Abelha e café: uma combinação sustentável para apicultores e cafeicultores no ES
A criação de abelhas com e ferrão no entorno e dentro dos cafezais é uma alternativa sustentável de elevar a produção de café, e de quebra obter mel de qualidade Ricardo Medeiros
Doce parceria
Abelha e café: uma combinação sustentável para apicultores e cafeicultores no ES
O manejo de colmeias nos cafezais cria uma relação de "ganha-ganha", onde a produção é potencializada com a polinização pelos insetos e ainda se obtém o mel
Murilo Cuzzuol
Editor adjunto
mcuzzuol@redegazeta.com.br
Publicado em
10 out 2024 às 06:36
A criação de abelhas com e ferrão no entorno e dentro dos cafezais é uma alternativa sustentável de elevar a produção de café, e de quebra obter mel de qualidade Crédito: Ricardo Medeiros
A produção de mel no Espírito Santo cresce anualmente e alguns municípios despontam no segmento, como Fundão, Marechal Floriano e Aracruz, tendo produzido 811,2 mil quilos em 2023, crescimento de 0,86% quando comparado ao ano anterior, segundo a Secretaria de Estado da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca (Seag) – há 10 anos, o ES produzia cerca de 400 toneladas do produto, segundo o projeto Rede Apes, desenvolvido pelo Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Espírito Santo (Sebrae-ES).
Entretanto, ainda que distintas e independentes, a apicultura e meliponicultura (abelhas sem ferrão) estabelecem uma relação de "ganha-ganha" quando manejadas corretamente com culturas tradicionais no meio agrícola.
Não por acaso, no Estado, o café "empresta" o sabor característico da bebida ao mel. Para obtê-lo, as abelhas necessitam do néctar presente na floração do cafezal. Neste processo, os insetos ainda carregam o pólen das flores de um pé ao outro, otimizando a polinização e formação dos grãos. Esta situação ocorre também em variedades frutíferas, plantações de eucalipto, seringais e também de forma natural em vegetações e florestas.
Ciente de que esta interação é positiva e benéfica ao café, a Cooperativa Agrária dos Cafeicultores de São Gabriel da Palha implementou no fim de 2023 um projeto-piloto criado para conciliar a apicultura às lavouras de café conilon, estreitando ainda mais a relação com sustentabilidade e produtividade.
Desta forma surgiu a proposta do Apiário Cooabriel, instalado na Fazenda Experimental da cooperativa, em São Domingos do Norte, na região Noroeste do Estado. Por lá, a espécie escolhida foi a Apis Mellifera, popularmente conhecida como abelha-europeia.
Cerca de 30 colmeias foram inseridas próximas ao cafezal da Fazenda Experimental da Cooabriel, em São Domingos do NorteCrédito: Divulgação/Cooabriel
Embora recente, a iniciativa tem se mostrado positiva. O potencial percebido durante a implantação do projeto motiva o trabalho e leva a pensar na ampliação do número de apiários, não só na fazenda da Cooabriel, mas em firmar parcerias com os cooperados, para dar escala a esse projeto, que tem se mostrado muito interessante em vários aspectos, incluindo a facilidade e atratividade do produto no que se refere ao mercado.
Para o superintendente da cooperativa, Carlos Augusto Pandolfi, a interação vislumbra uma renda extra aliada ao melhoramento da qualidade do café.
"Abelhas e flores de café formam uma sinergia antiga, né? A gente sabe que o conilon, especificamente, tem essa condição de polinização cruzada, não depende muito da abelha, mas ela intensifica, potencializa e ajuda bastante. E é óbvio, além disso, o produtor, ou quem está à frente de um projeto como esse, tem a oportunidade de ter o próprio mel. Queremos alavancar isso, potencializar esse projeto para que ele ganhe outras dimensões e a gente consiga levar para o produtor de fato outra fonte de renda, mesmo que pequena", aponta.
Experiência
Enquanto na Fazenda Experimental o projeto ainda se encontra em fase de desenvolvimento e conta com cerca de 30 colmeias, a pouco mais de 130 quilômetros, em Fundão, na Grande Vitória, cafeicultores, apicultores e meliponicultores trabalham há anos com o método colaborativo de produção entre mel e café, ou seja, com os insetos inseridos dentro da lavoura ou no entorno.
Marcos, à esquerda, recebe as orientações do amigo e também apicultor André para produzir mel em meio ao cafezal da família no interior de Fundão Crédito: Ricardo Medeiros
Há décadas na lida com diversas variedades de abelhas, o apicultor André Lopes, de 45 anos, cuida de colmeias próprias e ainda dá assistência técnica a outras pessoas envolvidas com apicultura e meliponicultura no interior do município, onde atuam de forma associativa.
"A gente está com o grupo formalizado desde 2009. Nesses mais de 15 anos estamos tentando fazer alguma coisa aqui no município para fomentar a criação tanto da abelha africanizada e um pouco da abelha sem ferrão, das variedades nativas e endêmicas. Elas atuam magnificamente na polinização, e sem esse tipo de trabalho, os cultivos ficam meio que comprometidos", explica.
80 kg por ano
Uma colmeia de abelhas-europeias ou africanizadas pode produzir
Atuando na região de Goiapaba-açú, bem próximo à sede do município, André explica que a interferência das abelhas nos cafezais faz elevar a produção consideravelmente, aumentando a lucratividade do plantio.
"A abelha vai fazer o trabalho de polinização e essa lavoura, por ter o trabalho destes agentes polinizadores, cresce cerca de 20% ou até mais na produtividade final. É o que observamos aqui na região, o grão do café fica mais pesado, robusto, agregando valor. Quando o manejo é correto, preocupado com o ecossistema, meio ambiente e tendo a presença delas, cria-se uma situação de vantagem econômica muito grande para o produtor. Todos saem ganhando", destaca André.
Produtividade e preservação
O então cafeicultor Marcos Antônio Shaefer, de 39 anos, seguiu os conselhos do amigo e há cinco anos resolveu embarcar na criação de abelhas associadas ao plantio de café. O agora também apicultor e meliponicultor conta com cerca de 40 colmeias espalhadas pela propriedade tocada junto dos pais.
Apicultura e meliponicultura em meio ao cafezal aumenta a produtividade de forma sustentável
O mel produzido é fornecido e vendido na região, mas no meliponário ele também extrai a cera, pólen e samburá (o pólen fermentado, equivalente à geleia-real das abelhas com ferrão), processados na pequena fábrica construída para embalar e conservar o estoque dos produtos.
"Além delas me proporcionarem uma alta produtividade no café, é também uma forma de preservar a espécie"
Marcos Antônio Shaefer - Cafeicultor e meliponicultor
"A gente tem que ter consciência porque tudo se encaixa. Se entrar com muito defensivo na lavoura, você vai ser prejudicado porque morrerão abelhas. Elas são responsáveis pela polinização da flor do café, mas também das árvores frutíferas e tudo mais. Tanto que aqui eu obtenho o mel proveniente do cafezal, o silvestre, de assa-peixe e eucalipto", detalha Marcos, que trabalha com variedades como a jataí, uruçu-amarela, mandaçaia, iraí e outras espécies sem ferrão.
Benefícios da polinização por abelhas no cafezal
Aumento da produtividade do conilon (até 60%) e arábica (até 30%);
Uniformidade na maturação dos frutos;
Queda no abortamento dos frutos no pé;
Maior doçura nos frutos;
Uniformização e grãos mais pesados;
Melhora na qualidade da bebida.
"Se ele (Marcos) não fizesse esse trabalho, é bem provável que não teríamos as abelhas nessa região. Ou seja, é um apicultor, meliponicultor que cria sustentabilidade para que essas abelhas tenham condições de sobreviver em meio a essa variação climática, uso desenfreado de agrotóxicos, queimadas, desmatamento, seca prolongada, e outras situações com interferência da ação irresponsável do homem", salienta André Lopes.
Conscientização
Com o avanço das lavouras e dos grandes plantios, o ecossistema natural das abelhas é impactado de forma severa. Não raramente observam-se enxames ocupando áreas urbanas, o que pode representar risco à população, especialmente aos alérgicos à ferroada do inseto. Desta forma, manter as espécias nas regiões nativas e associadas a plantios de culturas se faz necessário.
Projeto-piloto da Cooabriel em São Domingos do Norte cria abelhas em meio ao café conilon
No mundo existem aproximadamente 20 mil espécies de abelhas, com o Brasil possuindo aproximadamente 10% delas, com quase 1,7 mil variedades já identificadas. A mortalidade delas é realidade em muitas regiões brasileiras e no mundo, o que interfere diretamente na produção de alimentos.
O projeto-piloto iniciado de forma embrionária pela cooperativa em São Domingos do Norte, e o manejo sustentável realizado em Fundão, são bons exemplos de que é possível otimizar a produção, agregar valor, obter de renda extra através da relação harmônica e sustentável entre homem, campo e natureza.
Além do mel, a criação de abelhas em cafezais ainda proporciona a obtenção da cera, muito utilizada pela indústria de cosméticosCrédito: Ricardo Medeiros
Com o consumo e interesse cada vez maior pelo mel e derivados, a busca por informações e iniciativas relacionadas ao manejo das abelhas também acompanha o ritmo de crescimento. Cooperativas, associações de apicultores e iniciativas como o Sebrae, são ferramentas de rápido acesso à técnicas, variedades e formas de manejo.
Doce, ácido ou amargo. Claro ou escuro. Líquido ou viscoso. Já reparou que existem diversos sabores, cores e texturas de mel? Isso ocorre devido à existência de milhares de espécies de abelhas, que buscam pelo néctar em uma infinidade de plantas – das frutíferas, como morango e laranja, passando pelo eucalipto, camará, mata nativa, restinga e muitas outras.
Quanto mais a abelha "visita" as flores do pé de café, mais gosto, cor e características que lembram a bebida o mel terá. Por ser uma cultura amplamente difundida pelo Estado, grande parte do mel capixaba possui notas de café. Quanto mais perto da respectiva plantação, mais gosto dela o mel vai ter.