*Marcos Alencar
A mais famosa passarela capixaba da moda verão ia da pracinha que fica nos fundos do Edifício Caparaó até a outra pracinha ao lado do Radium Hotel. Uma grande avenida que à noite lotava de cariocas, mineiros e capixabas nas temporadas de verão de Guarapari. Um mundo de gente, pra lá e pra cá, procurando uma alma gêmea. Nada muito sério, apenas para esquentar mais o verão.
À margem daquela passarela, ficava o point mais badalado do pedaço. Bem em frente ao Quibelanches. Na calçada do outro lado da rua, nos fins de semana, montava guarda um animado grupo de críticos de costumes. A saber: Zé Fernando Osório da Costa, Cesario Pacheco, Umberto Musso e eu, um feliz estagiário, um noviço no aprendizado da sublime prática da galhofa descompromissada. Ali não se perdoava ninguém. Nem Deus, nem povo e nem governo.
Naquele verão todas as moças vestiam o uniforme da temporada, as pantalonas. Recém-lançadas, elas eram largas e cobriam as sandálias, raspando no chão. Tinham a chamada “boca de sino”. Além do vestir as pantalonas cumpriam um outro importante papel: varrer a avenida e enxugar o piso dos banheiros femininos com o arrastar de suas longa barras. E tudo isso com muita eficiência e garbo. E assim padronizadas, as lindas veranistas, bronzeadas pelo sol da Pedra do Siribeira, enchiam de beleza o verão monazítico e mantinham limpo o pedaço.
Foi então que, numa daquelas noitadas o saudoso Zé Fernando pediu a palavra para teorizar. “Neste momento”, disse ele, “num belíssimo castelo nos arredores de Paris, uma meia dúzia de estilistas, sentados em poltronas Luiz XV, tomam um porre de Veuve Clicquot. Entornam taças e mais taças de um dos mais gostoso champanhe do mundo e riem até não poder mais. Brindam entre si e gargalham como crianças diante de um palhaço de circo. Com os olhos umedecidos de tanto rir, eles não se cansam de repetir: ‘Elas acreditaram! Elas acreditaram!!’“
A lembrança do que ouvi naquela noite me vem à mente desde que passei a cruzar com este exército de moças e rapazes enfiados nesta releitura do figurino de Os Miseráveis. Cabelos bem cortados, unhas aparadas, óculos de capa de revista e os jeans, ao que parece comprados no Morro do Vidigal. Depois de devidamente metralhados num embate entre traficantes e policiais. Exageros à parte, creio que quem não compra suas calças já estropiadas parte para o fato a mano. E aí salve-se quem puder. Munidos de facas, chaves de fenda, furadeiras elétricas, sei lá mais o que, furam, rasgam, vandalizam seus jeans e de tal forma que um aconselhamento psiquiátrico coletivo deveria ser bem considerado.
E eu, metido no meu jeans careta, fico por aqui me perguntando em que castelo esses estilistas sacanas bebem e se acabam de rir da moçada. Pelo resultado da criação, provavelmente num quarto de pensão e bebendo caipirinha. Mas a farra é a mesma.
P.S. Não sei porque ninguém ainda começou a chamar a chapa Capitão Bolsonaro/General Mourão de “Junta Militar”.
*O autor é cronista