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Independência em xeque

Autonomia sitiada: quando o risco político invade os bancos centrais

O risco que hoje assombra os mercados não vem só da economia, mas da pressão política sobre instituições criadas para operar fora dela
Leonardo Pastore

Publicado em 

15 jan 2026 às 08:17

Publicado em 15 de Janeiro de 2026 às 11:17

Por muito tempo, a avaliação da figura do risco nos mercados esteve vinculada a questões geopolíticas, à solvência corporativa ou à fragilidade fiscal, que, juntas ou separadas, alteravam o humor dos investidores. Embora tais fatores ainda possuam total relevância para estressar portfólios, o centro de gravidade do risco parece ter se deslocado sutilmente. Hoje, a instabilidade de elementos objetivos, como lucro ou prejuízo, parece ultrapassar as fronteiras de instituições que deveriam oferecer estabilidade: as dos bancos centrais.
Nos EUA, o maior mercado do mundo, a autoridade monetária acusa o uso de pressão política por meio de investigações para forçar decisões do Federal Reserve alinhadas à agenda econômica do governo. O que antes era um conflito velado entre Trump e Powell transformou-se numa demonstração de que sua independência pode ser questionada caso o jogo eleitoral estabeleça o ciclo de juros.
Banco Central do Brasil: quando a independência institucional entra em zona de sombra, o risco deixa de ser apenas econômico Crédito: Imagem gerada pelo ChatGPT
O Brasil vive sua própria versão dessa tensão institucional gerada do confronto entre a política e a credibilidade técnica de um banco central. O caso do Banco Master revelou uma fricção entre o TCU (Tribunal de Contas da União) e o BC (Banco Central)  quanto às competências de um e do outro. Ao decidir inspecionar o processo de liquidação do Master, ainda que juridicamente justificável segundo sua função de controle externo, o TCU acendeu um alerta sutil sobre os limites entre o escrutínio legítimo do Tribunal e a interferência sobre decisões do BC que guardam autonomia regulatória.
No Norte ou no Sul, os casos ilustram a tentação de subordinar a Autoridade Monetária a pressões imediatas, fazendo o risco erodir a barreira que separa a política da instância regulatória. Bancos centrais não são infalíveis, mas, pressionados, perdem a capacidade de ancorar expectativas, o que retira dos mercados a bússola de que precisam para navegar. Se são lentos, não são impulsivos. Essa é a função deles: estarem fora do compasso da política para proteger a economia das emoções do dia.

A conta chega no custo do dinheiro

Para o investidor comum, tudo parece abstrato demais, mas ele paga o preço. O risco institucional é precificado antes do fato e as curvas de juros são afetadas por dados além dos econômicos: elas se alteram (juros sobem) quando players percebem que instituições que deveriam discipliná-las de modo independente podem ser forçadas a operar na sombra, com menos rigor técnico e garantias. Na prática, o mercado financeiro sente o golpe, rejeita o risco e se retrai: o dinheiro fica mais caro.
Aqui, por outro lado, o investidor resiliente percebe que seu poder decisório é limitado. Ele só administra uma parte do risco, que, por sinal, é relativamente pequena. É mais difícil isolar o risco institucional, e o sucesso ou insucesso de investimentos não vem só de decisões mal tomadas por si, mas da crescente impossibilidade de tomá-las sem as interferências que vão muito além do próprio dinheiro. Esse risco é o mais profundo, pois não aparece nas estatísticas como as de inflação ou PIB, mas tem poder para alterar, silenciosamente, o custo do dinheiro e a volatilidade do mercado.
Então, de Washington à Brasília, o maior desafio é seguir firme na preservação da invulnerabilidade das instituições monetárias, mantendo-se sua ideia de autonomia quando o calor do momento parece conspirar contra ela. E se antes o temor era sobre algum choque externo ou um novo plano econômico mirabolante, agora ele parece estar fundado sobre algo mais singelo, porém por demais gravoso: de que gradualmente se politizem instituições que deveriam nos proteger da política.
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