Como explicamos em coluna anterior, o deputado estadual Marcelo Santos (Podemos) é tratado hoje por auxiliares do governador Renato Casagrande (PSB) como um forte potencial candidato à presidência da Assembleia Legislativa, com as bênçãos do Palácio Anchieta, na eleição do dia 1º de fevereiro. No arranjo desenhado por palacianos, o decano da Assembleia poderia concorrer não contra o atual presidente, Erick Musso (Republicanos), mas no lugar dele, liderando uma chapa única e consensual, num grande acordo de “ganha-ganha” para todos os envolvidos. Mas essa não é uma construção tão simples e requer um trabalho de convencimento.
Afinal, discretamente, Erick também busca viabilizar sua reeleição, é bem articulado e bem-quisto pela ampla maioria dos 30 deputados… E, para a “solução Marcelo Santos” dar certo, sem nenhuma rusga, trauma ou embate, o atual presidente teria que aceitar não disputar um terceiro biênio seguido no cargo. Na prática, isso significaria abrir mão de todo o imenso poder concentrado pelo presidente (e quase ninguém costuma abrir mão de poder algum).
O que poderia levar Erick Musso a abdicar? O que o governo tem a lhe oferecer para convencê-lo? Resposta: visibilidade. Visibilidade política para que ele possa galgar a outros patamares eleitorais. Como? Passando a, literalmente, fazer parte do governo Casagrande, em alguma posição de destaque.
Dois auxiliares de Casagrande garantem à coluna que Erick hoje é sinceramente cotado para virar secretário de Estado, na reforma do secretariado que Casagrande planeja fazer a partir de fevereiro, logo após a eleição da Mesa Diretora da Assembleia (e como sua consequência direta). Essa é outra carta que hoje está de verdade sobre a mesa de Casagrande: se abrir mão da presidência da Assembleia, Erick poderá assumir uma secretaria no governo, como a de Esportes ou outra até maior, com recursos, projetos e entregas.
Nesse aspecto, Marcelo e Erick se encontram em momentos completamente opostos das respectivas trajetórias, com projetos e ambições pessoais muito distintos. Enquanto Marcelo, com seus mais de 50 anos, quer sossegar e amarrar seu burro na sombra do Tribunal de Contas do Estado (TCES), Erick, com seus nem 35, deseja ainda subir alguns degraus na política capixaba.
Nesta etapa de sua história, Marcelo já não nutre aspirações eleitorais. Provou isso em 2020, deixando de ser candidato a prefeito de Cariacica para apoiar Euclério Sampaio (DEM). O que ele quer mesmo é se tornar conselheiro do TCES, na cadeira de Sérgio Borges, a vagar no mais tardar em janeiro de 2024, quando o ex-deputado completará 75 anos. Por sinal, exercer a presidência da Assembleia no próximo biênio ajudaria muito Marcelo a chegar lá.
E quanto a Erick? Tem aspirações eleitorais? Sim, e grandes! Quer se eleger de deputado federal para cima já em 2022, ou até chegar a algum cargo majoritário. E então pergunto: se o plano maior de Erick é esse, como exatamente seguir presidente da Assembleia o ajudará? Aliás, até que ponto ter sido presidente da Assembleia no último quadriênio o ajudou eleitoralmente?
Ao contrário, se os últimos quatro anos provaram algo a todos, principalmente ao próprio Erick, foi que presidir a Assembleia dá muito poder a ele, mas não lhe dá voto (o ativo de que ele mais vai precisar de agora em diante, se quiser de fato ascender na política estadual).
Nos últimos anos, ele mesmo e seus aliados não foram muito bem votados nem mesmo nas eleições em Aracruz. No ano passado, em seu reduto, Erick não conseguiu nem sequer eleger seu candidato a prefeito, o vereador Alcantaro (PSD).
Ora, suponhamos que, após a eleição da Mesa Diretora, ele assuma no governo Casagrande, pelos próximos dois anos, uma pasta vistosa, com entregas etc. Ele pode se tornar o que foi Vandinho Leite no primeiro governo Casagrande, com os campos Bom de Bola. Eleitoralmente, ganha muito mais visibilidade do que pautando projetos, distribuindo cargos e sendo “babá de deputado” na Assembleia por mais dois longos anos até a próxima eleição.
