O 4º Encontro do Consórcio de Integração Sul e Sudeste (Cosud) foi marcado por uma gafe homérica do governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), com Renato Casagrande (PSB), caneladas do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), no presidente Jair Bolsonaro (PSL), e uma corte explícita por parte dos governantes dos Estados ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), de quem eles sabem que dependem como nunca.
Confira o que rolou no encontro, realizado no Palácio Anchieta, na manhã deste sábado (24):
QUE GAFE!
Fazendo seu pronunciamento ao lado de Renato Casagrande, Wilson Witzel foi simpático e buscou agradar de vários modos ao colega do Espírito Santo. Elogiou a acolhida na véspera, lembrou seus anos de juiz em comarcas capixabas e convidou a vice de Casagrande, Jacqueline Moraes (PSB), a passar o próximo carnaval no Rio. Mas cometeu uma enorme gafe: ao destacar a saúde financeira do Espírito Santo, elogiou efusivamente o ex-governador Paulo Hartung, maior adversário de Casagrande, e disse que este "teve a honra de sucedê-lo".
"NÃO TIVEMOS A MESMA SORTE"
"Os Estados mais ricos da nação são os que estão nas piores condições financeiras. Apesar da brilhante situação financeira do Espírito Santo, que teve grandes governadores, como o Paulo Hartung, que o Casagrande teve a honra de suceder. Nós não tivemos a mesma sorte." Essas foram as palavras exatas de Witzel.
"NOTA A HÁ OITO ANOS"
Por sua vez, nos seus pronunciamentos, tanto antes como depois da fala de Witzel, Casagrande voltou a destacar que o Espírito Santo, "há oito anos" (logo, desde o seu primeiro governo, anterior ao último de Hartung), é "nota A em gestão fiscal". Essa é a nota máxima concedida pela Secretaria do Tesouro Nacional. "O Espírito Santo tem cultura de gestão fiscal responsável." Só faltou dizer "ele (Hartung) é quem teve a honra de me suceder".
ES É EXCEÇÃO
De fato, nenhum dos outros governadores presentes ao encontro pode dizer que possui nota A do Tesouro. Aliás, nenhum outro governador no país inteiro. Em 2019, o Espírito Santo foi, mais uma vez, o único Estado da federação com nota A na classificação da capacidade de pagamento.
MOSTRANDO O BOLETIM
São Paulo e Paraná têm nota B; Santa Catarina, nota C; Minas e Rio Grande do Sul, hoje, ostentam nota D (a pior possível), assim como o nosso vizinho fluminense. Isso de acordo com o último "Boletim de Finanças dos Entes Subnacionais", publicado em 14 de agosto pelo Tesouro.
ALI O BURACO É MAIS EMBAIXO
O Rio de Janeiro tirou nota D em 2019, assim como nos dois anos anteriores, acumulando nota C nos três indicadores levados em conta pelo Tesouro Nacional: liquidez, endividamento e poupança corrente. O endividamento do Estado governado por Witzel chega a 272,54% da receita corrente líquida.
O RECLAMÃO DO GRUPO
Mesmo assim, Witzel reclamou muito das limitações impostas pelo Tesouro ao Estado governado por ele. Usou boa parte do discurso se queixando do "engessamento". Witzel quer fazer investimentos, mas... com que dinheiro? Por conta do acordo de recuperação fiscal pactuado entre Tesouro e o governo passado do Rio (Pezão), o Estado fluminense precisa cumprir uma série de condicionantes, relacionadas ao corte de gastos e ao incremento de receitas, para voltar a equilibrar as suas contas e pagar sua dívida com a União, antes de poder sonhar em fazer novos investimentos relevantes.
TEM QUE MUDAR ISSO AÍ...
No discurso e na entrevista concedida, Witzel falou em mudança no pacto federativo, alongamento do pagamento da dívida do Estado com a União, emissão de moeda pelo Estado, entre outros pontos para afrouxar a corda no pescoço do Rio (logo, do seu). Defendeu que os Estados fiquem com 50% das outorgas de rodovias, aeroportos e outros equipamentos federais à iniciativa privada.
CASOU COM A VIÚVA...
Como costumava dizer o próprio Hartung, merecedor dos elogios de Witzel, "casou com a viúva, agora tem que cuidar dos filhos".
A "CULPADA"
Witzel, como dissemos, elogiou o ex-governador Paulo Hartung. Mas, indiretamente, reclamou de uma grande parceira de Hartung: a economista Ana Paula Vescovi.
EX-CHEFE DO TESOURO
Secretária da Fazenda do Espírito Santo de 2015 a 2016 no governo Paulo Hartung, Vescovi foi a secretária do Tesouro Nacional, na equipe de Henrique Meirelles, durante o governo Temer (MDB). Foi ela quem liderou o acordo de recuperação fiscal do Rio, impondo as condicionantes das quais hoje Witzel se queixa. O próprio Hartung sempre se posicionou contrariamente à renegociação da dívida dos Estados que "não fizeram o dever de casa".
O SINCERÃO DO GRUPO
O governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), passou todo o encontro muito discreto, mineiramente. No finzinho da entrevista coletiva, Casagrande lhe concedeu a palavra para considerações finais. Zema, então, falou por 30 segundos. O suficiente para mandar a real: "Os Estados estão com as suas contas totalmente debilitadas, principalmente Minas, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Temos três representantes aqui dos três piores Estados do Brasil em situação fiscal. Tanto eu quanto o meu colega Eduardo Leite temos pago o funcionalismo público com atraso." Witzel e Eduardo Leite, governador gaúcho, não devem ter gostado muito de ouvir esse ataque de sinceridade. Tiveram que engolir em seco.
CORTE DOS GOVERNADORES A MAIA
Convidado especial dos governadores para o encontro, Maia foi explicitamente cortejado por chefes dos Estados, que destacaram o protagonismo que a Câmara Federal, sob a presidência do demista, voltou a adquirir nos debates prioritários para o país neste momento, como na aprovação da reforma previdenciária na Câmara. "Este rapaz que aqui está foi o protagonista do protagonismo", exaltou-o João Doria, batendo no ombro do deputado. Casagrande foi além na definição de Maia: "Num deserto de desequilíbrio, tem sido um oásis de estabilidade".
"IN MAIA WE TRUST"
Fica cada vez mais evidente que, enquanto o presidente Bolsonaro se perde em devaneios, diversionismos e pautas periféricas, Rodrigo Maia é quem de fato está tocando a agenda real e prioritária para o Brasil sair da crise econômica. E os governadores sabem disso.
O QUE ESTÁ NA MESA DELE
O próprio Maia enumerou muitos dos projetos estratégicos para destravar a economia do país, nos quais os Estados têm interesse direto, e que começam a tramitar no Congresso: cessão onerosa, reforma tributária, pagamento de tributos da Lei Kandir… Isso sem falar da possível inclusão de Estados e municípios na reforma da Previdência, por meio de uma PEC paralela - esperança à qual os governadores ainda se agarram. Alguns desses pontos até foram incluídos na "Carta de Vitória", documento final da reunião, assinado pelos sete governadores.
NAS MÃOS DO CARA
Com interesse direto em tais projetos - e interesses por vezes conflitantes entre si -, os governadores têm consciência de que a pauta do Congresso (e do país) hoje está nas mãos de Maia. Por conseguinte, em boa medida, eles mesmos também estão.
"O MELHOR TUDO..."
Apesar de tanta seriedade, houve espaço para descontração. Como lembrança do encontro, o cerimonial do Palácio Anchieta presenteou cada um dos governadores presentes com um "kit Espírito Santo", entregue aos demais por Casagrande. "Aqui tem o melhor chocolate do Brasil, o melhor café do Brasil, a melhor cachaça do Brasil...", enumerou o governador capixaba.
DUELO DE BLOCOS
Pegando o caco, Witzel pegou o microfone e gozou Casagrande: "Daqui a pouco o Casagrande vai dizer que o Espírito santo tem o melhor carnaval do Brasil". O governador capixaba entrou na brincadeira e não se deu por vencido: "E tem mesmo! O nosso começa uma semana antes".
PANIS ET CIRCENSES
A propósito, Witzel destacou que o governo do Estado do Rio acaba de assumir a administração do sambódromo, na Marquês de Sapucaí, e que sua intenção é que a cidade do Rio de Janeiro tenha festa ali o ano inteiro. Será que o prefeito Crivella (PRB) vai curtir a ideia?
MAIA SE ZOOU
Notoriamente acima do peso, Rodrigo Maia tirou sarro de si mesmo ao receber o kit das mãos de Casagrande: "O Espírito Santo é o maior produtor do Brasil. E está presenteando o maior consumidor do Brasil", disse ele para a plateia, alisando a própria barriga e arrancando gargalhadas de todos.
A MAIOR BATALHA DE MAIA
Não é de hoje que Maia enfrenta a batalha contra a balança, mas ultimamente, apesar da fama de rabugento, tem demonstrado mais "leveza" e feito piadas com o próprio peso em entrevistas. Dia desses, numa roda de repórteres, disse ter ganhado dez quilos durante a tramitação da reforma da Previdência na Câmara.
BOTAFOGO
Especialmente para Maia, Casagrande deu uma camiseta, com a receita da moqueca capixaba na estampa. Antes de a camiseta ser retirada do embrulho, um gaiato arriscou: "É do Botafogo!". "Também sou botafoguense", replicou Casagrande, bem-humorado. Aliviou a rápida tensão, mas alguns logo se recordaram de certos apelidos em certas planilhas...