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Opinião da Gazeta

Volta do aquaviário: para deslanchar, passado não pode ser esquecido

Sistema de transporte hidroviário na Grande Vitória finalizou operações em 1999, e desde então seu retorno se tornou um sonho de mobilidade urbana que pode estar prestes a ser retomado. Desafios para a sua viabilidade, contudo, continuam

Publicado em 13 de Maio de 2022 às 02:00

Públicado em 

13 mai 2022 às 02:00

Colunista

Lancha
Lancha do sistema aquaviário no Centro de Vitória, em 1991 Crédito: Nestor Müller
funcionamento e as características do novo transporte aquaviário na Grande Vitória foram detalhados em edital publicado pela Secretaria de Estado de Mobilidade e Infraestrutura (Semobi). Nele há informações importantes, como a estrutura dos barcos, que inclui comodidades como wi-fi e ar-condicionado, com capacidade mínima de 80 pessoas.
O que chamou atenção também foram os prazos: as empresas interessadas na operação têm até o próximo dia 20 para enviarem suas propostas, e o pregão eletrônico será realizado no dia 24. O termo contratual deverá ser assinado em julho e a empresa vencedora terá  90 dias a partir de então para entregar os barcos. Levando-se em consideração que o governo afirma que as obras dos quatro pontos de embarque na Grande Vitória estão caminhando, fica a expectativa de que, depois de mais de 20 anos de hiato, o sistema aquaviário esteja prestes a ser retomado. Isso, é claro, se aparecerem interessados.
Não faz muito sentido uma região metropolitana na qual a principal cidade se localiza em uma ilha não oferecer transporte hidroviário: grandes centros urbanos em situação semelhante realizam operações regulares com embarcações para reduzir o impacto no trânsito e facilitar a rotina das pessoas.  Especialistas em mobilidade urbana são entusiastas das conexões marítimas. E os cidadãos, na teoria, aplaudem. Mas é na prática que esse tipo de transporte mostra sua viabilidade: se não houver conforto, tanto físico quanto financeiro, as pessoas o abandonam.
O aquaviário na Grande Vitória mexe com a nostalgia. Sobretudo entre aqueles que eram crianças ou jovens quando o sistema ainda estava em operação. Mas a sua trajetória não navegou por mares tão tranquilos quanto na memória dos passeios pela Baía de Vitória.
Implantado em 1978 pela Companhia de Melhoramento e Desenvolvimento Urbano (Comdusa), o aquaviário chegou aos anos 80, quando estava sob responsabilidade pública, enfrentando altos e baixos de gerenciamento. Entre 1984 e 1986 houve a suspensão do serviço, que se encontrava em situação deficitária.
A falta de manutenção das lanchas foi um problema que ajudou a afundar o sistema, na época. Não havia conforto nem segurança. Por consequência, houve redução no número de passageiros, sobretudo com a implantação do Sistema Transcol. O ponto de embarque em Porto de Santana, em Cariacica, acabou extinto por falta de usuários, que passaram a adotar a conexão por ônibus. O sistema aquaviário e o Transcol não proporcionaram uma integração para o usuário, o que será diferente da retomada atual. Uma lição do passado.
Em 1991, o serviço foi concedido à iniciativa privada.  A Pisa Engenharia assumiu a operação, subsidiada pelas passagens do Transcol. Em 1999, com a retirada do subsídio, o sistema aquaviário foi abandonado. Apesar das promessas de melhoria nos serviços, o aquaviário continuou seguindo a tendência de queda dos passageiros e não se manteve viável.
É preciso levar em consideração, por exemplo, que houve um tempo em que a única rota realizada era Centro de Vitória-Prainha (Vila Velha), o que limitava a mobilidade das pessoas. A implantação de um ponto de embarque na Praça do Papa pode ser um diferencial, para alimentar as opções de transporte de quem mora na porção norte de Vitória. Além de haver a possibilidade  de continuar a viagem em um ônibus com a mesma passagem.
O retorno das atividades trazem novos ventos, que podem fazer o transporte aquaviário deslanchar. As embarcações devem ser mais modernas, com padrões de segurança que simplesmente não existiam 40 anos atrás. É possível que atraia novos usuários, proporcionando até mesmo uma redução significativa de veículos na Terceira Ponte e nas ruas. Além da mobilidade, não se pode esquecer do incentivo ao turismo: a travessia pela Baía de Vitória é uma paisagem que merece ser apreciada no dia a dia por quem tem o privilégio de viver na Grande Vitória e por quem tem o prazer de visitá-la. 
Agora, é trabalhar para que essa retomada se consolide como um projeto para a mobilidade do futuro, sem repetir os erros do passado.

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