Afora o governador Renato Casagrande – detentor de uma vantagem natural pelo cargo que ocupa –, ele foi, sem dúvida alguma, o personagem político que mereceu a maior atenção e o maior número de análises desta coluna ao longo de 2019. Não cheguei a fazer este levantamento, pois seria um esforço exaustivo apenas para validar uma certeza que a memória recente me dá: depois do governador, seu nome foi o mais citado nesta coluna desde o início do ano. Estou falando de Erick Musso. Positiva ou negativamente, o presidente da Assembleia Legislativa foi o personagem mais marcante da política capixaba neste ano que ora se encerra.
Comecemos pelo mais impactante. Desde José Carlos Gratz, não há, neste século, registro de um presidente que tenha concentrado mais poder político e decisório na Assembleia do que Erick Musso concentra hoje. A derrocada de Gratz e o fim da era que leva o nome do ex-deputado na história política capixaba ocorreram no início de 2003. Erick tinha 16 anos incompletos.
Desde então, enquanto o jovem de Aracruz, neto do deputado Heraldo Musso, entrava na vida adulta e arriscava os primeiros passos na política, a Assembleia foi presidida por Cláudio Vereza (PT), César Colnago (PSDB), Guerino Zanon (MDB), Elcio Alvares (DEM), Rodrigo Chamoun (PSB) e Theodorico Ferraço (DEM). Nenhum deles, repito, chegou a acumular tanto poder quanto Erick hoje acumula.
Ironicamente, porém, foi o último dessa lista, desbancado pelo próprio Erick no início de 2017, quem abriu o caminho para a eternização do presidente da Assembleia no poder. Foi graças a uma série de emendas constitucionais em causa própria aprovadas na Era Ferraço que o mandato do presidente, limitado a dois anos de Vereza a Chamoun, passou a poder ser renovado indefinidamente. O que antes era “por dois anos” agora é “enquanto os demais deputados o quiserem”.
Erick, de bom grado, tem aproveitado o caminho escancarado por seu antecessor. Aos 29 anos, chegou à presidência. No início deste ano, aos 31, reelegeu-se sem adversário algum. Como ficou muito claro para todos, no episódio da frustrada antecipação da eleição da Mesa Diretora que só toma posse em 2021, o presidente tem total interesse em emendar um terceiro biênio à frente da Assembleia, perfazendo pelo menos seis anos no cargo. E assim vai se perenizando, a ponto de hoje já podermos falar em uma Era Erick no Legislativo estadual.
Mas não é só o tempo no poder que deve ser levado em consideração. Mais importante ainda são as medidas que Erick vem tomando como presidente da Mesa Diretora, sobretudo a partir deste ano, uma atrás da outra, incontidamente, com a sede de quem é jovem e tem pressa em atingir seus objetivos e com o ímpeto de quem não medirá esforços nem parará diante de obstáculo algum até os alcançar.
Para citar brevemente duas dessas medidas, em fevereiro, a Assembleia aprovou projeto de resolução de Erick que, na prática, acabou com todos os poderes administrativos dos dois secretários da Mesa, concentrando-os nas mãos do presidente: ele próprio. A mesma resolução ainda permitiu a Erick transferir parte de seus poderes ao diretor-geral da Assembleia, Roberto Carneiro, aliado dele de primeira hora e presidente estadual de seu partido, o Republicanos.
Já em julho, outra resolução aprovada às pressas permitiu ao presidente designar, por conta própria, os membros de comissões especiais, e instaurar CPIs, a seu critério, além do limite anterior de comissões desse tipo que poderiam funcionar simultaneamente. Hoje, na Assembleia, o presidente pode quase tudo.
Essa concentração de poder não é acidental, não é uma casualidade, não é como se Erick estivesse no lugar certo na hora certa. Não. É algo premeditado e cuidadosamente arquitetado. É parte de um plano, de um projeto político. E que plano é esse?
Chegar ao Palácio Anchieta. Governar o Espírito Santo, já na década que se inicia nesta quarta-feira (1º).
Evidentemente, Erick não está sozinho nesse plano nem pretende chegar lá sozinho. Faz parte de um grupo recém-estabelecido na política capixaba, também formado por atores como o já citado Roberto Carneiro, o deputado federal Amaro Neto (também instalado no Republicanos), os deputados estaduais Xambinho (na Rede, mas de mudança para o Republicanos), Vandinho Leite (presidente estadual do PSDB), Lorenzo Pazolini (sem partido, com convite de DEM, PSDB e Republicanos) e Marcelo Santos (por ora no PDT, mas muito mais para “lobo solitário”).
Decano da Assembleia, Marcelo é também o veterano desse grupo: com 48 anos, está na meia-idade política, tendo ainda muita lenha para queimar. Tirando ele, todos têm 43 anos ou menos. São jovens e impetuosos, estilo personificado pelo próprio Erick.
“Chegamos à maioridade. Tiramos a nossa carteira de habilitação. Agora, queremos dirigir o nosso próprio veículo”, disse-me, há poucos meses, um desses atores.
Com essa nova turma sentada ao volante – ou querendo assumir o assento do piloto –, a década política de 2020, iniciada nesta quarta-feira (1º), promete no Espírito Santo.