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Jogo zerado

Time Pazolini e oposição: quem é quem na nova Câmara de Vitória?

Uma análise do novo cenário no plenário da Câmara de Vitória e os principais sinais que as primeiras sessões do ano já nos dão sobre a divisão de forças políticas na nova configuração da Casa

Publicado em 06 de Janeiro de 2021 às 05:00

Públicado em 

06 jan 2021 às 05:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

vvogas@redegazeta.com.br

De um lado, Gilvan e Davi Esmael (cavaleiros de Pazolini); do outro, Camila Valadão e Karla Coser (amazonas da oposição)
De um lado, Gilvan e Davi Esmael (cavaleiros de Pazolini); do outro, Camila Valadão e Karla Coser (amazonas da oposição) Crédito: Amarildo
As primeiras sessões plenárias da Câmara de Vitória na atual legislatura, realizadas extraordinariamente na última segunda-feira (4), para votação a toque de caixa da reforma da Previdência municipal, evidenciaram algumas características bem marcantes da configuração do novo plenário, que devem se fazer sentir (e, talvez, se acentuar) ao longo dos próximos quatro anos. Foi um cartão geral de visitas e serviu para mostrar quem é quem nesse novo plenário, com renovação de 10 dos 15 vereadores da legislatura passada.
O primeiro ponto evidente é que o prefeito Lorenzo Pazolini (Republicanos), neste início de mandato, montou uma base leal e goza de maioria folgada para fazer passarem os seus projetos prioritários – vantagem que costuma ter todo prefeito entrante, que acaba de sair das urnas com elevado capital político. Dos 15 vereadores, pelo menos 10 tendem a votar sempre com o Executivo, incluindo os três eleitos pelo Cidadania, partido do antecessor de Pazolini, Luciano Rezende: Denninho Silva, Luiz Emanuel Zouain e Maurício Leite.
Essa conta não considera o novo presidente da Casa, Davi Esmael (PSD), que em geral não precisa votar, mas o segundo destaque vai para ele: como tratou de explicitar nessas primeiras sessões do ano e da legislatura, o decano e presidente da Câmara será um parceiraço do novo prefeito, de quem inclusive é grande amigo, pautando todos os projetos prioritários que vierem da prefeitura e, sempre que requisitado, convocando sessões extraordinárias e colocando as matérias em votação em regime de urgência (sendo este aprovado), como fez na última segunda-feira. Tudo dentro do script. Enfim, Davi deverá ser para Pazolini o que Fabrício Gandini (2013/14) e Vinícius Simões (2017/18) foram para Luciano.
A terceira observação que se impõe é que a Câmara agora possui uma oposição de verdade ao prefeito. E, embora minoritária, uma oposição mais qualificada. Karla Coser (PT) e principalmente Camila Valadão (PSOL) demonstram convicções mais sólidas e capacidade argumentativa bem maior que a dos vereadores que fizeram uma oposição confusa (muito mais circunstancial que programática) a Luciano Rezende em seus dois mandatos de prefeito. Formam a dupla Kamala (nada a ver com a futura vice-presidente dos Estados Unidos).
E as duas únicas vereadoras, ainda que sejam as duas únicas oposicionistas declaradas, podem não estar sozinhas em determinadas discussões e votações, como se viu na segunda-feira.
Na votação dos dois projetos da reforma da Previdência municipal (o do novo regime e o que elevou a alíquota), Aloísio Varejão (PSB) e Anderson Goggi (PTB), assim como as duas vereadoras, não votaram a favor dos projetos vindos da prefeitura.
Ao lado de Camila e Karla, Aloísio Varejão foi o único vereador “excluído” da chapa única de 12 vereadores que levaram Davi à presidência, na eleição da Mesa Diretora, logo após a posse, na última sexta-feira (1º), embora tenha votado a favor da chapa. Além disso, é o único vereador do partido de Renato Casagrande, o PSB (sigla que esteve com João Coser no 2º turno da última eleição municipal).
Já Anderson Goggi, em que pese ter sido eleito pelo PTB (partido agora alinhadíssimo com Bolsonaro e dito “de direita e conservador”), apoiou Fabrício Gandini no 1º turno e João Coser no 2º.
Juntos, os dois poderão reforçar eventualmente o minibloco de Camila e Karla, ainda que quatro edis continuem longe de formar maioria num conjunto de 15.
A quarta observação é que, nesta legislatura, a divisão de fundo ideológico que há anos domina a cena política nacional enfim se reflete e se expressa na Câmara de Vitória. Aliás, já se manifesta desde os primeiros dias de trabalhos, na eleição da Mesa e nas primeiras votações. Em outras palavras, em vez daquela massa ideologicamente amorfa da última legislatura, agora temos uma esquerda muito bem definida de um lado e, do outro, uma direita bolsonarista também bem demarcada no plenário.
No mandato passado, se eu tivesse que resumir, diria que o plenário da Câmara de Vitória era um grande “Centrão”: predominantemente, havia vereadores sem ideário muito claro, filiados a partidos idem, que se moviam muito mais por conveniência, conforme o padrão de relacionamento mantido com a Poder Executivo (a gestão de Luciano).
Havia um predomínio de vereadores de direita, com fortíssimo viés religioso e neo-pentecostal em seus posicionamentos (o que aliás se mantém, se é que não se aprofundou, na nova legislatura). E havia muitos simpatizantes de Bolsonaro. Mas não havia, por exemplo, nenhum vereador que encarnasse pessoalmente, em cada manifestação, a ideologia bolsonarista. Da mesma forma, não havia nenhum vereador radicalmente de esquerda. Partidos mais ideológicos desse campo, como o PT, o PSOL e o PCdoB, não tinham nenhum representante na Câmara.
O único vereador mais à esquerda era o professor Roberto Martins (Rede), mas ele se elegeu pelo PTB, representava uma esquerda mais “soft” e chegou a compor com Davi Esmael e com outros vereadores desse “Centrão” para apoiar a eleição de Clebinho (então no PP) para a presidência da Câmara em 2018.
Agora, o quadro é outro.

A DIVISÃO IDEOLÓGICA

De um lado do plenário, Camila Valadão e Karla Coser entram em cena com os dois pés bem firmes na oposição ao governo Pazolini, como representantes de partidos clássicos de esquerda. Do outro lado, além do amplo predomínio de vereadores de direita, entra em cena Gilvan do Patriota (outrora Gilvan da Federal), o policial federal que é uma clara expressão do bolsonarismo mais “radical” (no sentido de irredutível e incondicional). 
Gilvan é grande aliado de Pazolini. Prestigiado por ele, ladeou o prefeito no domingo (3) à noite, quando este foi acompanhar pessoalmente o patrulhamento da Guarda Municipal na praça Costa Pereira, no Centro. E, vestido com roupas de camuflagem militar, posou ao lado dele em fotos, com direito a arminha com a mão.
No plenário, trocando o uniforme de “selva” pelo terno e a gravata, Gilvan já se posta como aliado e "capitão" da tropa de choque do prefeito e delegado, não só defendendo a administração de Pazolini com unhas e dentes como buscando a todo tempo polarizar com Camila e Karla e levar a discussão para o campo da divergência ideológica. Foi o que se viu em seu primeiro pronunciamento da tribuna, logo após a posse e a condução de Davi à presidência, na sexta. E foi também o que se observou nas sessões extraordinárias de segunda-feira.

O ESTILO DE GILVAN

Gilvan já deu seu cartão de visitas, provando que não perderá uma oportunidade de rivalizar e polarizar, no plano ideológico, com as vereadoras de oposição, tratadas por ele da tribuna, repetidamente, como uma entidade única: “o pessoal do PT e do PSOL” ou “esse pessoal da esquerda”. No plenário, tem buscado levar a discussão para esse campo da luta permanente da direita contra a esquerda, trazendo para o primeiro plano o antagonismo entre os extremos políticos.
O policial federal está seguindo à risca aquela linha representada na Assembleia Legislativa por Capitão Assumção (deputado estadual e candidato a prefeito de Vitória pelo partido de Gilvan): por vezes dá a entender que partidos de esquerda, por serem de esquerda, são um mal em si mesmo, e que todo o mal da política brasileira é encarnado por eles e só por eles.
É um pouco mais complexo que isso. Invertendo-se o sinal, seria mais ou menos como se dizer que os problemas da política brasileira começaram com a chegada de Jair Bolsonaro ao poder central, ou que todo o mal político da nação emana do bolsonarismo. Não creio que alguém em pleno juízo e com o mínimo entendimento sobre a atividade e a história política concordaria com tal afirmação.
De todo modo, trata-se de um “choque” muito interessante de visões de mundo, o qual valerá a pena acompanhar no desenrolar desse mandato recém-iniciado. 

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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