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Única mulher na disputa

Quem é e o que pensa a delegada que quer ser prefeita da Serra?

Recém-aposentada da Polícia Civil, Gracimeri Gaviorno lançou-se pelo PSC e quer acabar com os 24 anos de alternância entre Audifax e Vidigal. Conciliando pautas conservadoras com progressistas, ela garante: "Minha candidatura é irreversível"

Publicado em 13 de Maio de 2020 às 05:00

Públicado em 

13 mai 2020 às 05:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

vvogas@redegazeta.com.br

Gracimeri Gaviorno
Gracimeri Gaviorno Crédito: Amarildo
Após atuar por 26 anos na Polícia Civil do Espírito Santo e chegar a chefiar a instituição em 2015/2016, a delegada Gracimeri Gaviorno, 49 anos, acaba de se aposentar do cargo, em abril, para se dedicar exclusivamente ao seu novo grande objetivo: tornar-se prefeita da Serra, na eleição municipal de outubro.
Para isso, filiou-se em março ao pequeno Partido Social Cristão (PSC) e, desde 2019, tem se empenhado em uma preparação pessoal que inclui sua participação no curso Renova Cidades e no master em Liderança e Gestão Pública do Centro de Lideranças Públicas (CLP), em São Paulo.
Na entrevista abaixo, a ex-chefe da Polícia Civil discorre sobre alguns dos seus projetos e posicionamentos políticos. Cautelosa na escolha das palavras, deixa uma crítica sutil à alternância de poder que marca a política serrana nas últimas décadas, entre o deputado federal Sérgio Vidigal (que deve concorrer de novo) e o prefeito Audifax Barcelos (que não pode concorrer e ainda não definiu seu candidato):
"Foram 12 anos de um e 12 anos de outro. Num primeiro momento, essas duas lideranças se consolidaram e fizeram boas gestões. Mas essa rivalidade ao longo desses anos todos custou muito caro ao município: a Serra não se desenvolveu. E é exatamente por conta disso que apresento uma candidatura independente. Precisamos sair desses polos. A Serra precisa se unir. Precisa se unir para se desenvolver. Estamos estagnados"
Gracimeri Gaviorno - Pré-candidata a prefeita da Serra
Disputando a sua primeira eleição, a moradora do bairro Manoel Plaza deverá ser a única mulher nesse páreo, que inclui ainda nomes como Amaro Neto (Republicanos), Vandinho Leite (PSDB), Bruno Lamas (PSB), Alexandre Xambinho (PL) e o já mencionado Vidigal.
Confira a entrevista completa de Gracimeri Gaviorno, seguida de um miniperfil da pré-candidata:

Por que a senhora decidiu se candidatar agora a prefeita da Serra?

Desde 2018 eu vinha sendo assediada para participar do processo eleitoral. Mas não me sentia nem preparada nem achava que a política pudesse ser uma aventura na vida das pessoas. A política pauta a vida das pessoas e deve ser encarada com seriedade. Por isso me matriculei no RenovaBR e já estava matriculada também no master em Liderança e Gestão Pública, promovido e financiado pelo Centro de Lideranças Públicas (CLP), em São Paulo. Eu não me via motivada a participar do pleito legislativo em 2018, mas tenho muito carinho pela minha cidade. Vim para a Serra muito nova, em 1976. Acompanho o dilema da Serra há muito tempo. Quando cheguei aqui, o município era tipicamente agrícola. Não havia infraestrutura, não havia transporte. Mal havia escolas. Estudei em escola que funcionava das 10h às 14h, para que os alunos pudessem almoçar. Nós éramos em torno de 20 mil habitantes. Hoje somos mais de 500 mil. Então, quando vou estudar as cidades no RenovaBR e gestão pública de forma mais aprofundada no CLP, isso vai consolidando a minha vontade de colocar à disposição da minha cidade toda essa experiência de gestão pública que adquiri ao longo desses vinte e poucos anos no serviço público. Estamos conversando com as pessoas, e elas almejam por mudanças. Na Serra, já são 24 anos de alternância no poder, mas o projeto é o mesmo. Temos grandes desafios. Então, neste momento, disponibilizo o meu nome para esse projeto de transformação.

