Aliado do governador Renato Casagrande (PSB) e do prefeito Luciano Rezende (Cidadania), o secretário de Serviços de Vitória, Nathan Medeiros, decidiu, nesta sexta-feira (3), trocar o PSB pelo PSL. Isso mesmo, você não leu errado: ele acaba de assinar ficha de filiação ao PSL.
Do ponto de vista ideológico, é uma mudança surpreendente: vereador licenciado para exercer o cargo de secretário, Nathan troca o Partido Socialista Brasileiro (sigla de centro-esquerda) pelo Partido Social Liberal (ainda uma sigla de direita, apesar da saída do presidente Jair Bolsonaro, de dois dos seus filhos e de outros bolsonaristas).
Já do ponto de vista estratégico, a mudança pode ser explicada. Nathan quer ser candidato a vice-prefeito na chapa a ser liderada pelo deputado estadual Fabrício Gandini, presidente regional do Cidadania e candidato apoiado abertamente por Luciano Rezende à sucessão. Essa é, basicamente, a chapa da situação.
Para poder viabilizar esse plano, Nathan precisava sair do PSB, porque o partido de Casagrande trabalha com a perspectiva de lançar candidato próprio à prefeitura. Pode ser o atual vice-prefeito, Sérgio Sá, ou, em última instância, o deputado estadual Sergio Majeski, caso ele mude de ideia e decida permanecer no partido.
Diga-se de passagem, os dirigentes estaduais e municipais do PSB estão plenamente de acordo com essa movimentação de Nathan. Em vez de óbices, só puseram bênçãos. A troca é interessante para o partido do governador. Por quê?
Com a migração de Nathan para o PSL, o PSB pode lançar um candidato próprio e, ao mesmo tempo, influir na chapa de Gandini, pois Nathan continua ligado aos dirigentes do PSB. De certo modo, mesmo no PSL, se Nathan for mesmo o vice de Gandini, também será um vice “do PSB”, indicado pelo partido de Casagrande.
De quebra, com a saída de Nathan, o PSB "alivia" a sua chapa de vereadores, já que ele tem mandato na Câmara até o fim do ano, e vereadores com mandato (naturais favoritos à reeleição) tendem a assustar potenciais pré-candidatos à Câmara, dificultando a montagem da chapa devido ao fim das coligações na eleição proporcional. Além de Nathan, o PSB tinha outro vereador na atual legislatura: Davi Esmael. Mas, após ter sido “convidado a se retirar” pelo presidente municipal, Juarez Vieira, Davi trocou o PSB pelo PSD.
Em todo caso, a pergunta que não quer calar é outra: ok, Nathan queria sair do PSB, o PSB também queria sua saída, mas… por que logo o PSL, entre tantas opções possíveis? A resposta é simples:
A NOVA CARA E O NOVO RUMO DO PSL NO ESPÍRITO SANTO
Com a eventual presença de Nathan na chapa de Gandini (leia-se Luciano), que tem a simpatia de Casagrande, o polo PSB/Cidadania, que hoje controla o governo estadual, passa a absorver em Vitória também o PSL, partido que, até meados de fevereiro, abrigava notórios opositores ao governo Casagrande, como o ex-deputado federal Carlos Manato (agora sem partido) e o deputado estadual Capitão Assumção (filiado nesta quinta-feira, 2, ao Patriota).
Noutras palavras, o Palácio Anchieta passa a controlar também o PSL na Capital. E um partido que até outro dia era um incômodo para o governo Casagrande agora se torna parte do mesmo projeto político.
A seta para se entender essa guinada aponta para uma pessoa: o coronel Alexandre Quintino. Diferentemente de Manato e de Assumção, o deputado estadual é um grande e declarado aliado tanto de Casagrande como de Gandini. Em meados de março, ele "tomou" a presidência do PSL de Amarildo Lovato no Estado, num movimento endossado pelo presidente nacional do PSL, o deputado federal Luciano Bivar (PE), e veladamente apoiado pelo governo de Renato Casagrande.
Como mostramos aqui no último dia 23, essa articulação contou, inclusive, com a participação direta do deputado federal Josias da Vitória (Cidadania, como Gandini), aliado de Quintino, de Casagrande e de Luciano no tabuleiro político estadual. Já havíamos até cantado a alta probabilidade que surgia de o PSL vir a apoiar Gandini em Vitória nessa nova configuração de forças, a partir de uma declaração do próprio Quintino à coluna.
Resumo da ópera: a ida de Nathan Medeiros do PSB para o PSL, para ser vice na chapa de Gandini, significa chances muito fortes de o PSL passar a fazer parte da coligação liderada pelo Cidadania. É a primeira consequência impactante da mudança na presidência estadual do PSL e uma prova irrefutável dos novos rumos que Quintino dará ao partido de direita no Estado.
Questionado pela coluna, o próprio Nathan indica isso. Ele não hesita em afirma que optou pelo PSL, basicamente, por causa da pessoa de Quintino na presidência:
“Gosto da forma de atuação do Quintino. Não tenho identidade política nem de direita nem esquerda. Sou a favor da população. Então, independentemente de partido, tenho uma boa relação com o Quintino. Isso contou muito na minha decisão. Inclusive, digo que ele, Gandini e e eu já avaliamos juntos essa possibilidade de eu ser vice, pelo PSL, na chapa do Gandini. Existe uma possibilidade muito grande de isso acontecer.”
DESINCOMPATIBILIZAÇÃO
Por ser secretário municipal, Nathan só pretende se desligar do cargo e retornar à Câmara de Vitória no início de junho, conforme permite resolução do TSE para secretários que queiram se candidatar a prefeito ou a vice-prefeito na eleição de outubro.
EM TEMPO... DE TV
Em tempo, o PSL leva um ativo muito importante para a coligação de Gandini: um excelente tempo de TV, visto que o partido possui uma das maiores bancadas na Câmara Federal. Já o Cidadania tem uma bancada muito pequena (menos de dez deputados federais) e, consequentemente, leva muito pouco tempo na divisão entre os partidos.
ARRANJO PARA COMPENSAR O PDT (VIDIGAL)
Antes de fechar com o PSL, Nathan Medeiros esteve muito perto de se filiar ao PDT, outro partido aliado de Gandini. Com a ida dele para o PSL, o vereador Dalto Neves deve se filiar ao PDT para compensar um pouco a perda para o partido de Sérgio Vidigal: poderia ter o vice da chapa, agora tem um vereador com mandato para reeleger. Dalto foi eleito vereador em 2016 pelo PTB e chegou a ensaiar filiação ao PSL na janela partidária (encerrada hoje).