E mais:
Entre aliados de Erick há quem diga, à boca pequena, que o verdadeiro sonho de consumo do atual presidente da Assembleia é se tornar candidato a vice-governador na chapa de Casagrande em 2022, o que, diga-se de passagem, se esse arranjo descrito acima se confirmar, não acho de todo impossível.
O Republicanos e o PSB já estão juntos em muitos municípios do interior, após dobradinhas bem-sucedidas nas últimas eleições municipais. E assim Casagrande refreia eventuais ímpetos eleitorais do grupo de Erick, Pazolini e Amaro Neto contra ele mesmo em 2022. Esse grupo tem muitas ambições, mas terá que esperar até 2026. E, como são muito jovens, podem perfeitamente esperar. O tempo joga a favor deles.
Nesse caso, a atual vice-governadora, Jaqueline Moraes (PSB), seria candidata a deputada federal, como já se especula bastante.
E PARA CASAGRANDE?
Se eventual eleição de Marcelo Santos à presidência da Assembleia pode não ser de todo ruim para Erick Musso, para Casagrande, então, esse seria o arranjo dos sonhos. E não só por ele emplacar na chefia do Legislativo um fiel aliado.
Olhando a questão pela ótica do governador, é muito bom atrair Erick para dentro do governo, por vários aspectos. Ao mesmo tempo, ele “amarra” Erick até 2022 e garante a lealdade política do atual presidente da Assembleia, sem que este esteja mais na presidência. Afinal, se Erick se tornar mesmo secretário de Estado, passará a vestir oficialmente a camisa do time Casagrande.
Além disso, com esse mover de peças no xadrez político, Casagrande traria para dentro de sua base e de seu governo, de maneira definitiva e oficial, o Republicanos, partido que cresceu assombrosamente na eleição de 2020 no Espírito Santo, com a conquista da Prefeitura de Vitória e de mais nove prefeituras do interior (só o PSB fez mais prefeitos, com 13).
Fazendo isso, o governador neutraliza alguma possível “rasteira” ou concorrência eleitoral em 2022 por parte desse núcleo do Republicanos, além de estabilizar de uma vez por todas a relação com Pazolini. Não que o novo prefeito de Vitória esteja pensando em praticar oposição ao governo no cargo, mas, nem que quisesse, ele poderia mais: como é que um prefeito do Republicanos arrumaria dificuldades para um governo do qual seu partido faz parte?
De quebra, é evidente que ao governador e seu grupo não interessa eventual agigantamento do núcleo do Republicanos no Estado, após a chegada deste a tantas prefeituras, inclusive à de Vitória, no ano passado (em termos de espaço político, um êxito superior ao do próprio PSB nas eleições municipais).
Se o Republicanos seguir acumulando a Prefeitura de Vitória e o comando do Legislativo estadual pelos próximos dois anos, pode se dar justamente o contrário: em vez de absorver o partido em seu próprio projeto, Casagrande pode ver sair do controle esse grupo político atualmente incubado na legenda de Marcelo Crivella no Espírito Santo.
UMA PIMENTINHA FINAL
Em tempo: dentro do Palácio, tem gente bem incomodada com a postura de Erick desde a vitória de Pazolini em Vitória, entendendo que o presidente da Assembleia “ainda não desceu do palanque”. Durante a posse virtual de Pazolini, na última sexta-feira (1º), Erick falou por mais tempo que o próprio Pazolini e em tom de quem vai governar Vitória ao lado do prefeito (como se fosse um “co-prefeito” também eleito e empossado). E celebrou bastante a vitória do grupo deles contra tudo e contra todos.
Bem, o “todos” inclui a turma de Casagrande, que apoiou em peso Sérgio Sá (PSB), Gandini (Cidadania) e João Coser (PT), mas que definitivamente não apoiou Pazolini, perdendo assim a eleição.