Sua candidatura é irreversível ou a senhora pode fazer uma composição no fim do prazo e apoiar outro candidato?

Hoje estou no PSC porque a nossa conversa evoluiu exatamente para eu ter uma segurança quanto ao registro da minha candidatura. Estou colocando o nome à disposição. Tem espaço para vice na minha chapa. Mas a minha candidatura é irreversível. E essa foi a consolidação do PSC, que quer apresentar para a Serra um projeto diferenciado, longe da polarização que a gente vem enfrentando há 24 anos, e com responsabilidade, porque a gente está se preparando muito para apresentar um projeto para transformar a Serra. Queremos tornar a Serra conhecida nacionalmente não pelos indicadores de criminalidade, mas por práticas inovadoras de gestão.

A senhora fala em transformação. Em linhas gerais, quais as suas principais bandeiras?

Aqui na Serra são muitos desafios, mas posso destacar dois. São dois problemas que estão entrelaçados. Primeiro, vivemos uma estagnação da economia. E, junto com isso, temos um elevado índice de criminalidade, que leva a Serra a ser um município conhecido no Brasil inteiro como um município violento. Isso impacta também na não instalação de vários empreendimentos aqui na Serra, pois os indicadores criminais também são levados em consideração para isso. A Serra hoje está endividada. Foram feitas várias operações de crédito nos últimos anos. Então, essa queda de receita decorrente da pandemia vai afetar de forma drástica a nossa economia. Se a situação já era desafiadora antes da Covid-19, com a pandemia fica ainda mais. Precisamos olhar com grande responsabilidade para o orçamento. No pós-pandemia, principalmente, precisamos olhar para o lado social. E, quando se fala em políticas sociais, não podemos pensar em políticas puramente assistencialistas. Temos que levar oportunidades e geração de renda. Só assistencialismo não adianta, porque temos um PIB alto, mas esse PIB não se reverte em desenvolvimento do município. E isso se casa com a situação da segurança. Em minha trajetória profissional, trabalhei com segurança e com oportunidades para jovens, através do programa Ocupação Social, que coordenei em 2018, na Secretaria de Estado de Direitos Humanos. Temos que ligar estes três eixos, que, na minha visão, são interligados: desenvolvimento econômico, desenvolvimento social e segurança. Se não fizermos isso, não conseguiremos avançar.

Sobre a segurança: a Serra está sempre no topo das estatísticas de homicídios. O que a senhora propõe para diminuir esses índices ruins?

Quando falamos em segurança, é preciso ter um olhar especial. Às vezes as pessoas acham que é só montar uma Guarda Municipal. A Guarda não resolve o problema de segurança da cidade. Ela colabora para isso. Por isso é que é importante dialogar com o governo do Estado. Quando fui chefe da Polícia Civil, por exemplo, além das delegacias de crimes contra a vida e de entorpecentes, havia cinco delegacias de atendimento ao público na Serra. Hoje só há duas: uma em Laranjeiras e uma em Jacaraípe. É muito pouco para um município de 500 mil quilômetros quadrados e 517 mil habitantes. Estamos trabalhando a construção de um plano de governo, com uma equipe muito boa, formada por voluntários maravilhosos e coordenada pelo urbanista Chico Carvalho. Estamos estruturando esse plano em três eixos. Precisamos ter uma governança responsável e também colaborativa, que seja capaz de levar oportunidades para a população. Como é que se faz isso? Não podemos só pensar em erguer concreto. Equipamentos públicos são necessários. Mas temos que ter um olhar cidadão, com integração de ações. Precisamos pensar de forma integrada. O PIB alto que temos não gera qualidade de vida para a população. Os nossos indicadores de desenvolvimento precisam ser transformados em benefício da população. Temos que sair daquele modelo de cidade ultrapassado, urbanístico, para um modelo mais sustentável, um modelo em que a cidade seja capaz de ter todos os seus serviços em torno dela, melhorando até a mobilidade urbana. Quando a gente fala em segurança, não dá para deixar de pensar a cidade de forma integrada.

