O anúncio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que o país vai controlar o Estreito de Ormuz, via marítima localizada ao sul do Irã, e aplicar uma taxa de 20% sobre toda a carga transportada pela rota, reacendeu as análises sobre o impacto da decisão na economia brasileira.
Afunilando as possibilidades e focando no Espírito Santo, ainda que sem uma relação direta do comércio capixaba com a região, também são discutidas as formas como a taxação impacta na economia do Estado.
Segundo o economista Ricardo Paixão, o impacto é indireto, por meio do encarecimento do frete marítimo, dos combustíveis e de insumos utilizados pela indústria.
O Estreito de Ormuz, localizado entre o Irã e Omã, concentra a movimentação de 20% de todo o petróleo consumido no mundo. Por isso, qualquer instabilidade na região ou aumento dos custos para a passagem de navios tem potencial para provocar efeitos em cadeia na economia global.
Nesta terça-feira (14), inclusive, os preços do barril atingiram o maior nível em cerca de quatro semanas. Por volta das 9h39 (horário de Brasília), o barril do petróleo Brent, referência internacional, subia 4,33%, para US$ 86,91. Já o WTI, referência nos EUA, avançava 3,17%, para US$ 80,62.
Afeta o fluxo de petróleo, pressiona o preço do barril, influencia o câmbio e acaba resultando em fretes mais caros e combustíveis mais caros. É um efeito que atinge toda a economia
Ricardo Paixão, economista
Embora o Espírito Santo não dependa diretamente da rota para suas operações de comércio exterior, o economista afirma que o Estado deve sentir os efeitos da alta dos custos logísticos. "A nova taxa tem potencial para afetar a economia capixaba pela pressão inflacionária", afirma.
Setores podem perder competitividade
Entre os segmentos que podem sentir os impactos primeiro estão o agronegócio e a indústria.
Segundo Paixão, o Espírito Santo importa fertilizantes, combustíveis, produtos químicos, máquinas e diversos insumos industriais. Mesmo quando esses produtos não têm origem no Oriente Médio, o aumento dos custos do transporte marítimo tende a elevar os preços das importações.
O impacto é generalizado, mas alguns setores sofrem mais. Fertilizantes afetam diretamente o agronegócio. Combustíveis atingem toda a economia. Já a indústria depende de máquinas, produtos químicos e insumos que também ficam mais caros
Ricardo Paixão, economista
Do lado das exportações, o economista destaca que o aumento do frete internacional pode reduzir a competitividade de produtos importantes da pauta capixaba.
"O Espírito Santo é um grande exportador de minério de ferro, pelotas, café, celulose, rochas ornamentais e produtos siderúrgicos. Com o frete internacional mais caro, parte da competitividade desses produtos pode ser reduzida, principalmente nos mercados mais distantes", adicionou Ricardo.
China pode ampliar participação
Caso o cenário de tensão internacional se prolongue, Paixão acredita que o Brasil poderá buscar novos parceiros comerciais ou ampliar relações já existentes para reduzir os impactos.
Na avaliação dele, a China tende a ganhar ainda mais espaço nas relações comerciais brasileiras.
Diante dessa instabilidade, abre-se uma janela de oportunidade para ampliar ainda mais esse comércio, tanto absorvendo mais exportações brasileiras quanto expandindo as relações comerciais com o país
Ricardo Paixão, economista
O economista também cita mercados como a África do Sul entre as possibilidades de diversificação das relações comerciais brasileiras.
Ainda nos primeiros estágios para medir os impactos definitivos das taxas americanas, Ricardo ressalta que o cenário internacional muda rapidamente conforme as negociações entre os países envolvidos.
Se as tensões aumentarem, os impactos tendem a crescer. Mas, se houver um acordo, a situação pode ser normalizada. Uma indefinição prolongada não interessa a ninguém, porque gera prejuízos para toda a economia global
Ricardo Paixão, economista