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Eleições 2020

Quem é o desconhecido candidato da Rede a prefeito de Vila Velha?

Apoiado por Fabiano Contarato e Audifax Barcelos, o administrador Rafael Primo, 39 anos, diz que estará no páreo, critica a gestão de Max Filho e conta quais são os seus planos para o município

Publicado em 23 de Abril de 2020 às 05:00

Públicado em 

23 abr 2020 às 05:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

vvogas@redegazeta.com.br

Rafael Primo, pré-candidato a prefeito de Vila Velha pela Rede Sustentabilidade
Rafael Primo, pré-candidato a prefeito de Vila Velha pela Rede Sustentabilidade Crédito: Amarildo
Sangue novo na política e rosto praticamente desconhecido pelo eleitor canela-verde, o administrador Rafael Primo acaba de ser lançado como pré-candidato a prefeito de Vila Velha pela Rede Sustentabilidade (partido presidido por ele mesmo no município).
Nesta entrevista exclusiva à coluna, Primo, que este ano completa 40 anos, garante que a candidatura é irreversível ("Vamos levá-la até o final") e conta com o apoio pessoal das duas maiores referências políticas da Rede no Espírito Santo: o do prefeito da Serra, Audifax Barcelos, e, principalmente, o do senador Fabiano Contarato. Também morador de Velha, Contarato foi, segundo Primo, fundamental na decisão de lançamento da candidatura própria.
O pré-candidato da Rede também revela algumas de suas propostas, como a criação de um "parque produtivo limpo" na zona rural de Vila Velha. E critica a atual administração do prefeito Max Filho (PSDB), considerado por todos concorrente à reeleição.
"Acho que o tempo do Max como administrador da cidade já passou há algum tempo. [...] Ele não se modernizou. O grupo que o acompanha também sempre é o mesmo. Isso faz com que ideias novas não entrem na administração. Não há oxigenação. O último mandato dele foi muito sintomático. Ele funcionou como um zelador da cidade. Manteve o básico funcionando, mas não deu nenhuma mudança de perspectiva, nenhuma mudança de rumo para a cidade"
Rafael Primo - Pré-candidato da Rede Sustentabilidade a prefeito de Vila Velha
Como candidato pela Rede – um partido muito pequeno e sem acesso ao fundo partidário por não ter ultrapassado a cláusula de barreira em 2018 –, Primo terá poucos recursos de campanha. Correrá, ainda, o risco de ficar de fora de importantes debates eleitorais, por causa do tamanho da bancada do partido no Congresso. Nada que o desanime.
"Gosto de encontrar soluções que ninguém encontrou ainda. [...] Acho que faremos muita coisa, mesmo sem dinheiro. Estamos pensando em soluções alternativas e não tenho dúvida de que chegaremos a todo mundo."
Confira a entrevista completa com o novo pré-candidato na disputa em Vila Velha:

O que atraiu o senhor para se filiar à Rede Sustentabilidade?

Em 2018, tive uma rápida passagem pelo PCdoB. Foi um movimento que fiz de experimentação da vida partidária, muito vinculado a alguns romances em relação à política, mas percebi que não era um ambiente que eu desejava para fazer política. No fim de 2018, buscando um posicionamento mais equilibrado, lidando com questões reais e mais atuais do cotidiano das pessoas, procurei a Rede Sustentabilidade. E te falo que foi, sem dúvida nenhuma, meu melhor movimento político.

Por quê?

Considero a Rede um partido extremamente eficaz. É um partido muito ligado em decisões pautadas em ciência, não só na questão ambiental, mas também na questão econômica. O partido tem um corpo de especialistas em todas as áreas e sempre está consultando pessoas muito relevantes do cenário nacional. E isso faz com que a gente tenha movimentos muito assertivos e eficazes em relação à qualidade de vida do cidadão. Para alguns, a Rede é de esquerda. Para outros, de direita. E eu digo a todos: a Rede quer impactar a vida das pessoas, da maneira correta, imediatamente.

E a candidatura agora? Como foi essa construção e por que o senhor decidiu se lançar pré-candidato a prefeito?

Na verdade, eu não me lancei. A gente estava numa avaliação de cenário. Mesmo sem candidato, a Executiva da Rede em Vila Velha pensava a cidade. Tínhamos algumas objeções à atual administração. E achávamos que algumas atitudes deveriam ser tomadas para a cidade mudar de rumo. Nesse processo de reflexão, fizemos uma consulta ao senador Fabiano Contarato, que também mora em Vila Velha. Ele nos perguntou a finalidade da nossa atividade política. Perguntou assim: "Com as candidaturas postas, vocês vão atingir o que querem para a cidade?" Foi uma pergunta emblemática. E percebemos naquele momento que não. Nesse momento vimos que, qualquer que fosse a pessoa que apoiássemos, nenhuma delas carregava os valores que defendemos para a administração pública. E nesse momento o Contarato falou: "Então, mediante essa constatação, eu sugiro que a gente lance um candidato próprio. E eu acho que deve ser o Rafael". No primeiro momento, foi um choque. Fiquei sinceramente assustado. Eu estava me programando para ser candidato a vereador. Inclusive fiz o RenovaBR, na formação, como se eu viesse candidato na vereança.

Mas então o senhor se declara pré-candidato a prefeito?

Eu sou pré-candidato a prefeito. Hoje, depois de uma construção do partido, de termos medido se somos capazes de entregar à cidade o que desejamos, de avaliarmos com o senador Contarato e com o prefeito Audifax Barcelos, nós realmente nos colocamos à disposição da cidade.

E essa pré-candidatura é irrevogável ou pode ser que, lá no período das convenções e registro de candidaturas, a Rede opte por uma composição e acabe apoiando outro candidato?

Eu te falo com segurança: nós manteremos essa candidatura, porque, como ela foi lançada em virtude do bom debate com o município, não faz nenhum sentido a gente fazer algum movimento por política, por pragmatismo. A gente vai levá-la até o final. A gente quer testar. A gente quer saber o que o povo acha. A gente quer saber se o povo quer realmente uma proposta nova. Hoje estou convencido, empenhado e muito motivado.

Pelo que o senhor relatou, podemos dizer que o senador Fabiano Contarato foi o grande incentivador da sua pré-candidatura?

Ele foi um incentivador. A Executiva avaliou, e a gente entendeu que era importante mudar a forma de dialogar com a cidade. Avaliamos que o custo político de colocar um candidato desconhecido obviamente nos entrega uma tarefa maior, mais trabalho, mas realmente nos entrega a possibilidade de fazer a política que acreditamos.

E que política é essa?

É uma política baseada numa administração pública eficaz, realmente transparente. É uma política que vai cuidar das pessoas, que vai dar todo o suporte para o empreendedorismo do pequeno, do médio e do grande empresário, mas vai tomar todas as decisões avaliando os resultados para as pessoas. A população precisa ser mais valorizada. O empresariado precisa ter a porta aberta e ser consultado para desenharmos a cidade.

Em linhas gerais, o que o senhor defende para Vila Velha dos pontos de vista econômico e administrativo?

Em Vila Velha, temos um PDM (Plano Diretor Municipal) que sempre é remendado, e nunca repensado. Precisamos fazer um PDM novo. Existe um comentário clássico hoje em dia em Vila Velha de que a cidade perdeu o timing de fazer a sua industrialização, como a Serra fez, perdeu o timing de fazer o seu centro logístico, como Viana fez. Isso é um comentário de quem acha que as coisas não podem ser construídas. É evidente que, naquele momento, a gente perdeu a capacidade de fazer aquilo daquela forma. Mas hoje existe outra demanda. A sociedade mudou. Há uma necessidade de criarmos uma área de industrialização em Vila Velha para fazermos uma indústria limpa. Você pode ter indústrias que ocupam menos espaço e produzem economicamente muito mais. A única forma de mudarmos hoje a arrecadação de Vila Velha no curto prazo, pelos estudos que temos feito, é trazer um parque industrial que consigamos instalar em pouco tempo de forma eficaz e com impacto ambiental reduzido. Com isso, vamos conseguir melhorar a arrecadação de ICMS. E aí, no repasse, vamos receber realmente um volume expressivo para mudarmos o grau de investimento que temos em Vila Velha. Além disso, precisamos pensar em digitalização nas duas pontas. Primeiro, digitalizar a máquina pública e tornar a Prefeitura de Vila Velha realmente transparente, para que o cidadão veja onde o dinheiro está sendo gasto. Com isso, além da transparência, dar um serviço mais eficaz e encerrar o ciclo de contratações ineficazes. Precisamos mudar essa mentalidade até para valorizar o servidor que já está na prefeitura. Não é inchar a máquina. É mudar o tratamento que o servidor vem tendo hoje e dar um serviço de melhor qualidade com os servidores que temos.