Como a senhora avalia a atual administração do prefeito Audifax Barcelos?

Estamos vivendo uma alternância: foram 12 anos de um [Sérgio Vidigal] e 12 anos de outro [Audifax Barcelos]. Num primeiro momento, essas duas lideranças se consolidaram e fizeram boas gestões. Mas essa rivalidade ao longo desses anos todos custou muito caro ao município: a Serra não se desenvolveu. E é exatamente por conta disso que eu apresento uma candidatura independente. Precisamos sair desses polos. A Serra precisa se unir. Precisa se unir para se desenvolver. Estamos estagnados.

A senhora foi chefe da Polícia Civil durante a primeira metade do último governo Paulo Hartung e depois exerceu outras funções no mesmo governo. Qual é a sua posição em relação ao atual governo Casagrande?

Eu também fui ouvidora no governo Casagrande, em 2019. Quando me desligo do governo estadual, foco toda a minha atenção no município da Serra. Agora, tem muitas coisas que podemos fazer juntos. Quando te falo que temos um município deste tamanho, com 500 mil quilômetros quadrados e 517 mil habitantes, e que temos apenas duas delegacias de atendimento à população, precisamos de um empenho maior do governo do Estado na parte de segurança. Não tenho dúvida disso.

O vereador Carlos Bolsonaro, segundo filho do presidente Jair Bolsonaro, era filiado ao PSC até março. O presidente nacional do partido, Pastor Everaldo Pereira, apoiou Bolsonaro em 2018 e, dois anos antes, batizou o então deputado nas águas do Rio Jordão. E quanto à senhora? Apoia o governo Bolsonaro?

Eu apoio qualquer governo que faça uma boa gestão para o nosso país. Na verdade, o que gostaria mesmo é que a gente vivesse num modelo federativo de fato. A nossa vida acontece nas cidades, e Brasília fica muito distante da resolução das nossas causas. O que espero que o presidente faça, e torço mesmo para que isso aconteça, é que ele consiga realmente liderar. Estamos num momento muito desafiador. Não achei que fôssemos passar pelo que estamos passando hoje na economia. Então espero que ele tenha sabedoria e serenidade para ser o líder de que o Brasil precisa, para unir as pessoas em torno de um objetivo comum, que é a gente passar por essa transformação, porque tem muita coisa pela frente. Hoje temos o vírus. Ele [Bolsonaro] não está equivocado na preocupação com a economia, porque temos que pensar na vida sob todas as formas: na saúde pública, na economia… Mas essas coisas precisam caminhar juntas. A Serra precisa de união, e o Brasil também.

O PSC é um partido bastante conservador e ligado a pautas de igrejas evangélicas. Nacionalmente, o comando é do pastor Everaldo. No Estado, o presidente é Reginaldo Almeida. A senhora também se define como uma mulher e uma candidata conservadora? Levará para a campanha na Serra a pauta evangélica?

O PSC foi criado por um padre. De qualquer forma, é um partido cristão. Hoje ele está sob a coordenação de um pastor. Mas é um partido cristão e conservador dentro da doutrina cristã. Eu tenho pautas progressistas, que acho que precisamos desenvolver. E sou conservadora em muitas coisas. Por exemplo, eu não aprovo a pauta do aborto. Acho que devemos preservar a vida sob todas as formas. Também não sou a favor da liberação das drogas. Esses são valores cristãos, mas também de outras pessoas que não são cristãs.

E um exemplo de pauta progressista que a senhora disse defender?

Precisamos desenvolver a economia, mas precisamos trabalhar algumas questões para que as pessoas mais necessitadas tenham igualdade de oportunidade. E aí não falo de “igualdade” no sentido puro, mas no sentido de equidade. Acho que as opções religiosas se resolvem dentro da igreja, e as opções sociais podem se resolver fora da igreja. As pessoas não precisam comungar da minha mesma linha ideológica e religiosa. O que nós precisamos fazer é caminhar em pautas que possam unir realmente a população. Afinal, ninguém governa para uma parte. Você pode até ser eleito por uma parte. Mas você governa para todos. E temos que compreender as diferenças. A diversidade é muito rica. Então, quando a gente fala em conservadorismo e em diversidade, por exemplo, é onde acho que a gente consegue formular melhor as ideias. Quando acolhemos a diversidade, chegamos a um ponto muito melhor do que onde estamos.

"Encerro um ciclo para me dedicar à candidatura"

Gracimeri Gaviorno tem 49 anos e mora atualmente no bairro Manoel Plaza. Nasceu em Colatina e cresceu na Serra, principalmente no bairro Eurico Salles. Diz ter tido uma infância difícil, “praticamente em situação de risco social”, pois os pais eram separados, sua mãe trabalhava em dois empregos e ainda fazia curso supletivo. Começou a trabalhar aos dez anos, na serralheria do padrasto. Também chegou a ser feirante artesanal e representante comercial. Cursou o ensino médio com foco no ensino técnico na antiga Escola Técnica (atual Ifes), com formação em Mecânica e em Administração.

Aos 15 anos, teve a carteira assinada e começou a trabalhar na Vale. Em seguida, realizou o seu sonho de cursar a faculdade de Direito, na Ufes. Desde então, não parou de estudar. Tem duas pós-graduações pela Ufes, em Processo Civil e em Segurança Pública, mestrado em Garantias Constitucionais pela FDV e doutorado em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidade do Museu Social Argentino (Umsa), em Buenos Aires.  

Atualmente cursa um master em Liderança e Gestão Pública, promovido e financiado pelo Centro de Lideranças Públicas (CLP), em São Paulo. Desde 2019, também participa do Renova Cidades, curso de formação de potenciais líderes políticos e candidatos, promovido pelo movimento RenovaBR. Após ter passado por algumas seleções, está avançando agora para a terceira fase do curso.  

Entrou na Polícia Civil em 1994, como perita, ao ser aprovada em concurso público. Em 1999, perto dos 30 anos, passou no concurso para delegada. Desde então, comandou diversas delegacias, tanto no interior como na Grande Vitória (Santo Antônio, Defraudações, Furtos de Veículos, Homicídios, Delegacia de Proteção à Mulher da Serra, entre outras).  

Em 2001, durante o governo José Ignácio, atuando na Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp), ajudou a estruturar a área de inteligência policial e a implantar o Disque-Denúncia 181. De 2015 a 2016, no último governo de Paulo Hartung, foi chefe da Polícia Civil do Espírito Santo. Lançou, na ocasião, o programa “Homem que é Homem”, voltado para a conscientização de agressores de mulheres.  

Depois, de 2017 a abril de 2018, foi subsecretária de Integração Institucional da Sesp (inclusive durante a greve da PMES em fevereiro de 2017). De maio a dezembro de 2018, foi subsecretária estadual de Direitos Humanos, tendo coordenado o programa Ocupação Social. Em 2019, já no atual governo Casagrande, foi ouvidora-geral da Sesp.  

Em abril deste ano, aposentou-se oficialmente da Polícia Civil. “Eu queria encerrar esse ciclo. Encerro minha carreira na segurança pública. E me sinto mais livre para poder construir esse projeto que a gente começa a pensar em 2019.” Hoje, dedica-se exclusivamente à construção da candidatura a prefeita da Serra.  

Foi filiada por cerca de 25 anos ao PRTB, dos 18 anos de idade até a investidura no cargo de chefe da Polícia Civil, em 2015. De setembro de 2019 a janeiro deste ano, passou pelo Partido Verde (PV). Em março, filiou-se ao PSC, para disputar a eleição.

Miniperfil

A Gazeta

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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