LUANNA ESTEVES
Budah, se eu te disser que você não pode escrever, cantar e se expressar do jeito que quiser, o que você faria?” “Seria a pior pressão. Eu me expresso cantando muito, falando muito, escrevendo tudo que eu estou sentindo. É o meu trabalho e é a minha vida. Não consigo imaginar ficar sem. Preciso rasgar o verbo mesmo!”
Budah é Brenda Rangel, de 23 anos, uma capixaba que ecoa sua doce voz embalada por beats de muito swing por diversos cantos do país e abriu neste sábado (07), uma série do programa “Em Movimento”, da TV Gazeta, que, neste mês, contará histórias de mulheres que lutam por espaço, respeito, independência e igualdade.
A carreira de Budah tem apenas três anos e seus vídeos chegam a 400 mil visualizações, além de convites de parcerias por todo o Brasil. “Eu não esperava que tudo isso fosse acontecer comigo. Eu era muito tímida e me limitava, pensava que não era capaz. Até porque o meio em que vivo é muito masculino, o rap.”
Budah nasceu 70 anos após Maria Antonieta Tatagiba publicar o 1º livro editado por uma mulher no Espírito Santo (Frauta Agreste, de 1927), feito inimaginável para a época. Era uma obra de poesias que transbordava os limites da vida comum do século XX. Maria Antonieta não soube, mas abriu alas para que capixabas como Budah tivessem o espaço e a liberdade para se expressar.
A primeira composição, chamada “Neguin”, foi abrindo o coração para um crush. Hoje, além dos sentimentos, Budah também fala de questões sociais, como de praxe no rap.
"Eu faço R&B, que é um subgênero do rap, mas não é o que mais escuto. Acho que escolhi o rap até para romper essa barreira da mulher, porque eu me bloqueava muito por não ver muitas minas fazendo o som. E aí, indiretamente, você tende a crer que o meio não te aceita"
Antes de Budah, grupos como o Melanina MCs, Preta Roots e Solveris com a Morenna soltaram as primeiras rimas e abriram o caminho. “Elas foram fundamentais e eu sou muito grata a elas, além de ter muito orgulho e vontade de mudar o cenário porque a gente ainda precisa escutar coisas tipo ‘ah, pra uma mina até que você manda bem’.”
Quando criança, ela sempre acompanhava o pai nas rodas de samba que ele participava, à frente da banda Casamba. “Eu gosto de música! Ainda quero cantar de tudo: samba, reggae, MPB. Não me considero rapper, mas sim cantora. Acredito que a voz dá liberdade pra gente e que a minha também dê. A liberdade de falar, cantar e ser o que eu quiser”, compartilha a cantora, que está prestes a lançar o videoclipe da música “Lingerie”.
Conquista de espaço nas artes
É fato: os movimentos femininos ganham força no dia a dia na medida em que falamos mais sobre o tema. Nas artes, não é diferente. Como exemplo, podemos lembrar da Orquestra Feminina do Espírito Santo, que une mulheres da Orquestra Sinfônica e da Camerata do Sesi para apresentações pontuais guiadas por uma maestrina.
Também há o Batuqdellas, bloco de carnaval que reúne 50 mulheres, ou ainda o Dandaras, grupo musical somente de mulheres tocando na bateria. Do popular ao erudito, nas ruas e nos palcos, a expressão feminina ganha espaço, reconhecimento e relevância.
“A gente que faz arte aqui se apoia muito. Com as mulheres, então, vejo que a nossa força é muito grande. O Estado está sendo visto lá fora como referência no rap também pelas mulheres. Eu espero que a gente ganhe esse mundo todo, porque merece e trabalha para isso”, constata Budah, que completa: “Que a gente não pare nunca, porque está lindo”.
"Por mais que a gente se sinta insegura de fazer, precisa ir lá e fazer. Seja o que for. Precisa chegar em todos os lugares que as pessoas acham que é impossível. Há três anos, ninguém imaginava que eu estaria onde estou. Eu mesma achava impossível. Então, faça, mesmo se se sentir insegura, um dia você vai se acostumar"