Na noite da última quinta-feira (25), o governo Casagrande anunciou a mais importante troca no secretariado desde o início do mandato: na poderosa Secretaria de Governo (SEG), o economista Tyago Hoffmann (PSB) foi substituído pelo ex-prefeito de Viana Gilson Daniel (Podemos). Mas Hoffmann não ficou na mão. Seu "prêmio de consolação" é mais que isso: após dois anos atuando como o "coordenador-geral do governo", ele vai assumir uma secretaria nova e turbinada, resultante da fusão de duas pastas: a de Desenvolvimento com a de Ciência e Tecnologia.
Nesta sexta (26), em entrevista à coluna que você confere abaixo, o secretário explicou o que o governo pretende com essa nova pasta, idealizada pelo próprio Hoffmann e focada, segundo ele, na "economia do futuro". Dizendo-se feliz e animado em assumir a Secretaria de Estado de Inovação e Desenvolvimento Econômico (nome provisório), Hoffmann evita demonstrar algum abalo ou abatimento por ter sido deslocado do núcleo mais político do governo, por onde passam todas as decisões mais estratégicas. "Eu deixei muito claro para o governador, desde o primeiro momento, que ele sabe que sou um soldado dele. Sempre fui. E que eu poderia ocupar o menor cargo no governo. Minha lealdade ao governador independe de cargo, independe de onde eu estiver."
Fazendo planos ousados, o ainda secretário de Governo projeta: "Acho que essa mudança vai ser muito boa para mim pessoalmente e confesso a você que acho que essa é a mudança mais importante que já aconteceu no desenvolvimento econômico do Espírito Santo nos últimos 50 anos". Se ele sai fortalecido ou enfraquecido com esse remanejamento? "Vou responder tangenciando a sua pergunta, porque, diretamente, eu não tenho condições de respondê-la. Acho que o tempo dirá um pouco isso que você está me perguntando. Mas, fundamentalmente, estou feliz. E isso me basta."
Veja, abaixo, a entrevista na íntegra com ele:
Explique para nós essa mudança: por que Gilson Daniel assumiu o seu lugar na SEG? E por que o senhor foi remanejado para essa Secretaria de Desenvolvimento, agora com um novo status, incorporando a de Ciência e Tecnologia?
Essa era uma ideia que o governador já estava amadurecendo e agora encontramos o modelo. O Gilson é um ex-prefeito, é uma pessoa que tem conhecimento público de gestão. Como prefeito de Viana, deixou uma cidade extremamente bem organizada. Então, é uma pessoa que poderia ocupar qualquer função dentro do governo do Estado. Foi convidado pelo governador para assumir a Secretaria de Governo e aceitou o convite. Antes disso, o governador falou comigo sobre essa possibilidade. Eu deixei muito claro para ele, desde o primeiro momento, que ele sabe que sou um soldado dele. Sempre fui. E que eu poderia ocupar o menor cargo no governo. Minha lealdade ao governador independe de cargo, independe de onde eu estiver. Não é isso o que me move nesse projeto. O que me move nesse projeto é minha relação pessoal com Renato. E isso não se modifica estando ou não estando na Secretaria de Governo. Não é a Secretaria de Governo que faz a minha relação com o governador. E aceitei o desafio. Estou muito animado, muito feliz. Acho que essa mudança vai ser muito boa para mim pessoalmente e confesso a você que acho que essa é a mudança mais importante que já aconteceu no desenvolvimento econômico do Espírito Santo nos últimos 50 anos.
Por que isso? Qual é a cara que o governo pretende imprimir a essa nova pasta resultante da fusão da Secretaria de Desenvolvimento com a de Ciência e Tecnologia? E o que o governador espera do senhor agora nela?
A secretaria vai se chamar Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Desenvolvimento ou, simplesmente, Secretaria de Inovação e Desenvolvimento Econômico. Como muda a estrutura do governo, vamos mandar um projeto de lei para a Assembleia Legislativa, extinguindo as duas secretarias originais e transformando elas numa única pasta. Também temos que mexer na Lei Orçamentária Anual, porque as duas secretarias têm orçamento previsto para este ano. A nova secretaria, resultante da fusão, terá a soma do orçamento das duas. É uma fusão, onde estamos dando protagonismo à inovação tecnológica no processo de desenvolvimento econômico. Sou economista. Minha graduação e meu mestrado são em Economia. No mestrado, me dediquei a estudar o desenvolvimento regional. Então estou indo para minha casa nesse sentido profissional. E, para estudar desenvolvimento regional, você tem que entender qual foi a história que levou à economia que temos hoje no Espírito Santo. A nossa economia, fundamentalmente, cresceu e explodiu muito atrelada aos chamados "grandes projetos": Vale, CST, Aracruz Celulose, Samarco. Então estamos falando de uma economia que, num primeiro momento, foi muito concentrada e dependente desses grandes projetos. E, nos últimos anos, a economia do Estado vem dando saltos de diversificação. Surgiram setores importantes. Só que nós precisamos dar uma maior atenção a esses setores. Então queremos uma secretaria que observe a nova economia. Nós precisamos fortalecer o processo de diversificação econômica do Espírito Santo.
E como essa nova secretaria ajudará nesse sentido?
A ideia de você juntar as secretarias é, primeiramente, simbolizar que estamos com o olhar voltado para os novos setores econômicos, que são setores atrelados à inovação tecnológica, que geram produtos ou serviços de alto valor agregado. Esse é o nosso foco. É nisso que vamos atuar prioritariamente, sem de nenhuma forma deixar de dar atenção aos setores tradicionais da economia capixaba que ainda sustentam a nossa economia, como o setor de produção de commodities, voltado para o comércio internacional. Temos que continuar dando atenção a esses setores e temos que incorporar novas ideias no processo de desenvolvimento econômico do Espírito Santo. Essa é a ideia geral.
É uma supersecretaria? Que órgãos e autarquias ficarão sob o seu guarda-chuva?
Na Secretaria de Ciência e Tecnologia tem a Fundação de Amparo à Pesquisa (Fapes). E, na Secretaria de Desenvolvimento, temos o Bandes, a Aderes, a Empresa de Gás e a Agência Reguladora. Todas são independentes, mas, dentro da secretaria, vamos dar uma centralidade. Por exemplo, as políticas de fomento do Bandes têm que estar absolutamente integradas ao nosso processo de desenvolvimento econômico. E, se estamos aqui dando com clareza um sinal, que é o sinal do governador, de que nossa política de desenvolvimento é de fomento à nova economia, à economia do futuro, então as políticas de crédito do Bandes também têm que ter esse foco e ser um instrumento para isso. E o atual secretário de Desenvolvimento, Marcos Kneip, vai continuar exercendo o papel auxiliar de secretário de Desenvolvimento junto comigo, na diretoria que ele assumirá no Bandes.
E para a Secretaria de Governo? Qual é a nova cara que o governo quer dar para essa pasta hoje comandada pelo senhor? O que acha que Gilson Daniel agrega e o que o governador espera dele?
Para mim é difícil dizer. Terei uma reunião com o Gilson Daniel na segunda de manhã, para fazermos a transição na Secretaria de Governo. Acho o Gilson extremamente experiente. E a SEG não é uma secretaria que tem um planejamento de trabalho organizado, que vai sendo colocando em prática e a gente vai executando, como se faz, por exemplo, na de Planejamento ou na de Desenvolvimento. Não. A SEG é a secretaria que o governador utiliza para resolver problemas, para reunir secretários quando um problema atinge mais de uma secretaria. Então é uma secretaria que faz uma coordenação de governo. Cada dia aparece uma coisa nova para o secretário de Governo cuidar. É uma secretaria que trabalha fundamentalmente para dentro do governo. A depender do perfil do secretário, também tem relações externas com outras instituições e Poderes. Quando fui apresentado como secretário de governo e me perguntaram o que eu ia fazer, respondi: o secretário de Governo é um “faz tudo”. Ele lida do alfinete ao foguete. E, ao mesmo tempo, a secretaria não lida com nada diretamente.
O senhor acredita que Gilson Daniel, até por ter um perfil mais político, possa aportar para a SEG esse caráter de fazer uma interlocução também mais para fora do governo, até com outros agentes políticos e empresariais?
Não estou dizendo que Gilson não vai fazer, mas isso é uma coisa que, hoje, eu executo. A Secretaria de Governo já cumpre esse papel. Em segundo lugar, eu acredito que o Gilson não é "mais político". Não é mais político. Eu também me considero um ator político do governo. Aliás, eu não faço essa diferenciação, porque acho que toda pessoa que assume um cargo de secretário de Estado, mesmo em secretarias eminentemente técnicas, como a de Segurança e a de Justiça, é um ator político. Não dá para dizer que o secretário é um técnico. Não, ele é um gestor político. Um gestor público, para mim, sempre é um gestor político. Então não faço essa distinção. Acho que Gilson agrega as duas coisas: um perfil político aguçado, pois é um político de primeira qualidade, com um perfil muito técnico. O Gilson tem boa formação. Ele é contador e servidor efetivo da universidade federal. Então, tem ali uma pessoa que, não vou dizer que é parecido comigo não (quem sou eu?), mas que tem um perfil nesse sentido que agrega as duas coisas: sensibilidade política com perfil técnico.
E o seu tamanho no governo? O senhor acha que cresce ou diminui com essa mudança? Ou permanece, digamos, do mesmo tamanho?
Olha, é difícil responder quando você é o personagem dessa história. Eu vou responder tangenciando a sua pergunta, porque diretamente eu não tenho condições de respondê-la. Acho que o tempo dirá um pouco isso que você está me perguntando. Mas, fundamentalmente, estou feliz. E isso me basta.
Está satisfeito?
Estou satisfeito com essa mudança.