Prestes a encerrar o seu terceiro mandato consecutivo na Câmara de Vitória, o vereador Max da Mata (Avante) não vai concorrer a nenhum cargo na eleição municipal de novembro. Mas isso não significa, em absoluto, que ficará alheio à disputa pela Prefeitura de Vitória. Ao lado de Beth Endlich, Max da Mata está exercendo a função de coordenador político e administrativo da campanha do deputado estadual Fabrício Gandini (Cidadania), pré-candidato à sucessão de Luciano Rezende (Cidadania) com o apoio do prefeito.
A escalação, por si só, já teria bastante relevância, em virtude do co-protagonismo assumido por Max no comitê de campanha de Gandini. Mas não é só isso. A escolha chama a atenção, principalmente, pelo histórico de intensas idas e vindas que permeiam a relação política do vereador com o próprio Luciano. É voz corrente em Vitória que Max se estabeleceu como um dos mais camaleônicos agentes políticos da cidade. E seu retrospecto nos últimos dez anos faz jus a essa avaliação.
Se tomarmos os oito anos em que o médico e ex-remador governou a Capital, Max começou a “era Luciano” como grande aliado do prefeito e é exatamente assim que encerra agora esse período. Mas, entre 2013 e 2020, a relação do vereador com Luciano, definitivamente, não foi uma linha reta. Na verdade, está muito para uma parábola: começou sobre o “eixo Luciano”, aí fez uma curva, foi lá fora, chegou o mais longe possível na metade do caminho (2016) e depois retornou à linha-base.
Após eleger-se vereador pelo DEM pela primeira vez em 2008, Maximiano Feitosa da Mata chegou a ser candidato a vice-governador na chapa de Luiz Paulo Vellozo Lucas (PSDB) contra Renato Casagrande (PSB) em 2010 – o tucano, por sinal, pode ser adversário de Gandini na eleição de novembro em Vitória. Dois anos depois, o vereador é reeleito, enquanto Luciano vence sua primeira eleição a prefeito, derrotando o mesmo Luiz Paulo.
Max começa o primeiro mandato de Luciano não só como aliado do prefeito mas como membro do 1º escalão de sua equipe de governo. Entre 2013 e 2015, licenciado da Câmara, comandou duas pastas: foi secretário municipal de Transportes, Trânsito e Infraestrutura Urbana e, posteriormente, de Meio Ambiente.
Em meados de 2015, ele volta para a Câmara de Vitória. E volta engrossando um bloco majoritário de vereadores não alinhados à situação que deu verdadeiro sufoco a Luciano na Casa no fim de seu primeiro mandato. Para se ter uma ideia, composto por vereadores como Max e Zezito Maio (então no MDB), esse bloco de oposição chega a engessar em 5% o percentual que o prefeito poderia remanejar no orçamento municipal em 2016 (o normal é algo em torno de 30%).
Na campanha municipal de 2016, Max disputou (e levou) seu terceiro mandato de vereador, já filiado ao PDT, após passagem pelo PSD. Mas seu papel mais destacado naquele pleito foi como um colaborador de peso nos bastidores da campanha do então deputado estadual Amaro Neto, que, pelo Solidariedade, desafiou Luciano e por pouco não lhe tirou a reeleição no 2º turno.
Naquela eleição, a importância de Max na campanha do principal adversário de Luciano foi tamanha que, em debates televisionados, era ele quem acompanhava Amaro. No último debate da TV Gazeta, por exemplo, só foi permitida a cada candidato a presença de um assessor no estúdio. Amaro escolheu Max da Mata. Eu estava lá.
Nos dois anos seguintes, tendo perdido a eleição a prefeito, Amaro continuou na Assembleia e Max, notoriamente, continuou integrando o chamado “grupo político de Amaro”. Logo no início de 2017, após ter recusado o convite do então governador Paulo Hartung para assumir a Secretaria Estadual de Esportes (Sesport), Amaro indica Max para o espaço como representante de seu grupo.
Novamente licenciado da Câmara, o vereador assume a Sesport, mas fica por poucos meses, sendo substituído por outro companheiro de Amaro: Roberto Carneiro, vice pelo PDT na chapa do deputado contra Luciano em 2016.
De volta à Câmara, Max gradativamente se reintegra à base de Luciano. Um exemplo importante: em agosto de 2018, quando a eleição da Mesa Diretora de 2019/2020 é antecipada, um grupo de vereadores se insurge contra Luciano, forma uma chapa apoiada por oito dos 15 parlamentares, encabeçada por Cleber Felix (então no PP), e derrota a situação.
Max não apoia essa chapa. Prefere ficar unido à bancada do Cidadania, no bloco de aliados do prefeito. E assim permanece até hoje, agora filiado ao Avante, após curta passagem pelo PSDB.
Aos 45 anos, encerrando essa longa curva praticamente onde começou, Max completa esse ciclo com status de aliado eleitoral estratégico de Gandini. Diga-se de passagem, o candidato do Cidadania enfrentará nas urnas o também deputado estadual Lorenzo Pazolini, que será candidato pelo Republicanos, o atual partido de Amaro (com presumível apoio deste). Ou seja, desta vez Max deve estar em lado oposto ao do antigo aliado.
Na última quarta-feira (2), batemos um papo com o vereador sobre essa transição política dele e o papel que exercerá na campanha de Gandini. Confira os principais pontos:
DO ADVERSÁRIO DE LUCIANO EM 2016 PARA O CANDIDATO DE LUCIANO EM 2020
“É preciso pontuar para você essa questão temporal. Na época [em 2016], o Amaro era do Solidariedade. Fui convidado por ele, não pelo grupo ou pelo partido dele, nada disso. Fui convidado por ele a participar da campanha, para qualificar o debate dele no processe eleitoral. Ele entendia que eu era um cara que conhecia a cidade e os desafios da cidade. E o Amaro não é candidato nesta eleição. Continuo tendo uma relação excelente com o Amaro. Aliás, esta é uma grande vantagem que tenho: me relaciono bem com todo mundo, inclusive com ele, que não é candidato.”
POR QUE GANDINI AGORA?
“Tenho, antes de tudo, uma relação pessoal muito forte com o Gandini. Nós dois chegamos juntos à Câmara, na eleição de 2008. Fomos colegas de primeiro mandato. E, nesse primeiro mandato, acabamos nos aproximando muito porque exercíamos uma posição política muito próxima. Éramos muito combativos em relação ao governo do Coser [João Coser, prefeito de 2005 a 2012 pelo PT e agora também pré-candidato à prefeitura] e em relação à Câmara [então comandada pelos petistas Alexandre Passos e Reinaldo Bolão]. Queríamos que a Câmara passasse por um processo de mudança. Então temos perfil muito parecido. Somos dois jovens com formação muito boa, que conhecem bem a cidade e com princípios muito parecidos: ele é um cara extremamente ético e combativo, um gestor moderno e qualificado, e minha admiração por ele só foi crescendo conforme ele foi se qualificando. Dialoga bem com todo mundo. Reúne todos os atributos que considero necessários para um prefeito.”
POR QUE NÃO DISPUTAR NENHUM MANDATO? E, SE GANDINI GANHAR, PODE VIRAR SECRETÁRIO?
“Tomei a decisão de não disputar a reeleição e de focar no setor privado. Não estou preocupado com espaço e posição no ano que vem. É muito nobre poder encerrar este ciclo. Não vou deixar de militar politicamente e de me envolver, mesmo estando no setor privado. Estou mais preocupado em fazer a cidade avançar do que em ocupar espaço em algum lugar. Agora, não posso deixar a cidade retroagir, ir para uma aventura, um negócio meio amador. É meu papel como vereador, inclusive, trabalhar para que isso não ocorra. E mais que isso: sei que o Gandini tem capacidade de fazer a cidade avançar muito. Acho que preciso passar um tempo fora [da política], estudando, me reciclando e atuando no setor privado. Mas não vou te dizer que não vou estar, de jeito nenhum, em outro cargo público no futuro.”
O PAPEL DE BETH ENDLICH
Como registrado no início da coluna, segundo informação confirmada por Gandini, Max da Mata está dividindo a coordenação política e administrativa de sua pré-campanha com Beth Endlich. Secretária de Governo de Luciano em Vitória em grande parte de sua administração, ela é considerada, nos bastidores políticos, uma das conselheiras do prefeito mais próximas e mais ouvidas por ele em seus processos decisórios. Ou seja, Beth no centro nervoso da campanha de Gandini é Luciano no centro nervoso da campanha de Gandini.
O HISTÓRICO NAS URNAS
Esta será a primeira vez em muito tempo que o nome de Max da Mata não estará nas urnas. Desde 2008, ele disputou os seguintes cargos, pelos seguintes partidos: 2008 (vereador eleito pelo DEM); 2010 (vice-governador não eleito pelo DEM); 2012 (vereador eleito pelo PSD); 2014 (deputado estadual não eleito pelo PSD); 2016 (vereador eleito pelo PDT); 2018 (deputado estadual não eleito pelo PSDB).
SECRETÁRIOS DE CASAGRANDE COM SÁ
Falando em colaboradores de campanha, vários secretários de Estado no governo Casagrande estão contribuindo na montagem do plano de governo do vice-prefeito Sérgio Sá (PSB), pré-candidato a prefeito de Vitória pelo partido do governador. Entre eles, Vitor de ngelo (Educação), Dorval Uliana (Turismo), Fabrício Noronha (Cultura), Rogelio Pegoretti (Fazenda) e Nara Borgo (Direitos Humanos), além do comandante-geral da PMES, o coronel Caus. A convenção do PSB em Vitória será no dia 10, às 19h, no antigo clube Álvares Cabral.
EM VILA VELHA, RIGONI COM DALTON MORAIS
Atravessando a Terceira Ponte, o deputado federal Felipe Rigoni (que quer sair do PSB) contribuiu com o plano de governo do candidato a prefeito de Vila Velha pelo Novo, Dalton Morais, no capítulo “Governo Digital”. A convenção em que Dalton foi lançado ocorreu na noite desta quinta-feira (3).