Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

  • Início
  • Em dois restaurantes, um peixe chamado mistério...
Marcos Alencar

Em dois restaurantes, um peixe chamado mistério...

Delirantes definições retratavam cada prato do extenso menu. Mal conseguíamos tomar a cerveja de tanto que a gente ria, a cada parágrafo, a cada imagem sugerida, a cada adjetivo inesperado

Publicado em 06 de Abril de 2018 às 18:54

Públicado em 

06 abr 2018 às 18:54

Colunista

Crédito: Pixabay
Há muitos anos, levado pelo meu grande amigo Gilberto Martins, fomos jantar num restaurante maneirinho, em Guarapari. “Maneirinho” é um adjetivo que uso para definir um restaurante em que os talheres, os guardanapos e as louças são de boa qualidade. Mas a comida, por mais boa vontade que se tenha, é do tipo assim-assim.
Era uma noite quente de verão, mas a temperatura, na varanda onde ficamos, ganhava a brisa camarada da beira da praia, um quarteirão adiante. Tudo normalzinho até abrirmos o cardápio. Foi quando demos de cara com uma deliciosa e extravagante descrição dos pratos. Uma moquequinha de caranguejo, para os dono da casa, não se bastava por si só. Vinha temperada, com força, no texto: “das raízes do manguezal secreto, silente e frio, abrigados em úmidas locas de batinga negra...” Mais ou menos assim.
A fachada era toda cinza, discreta e sem placas, e a casa não tinha número. Não era lugar de badalação. Era lugar onde se comia bem
Delirantes definições, como esta, retratavam cada prato do extenso menu. Mal conseguíamos tomar a cerveja de tanto que a gente ria, a cada parágrafo, a cada imagem sugerida, a cada adjetivo inesperado. Pedimos um “Peixe Delícia”. Assim traduzido: “Das profundezas do oceano, entre lindos corais rendados pelas algas mais lindas que se possa imaginar, veio ele: bonito e delicado...” E por aí foi. Não me lembro do nome do restaurante e nunca ficamos sabendo que peixe era aquele.
Muitos anos depois fui a Lima conhecer a famosa cozinha peruana. O premiado chef Gaston Acúrio havia sido eleito o melhor do ano e o seu restaurante “Astrid & Gaston” bombava. Reserva feita com alguma antecedência, lá fui eu. Difícil foi achar o endereço. A fachada era toda cinza, discreta e sem placas, e a casa não tinha número. Não era lugar de badalação. Era lugar onde se comia bem. No salão, somente uma grande jarra com flores naturais enfeitava o ambiente.
Pedi um vinho, trouxeram-me uns pãezinhos e o cardápio. Nele, poucas sugestões, nenhum adjetivo. A conversa educada de cada casal e cada grupo de amigos passava longe do alvoroço da mesa ao meu lado. Nela acontecia algo parecido com uma encenação espetaculosa do Boi Bumbá. Pensando melhor, da Pororoca amazônica. Para minha vergonha, o espetáculo era estrelado por dois casais de brasileiros que comiam, falavam alto, tiravam fotos e gargalhavam como crianças no circo do Carequinha. Procurei caprichar no castelhano para esconder a minha origem brasuca. O maitre nem desconfiou. Gracias a Dios.
Pedi um peixe, cozido em baixa temperatura, acompanhado de um puré daquelas batatas que só existem nas montanhas de lá. Jantei como um príncipe. Ao final, no café, perguntei que peixe gostoso era aquele. O maitre, empostou a voz e começou a declamar um texto, já meu velho conhecido: “este precioso pescado vive en el puro azul de lo más profundo oceano...”
Não consegui segurar a gargalhada. Ele olhou-me com espanto, ficou mudo e se retirou com a certeza de que estava diante de outro brasileiro mal-educado. Como aqueles casais da pororoca.
Paguei a conta e saí sem saber, mais uma vez, que bendito peixe era aquele.
 

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Atrações do final de semana
Agenda HZ: Silva, Renato Albani, Thiaguinho e Capital Inicial neste fim de semana no ES
Stênio Garcia após harmonização facial
Em meio a briga com as filhas, Stênio Garcia passa mal e é hospitalizado após aniversário
Senador Magno Malta é internado em hospital após passar mal
Magno Malta é internado em hospital após passar mal em Brasília

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados