um governador pode levar prejuízos até para a população governada por ele.
Isso tudo, porém, não tem impedido Casagrande de vir, desde o início da pandemia, subindo o tom das críticas a medidas e declarações de Bolsonaro, de modo gradual e pontual. A mais recente foi à manifestação do presidente, condenada pelo governador, para que apoiadores “arranjem uma maneira de entrar e filmar” hospitais públicos que recebem pacientes com Covid-19.
Paralelamente, o governo Casagrande deflagrou uma ofensiva judicial em várias frentes. Tem entrado (e obtido êxito) com uma série de ações na Justiça, pedindo o apagamento de publicações feitas em redes sociais por adversários como o deputado estadual Capitão Assumção (ex-PSL, hoje no Patriota) e o ex-deputado federal Carlos Manato (ex-PSL, hoje sem partido).
Após uma dura nota de repúdio da Secretaria de Estado da Saúde, o governo apresentou notícia-crime ao MPES, que já abriu investigação, por conta da “fiscalização” dos seis deputados de oposição ao hospital estadual Dório Silva, tratada como “invasão” pelo governo Casagrande, no último dia 12, um dia após o próprio Bolsonaro ter incitado apoiadores a realizarem iniciativas como essa.
Em paralelo, o secretário de Estado da Saúde, Nésio Fernandes (PCdoB), antecipou à coluna que processará Assumção por difamação, uma vez que o deputado insiste em dizer, da tribuna virtual, que ele não é médico de verdade, além de tratá-lo recorrentemente com termos ofensivos como “vagabundo”.
Casagrande não a declara com todas as letras. Mas nem precisa: a guerra está instaurada.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Carreta cai em ribanceira em Cariacica
Carreta cai em ribanceira e complica trânsito no Contorno em Cariacica
Segundo a prefeitura, foram feitos testes visuais e também o teste de medida padrão de 20 litros em todos os bicos de abastecimento
Posto de combustíveis de Cachoeiro é autuado pelo Procon por irregularidade em bomba
Manami Ocean Living
Mercado imobiliário de luxo bate recordes e impulsiona crescimento do alto padrão no Espírito Santo

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados