O ciclo de queda da taxa Selic mal começou e o mercado já discute sua interrupção. O cenário que até poucos meses atrás indicava espaço para redução gradual dos juros mudou rapidamente. O conflito no Oriente Médio, especialmente envolvendo o Irã, voltou a pressionar os preços do petróleo, fertilizantes e alimentos, reacendendo preocupações inflacionárias no mundo inteiro. No Brasil, onde a inflação já convive com pressões estruturais, o impacto é ainda mais sensível.
O problema é que o país trabalha hoje com uma meta de inflação de 3%, um patamar bastante ambicioso para uma economia historicamente mais volátil. Em cenários normais, essa meta já exige juros elevados. Quando surgem eventos inesperados, como uma guerra afetando commodities essenciais, o Banco Central praticamente perde margem de manobra.
Ao mesmo tempo, o ambiente doméstico continua adicionando pressão sobre os preços. O governo segue estimulando a economia por diferentes canais. Houve expansão do crédito público e privado, liberação de recursos do FGTS, antecipação de precatórios, pagamento antecipado de benefícios e diversas medidas voltadas ao aumento da renda disponível no curto prazo.
Esses estímulos sustentam o consumo e ajudam a atividade econômica no presente, mas também mantêm a demanda aquecida em um momento em que a oferta não cresce na mesma velocidade. O resultado tende a aparecer na inflação.
A consequência direta é a manutenção de juros elevados por mais tempo. E isso gera um efeito importante sobre toda a economia brasileira.
Para quem possui patrimônio financeiro aplicado, o cenário continua extremamente favorável. O Brasil oferece hoje um dos maiores juros reais do mundo. O investidor conservador consegue obter retornos elevados praticamente sem risco de mercado relevante. É um ambiente confortável para o rentista.
Por outro lado, a realidade das empresas é bastante diferente. Juros altos encarecem o crédito, reduzem investimentos e dificultam a expansão dos negócios. Setores mais dependentes de financiamento sofrem ainda mais. Não por acaso, o país registra um recorde de pedidos de recuperação judicial e aumento expressivo no número de falências.
Muitas empresas que se endividaram no período de juros baixos e crédito abundante agora enfrentam uma realidade completamente diferente. O custo financeiro aumentou de forma significativa, enquanto o consumidor, já bastante endividado, começa a perder capacidade de consumo.
O Brasil acaba entrando em um ciclo difícil. Para controlar a inflação, os juros permanecem elevados. Mas esses mesmos juros aumentam o custo da dívida pública, pressionam empresas e reduzem a capacidade de crescimento da economia no longo prazo.
O mercado ainda tenta entender por quanto tempo esse equilíbrio poderá ser mantido. Se, por um lado, os juros elevados continuam atraindo capital e sustentando aplicações financeiras, por outro tornam o ambiente econômico cada vez mais pesado para quem produz, emprega e depende de crédito.
No fim, a conta dos juros altos nunca desaparece; cedo ou tarde, ela será paga pelo país.
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