Sobre o "parque industrial limpo" a que o senhor se referiu: como viabilizar isso?

Hoje eu tenho em Vila Velha uma zona rural que não produz nada na agropecuária. Ali, naturalmente, está a vocação para instalarmos o novo parque produtivo da cidade. Não vou chamar de "parque industrial". Instalando um parque produtivo ali, naquela região, primeira coisa: geramos empregos na região mais carente. Ali eu consigo formar mão de obra para atender a qualquer demanda que tenhamos ali, nessa construção do parque produtivo. Com esse parque produtivo, também melhoro a arrecadação do município e consigo melhorar o grau de investimento no município. Então é um ciclo produtivo. Mas temos que começar pelo pavimento. Eu não posso começar a casa pelo teto.

E quanto à atual administração? Em linhas gerais, como o senhor avalia esse terceiro governo do prefeito Max Filho?

Não tenho nenhuma objeção para falar da pessoa do Max Filho. Jamais vou ofender a honra dele. Mas acho que o seu tempo como administrador da cidade já passou há algum tempo. É natural, na vida, que a gente pare de se formar, de se adequar. Existe um momento em que a gente abaixa essa frequência. Eu acho que o Max Filho realmente já abaixou essa frequência. Ele não se modernizou. O grupo que o acompanha também sempre é o mesmo. Isso faz com que ideias novas não entrem na administração. Não há oxigenação. O último mandato dele foi muito sintomático. Ele funcionou como um zelador da cidade. Manteve o básico funcionando, mas não deu nenhuma mudança de perspectiva, nenhuma mudança de rumo para a cidade.

O "último mandato" que o senhor fala é o atual, não é?

Sim, sim, é o atual… que eu espero que seja o último.

Em razão da pandemia do novo coronavírus, existe a possibilidade de adiamento da eleição de outubro, mas até o momento, oficialmente, o calendário eleitoral está mantido. E, se for realmente mantido, há uma visão geral de que os candidatos pouco conhecidos pelo eleitor, como o senhor, saem em grande desvantagem, sobretudo em cidades grandes como Vila Velha. O que o senhor pensa sobre isso? Acredita que possa sair prejudicado e defende o adiamento do pleito?

Não. Eu acho que o ideal é que a eleição aconteça na data prevista. Eu entendo as necessidades, principalmente sanitárias. E obviamente, se for para a segurança das pessoas, que a eleição seja adiada. Mas a minha sensação hoje é que, por se tratar de uma condição constitucional, ela acontecerá este ano. Acho até razoável que ela seja adiada para dezembro. Mas acho que não será no ano que vem. Agora, em relação à capacidade de me colocar disponível para o eleitor, acho que um mês a mais, um mês a menos, não mudará muita coisa. Tenho uma confiança: as pessoas envolvidas hoje na construção do meu plano de governo e que estarão envolvidas na minha administração, se ela for eleita, são pessoas que já foram testadas no serviço público, com excelente desempenho. Pessoas também do setor privado estão se colocando à disposição para a construção de uma cidade moderna. E acho que o nosso plano de governo é um plano de governo ainda não conhecido por Vila Velha, desde a sua raiz. Então acho que, quando as pessoas tiverem acesso a esse documento, que é o nosso compromisso com a cidade, naturalmente vamos conquistar o espaço que desejamos.

Falando em espaço, a Rede é um partido muito pequeno, não em termos de ideias, mas de estrutura. Não superou a cláusula de barreira em 2018, logo não tem acesso ao fundo partidário. O senhor acha que o partido está apto para participar dessa eleição num colégio eleitoral tão grande de maneira competitiva?

Eu gosto de encontrar soluções que ninguém encontrou ainda. Sabemos da nossa capacidade financeira, que é muito pequena. E entendemos que mão de obra na política demanda dinheiro, para colocar algumas tarefas em campo. Mas também temos pensado em questões alternativas, muito além das redes sociais. Contamos sinceramente com a chegada voluntária de muitas pessoas que já têm se colocado à disposição dessa construção. Acho que faremos muita coisa, mesmo sem dinheiro. Estamos pensando em soluções alternativas e não tenho dúvida de que vamos chegar a todo mundo.

Como candidato pela Rede, o senhor ficará sujeito a não participar de todos os debates, uma vez que a resolução do TSE que trata desse tema diz que as emissoras de rádio e TV só serão obrigadas a convidar os candidatos de partidos que tenham pelo menos cinco congressistas. No caso de um partido como a Rede, o convite será facultativo. O senhor acha que isso pode prejudicar a sua campanha, ou dá para compensar?

Existem na política os movimentos naturais, onde as pessoas buscam o interesse coletivo, e existem os movimentos nefastos. Se você pensar pela lógica nefasta, os grupos que têm interesse em não me colocar nos debates têm uma alternativa legal para me tirar. Ponto. Mas acho que todo mundo quer entender o que a Rede tem para Vila Velha, até porque um senador da República é da Rede e é do município. Temos um gestor altamente qualificado, comprovado na administração pública, que é Audifax, que quer transferir parte do seu conhecimento para esse projeto. Então acho que Vila Velha terá oportunidade de conhecer uma proposta nova, diferente. A partir deste momento eu viro o porta-voz de um projeto. Eu não sou Rafael Primo. Sou Rafael Primo, da Rede. Eu sustento uma ideia construída num partido, por um grupo. Então acho que isso fatalmente vai nos colocar nos debates em que a gente precise estar.

Do capitalismo ao comunismo: da Bolsa de Valores ao PCdoB

Nascido em 1980, Rafael Primo mora em Vila Velha desde os dois dias de vida. Cresceu em Coqueiral de Itaparica, populoso bairro de classe média onde mora até hoje. Seus pais moravam em Araçás. Formou-se em Administração na Faculdade Novo Milênio, também em Itaparica, como beneficiário do Prouni, programa de financiamento estudantil criado no governo Lula, fato que ele faz questão de destacar: "Considero o Prouni um programa de altíssimo valor republicano". 

Na iniciativa privada, tem experiência de atuação no setor bancário (Itaú, Unibanco e Santander) e, de maneira autônoma, como representante de marcas e segmentos e como consultor de negócios. Também é corretor da Bolsa de Valores certificado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). 

No mundo político, já foi simpatizante do PT, teve uma breve passagem pelo PCdoB e chegou a disputar uma eleição pelo partido, a deputado estadual, em 2018. Conta que à época decidiu entrar no PCdoB por afinidade com o atual presidente do Detran-ES, Givaldo Vieira, que acabara de trocar o PT pela outra sigla de esquerda. Lançou a candidatura para ajudar a chapa, mas diz que não foi uma boa experiência: "Ficou de bom só o aprendizado". 

Logo depois da eleição de 2018, filiou-se à Rede Sustentabilidade. Em 2019, assumiu a presidência do partido em Vila Velha. De 2019 para este ano, participou da última turma do movimento RenovaBR para a formação política de potenciais candidatos nas eleições municipais (o "RenovaBR Cidades"). Por sinal, o movimento apadrinhado por Luciano Huck tem participantes, principalmente, da Rede, do Novo e do Cidadania.

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Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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