Disputa política e exibicionismo, o outro lado perverso da tragédia no ES
Leonel Ximenes
Disputa política e exibicionismo, o outro lado perverso da tragédia no ES
Nas redes sociais, grupos políticos se enfrentam e parlamentares se exibem em meio à catástrofe que atingiu municípios do Sul do Estado. Para eles, o drama humano é um instrumento para seus projetos de poder
Publicado em 23 de Janeiro de 2020 às 19:14
Públicado em
23 jan 2020 às 19:14
Colunista
Leonel Ximenes
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Dona Rosineia da Silva Correia Pires, de 61 anos, moradora do Morro do Sal, em Vargem Alta, que teve sua casa praticamente destruída pela chuvaCrédito: Fernando Madeira
Em momentos de tragédia e grande comoção pública, ensina a História, povos e líderes se destacam por atitudes altruístas, capacidade de enfrentar as dificuldades e ter resiliência. Aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial, quando o rei Jorge VI e sua mulher resolveram ficar em Londres e acompanhar, in loco, os estragos provocados pelos bombardeios alemães à capital britânica. O monarca liderou seu povo, que resistiu e venceu o odioso regime nazista (concorda, Roberto Alvim?).
Há outros inúmeros exemplos. Países que passaram por grandes provações oriundas de guerras, revoluções, regimes políticos totalitários, pestes e desastres naturais conseguiram se superar, se reconstruir e hoje alguns deles são potências, como o Japão, a China e até o ascendente Vietnã, sem falar do próprio Reino Unido, dos EUA e da França, a bela e irresistível França que chegou a ser ocupada pelas tropas de Hitler.
Avancemos o ciclo histórico. Estamos no Espírito Santo, Brasil, Estado que está longe de sofrer as agruras de uma guerra (apesar da violência e da criminalidade), mas que passa por uma grande provação com as enchentes causadas pela chuva em quatro municípios do Sul. É hora de arregaçar as mangas e ajudar nossos irmãos de Iconha, Rio Novo do Sul, Vargem Alta e Alfredo Chaves, certo?
Sim, a grande maioria do povo capixaba está mobilizada em ajudar, seja arrecadando donativos, trabalhando nas áreas afetadas, ou, respondendo aos ditames da sua fé, rezando pelas vítimas. Nada mais nobre. Mas essa tragédia toda tem um outro lado, tão perverso que provoca náuseas. Refiro-me à disputa política insensível e inconsequente e ao puro exibicionismo de detentores de mandato popular (ou dos que querem um mandato) de olho na próxima eleição.
A Política (com P maiúsculo) é atividade nobre, necessária e desejável numa democracia, mas o que é intolerável é o confronto entre grupos que se aproveitam da fragilidade humana durante a tragédia para tentar obter dividendos políticos e eleitorais. Basta dar um passeio pelas redes sociais: uma disputa insana e cruel está ocorrendo entre segmentos favoráveis ao governo do Estado e contrários, estes capitaneados principalmente por aliados do bolsonarismo no ES.
Uma das armas utilizadas nessa guerra suja, de lado a lado, é a disseminação das chamadas “fake news”. Sim, mais uma vez a mentira está sendo largamente utilizada, indiferente ao sofrimento de milhares de pessoas, para destruir o adversário de ocasião. Essas falsas notícias, por óbvio, vêm prejudicando o trabalho das equipes que atuam nas áreas atingidas pelo desastre natural e levam intranquilidade à população capixaba, principalmente às vítimas da tragédia.
Outra atitude deplorável é o triste espetáculo de exibicionismo nas redes sociais de políticos mais preocupados em posar para fotos e vídeos do que, efetivamente, contribuir para a solução do problema (por falar nisso, por que as leis que proíbem construções em áreas impróprias à habitação são ignoradas, excelências?).
Um integrante da bancada federal do ES chegou à desfaçatez de se deixar fotografar comendo num marmitex, numa área atingida pela enchente, como se tivesse protagonizando um ato quase heroico. Este parlamentar, como outros, inclusive vereadores da Grande Vitória, estão sendo seguidos nas cidades mais afetadas pela chuva por um batalhão de fotógrafos e cinegrafistas. O importante, para essa gente, é aparecer e parecer que está fazendo alguma coisa. Estão fazendo sim: atrapalhando.
Mas o povo está vacinado contra essa manipulação odiosa. A sociedade tem que continuar atenta e não permitir que nobres sentimentos, como auxiliar o próximo, sejam maculados por grupos que não estão preocupados em ser solidários e ajudar. Eles querem é ser ajudados – mesmo que seja à custa da miséria humana.
Não é preciso ser um rei para ficar na história. A verdadeira nobreza está no gesto solidário e gratuito. Continuemos a ajudar nossos irmãos capixabas.
Leonel Ximenes
Iniciou sua historia em A Gazeta em 1996, como redator de Esporte e de Cidades. De la para ca, acumula passagens pelas editorias de Policia, Politica, Economia e, como editor, por Esportes e Brasil & Mundo. Tambem atuou no Caderno Dois e nos Cadernos Especiais e editou o especial dos 80 anos de A Gazeta. Desde 2010 e colunista. E formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo.