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Preto Zezé
'A desigualdade brasileira tem matriz no racismo'
O presidente da Central Única das Favelas (Cufa) falou sobre a relação entre a desigualdade social, a fome e a Covid-19

Isaac Ribeiro

Repórter

iribeiro@redegazeta.com.br

Publicado em 05 de Dezembro de 2021 às 13:02

Publicado em

05 dez 2021 às 13:02
Autodeclarado especialista em planejamento e agendas comuns, mestre em sobrevivência nas Quadras, doutor nas ruas do Brasil e pós-doutor em conexões de potências e compartilhamento de oportunidades. Esse é o irreverente currículo de Preto Zezé.
Não se espante com o nome. É Preto mesmo! Essa foi a "estratégia de constrangimento pedagógico" que Francisco José Pereira de Lima, de 45 anos, escolheu para que as "pessoas percebam o preto como uma cor, não como forma de desqualificar os outros".
Convidado por A Gazeta, o presidente nacional da Central Única das Favelas (Cufa) falou como a desigualdade social está relacionada com o racismo e foi potencializada com a chegada da pandemia do novo coronavírus no Brasil.
"A pandemia é uma peça de roupa no guarda-roupa da desigualdade brasileira"
Preto Zezé - Presidente da Cufa
Cria da Favela das Quadras, em Fortaleza (Ceará), Preto Zezé tem o ensino médio, é escritor [A Selva da Pedra: a Fortaleza Noiada, de 2014, e Das Quadras Para o Mundo, 2019], empresário, produtor cultural e fundador do Laboratório de Inovação Social (Lis).
Bairro Andorinhas, em primeiro plano; atrás, o bairro da Penha, ambos em Vitória
Bairro Andorinhas, em primeiro plano; atrás, o bairro da Penha, ambos em Vitória Crédito: Fernando Madeira

Quem é o Preto Zezé?

Preto Zezé é um filho do Nordeste, nascido em Fortaleza, Ceará. Sou criado na favela das Quadras. Sou um jovem negro padrão, com a criação de uma criança preta das favelas do Nordeste, em que muito cedo a gente tem que escolher entre estudar e trabalhar porque as notas azuis da escola não animam tanto quanto as notas azuis de dinheiro que a gente traz da rua. Tive que enfrentar essa situação porque meus pais vieram do interior para tentar a vida em Fortaleza e passaram a  morar em uma favela, que depois se urbanizou e passou e se chamar Quadras, que fica na Aldeota, num bairro nobre de Fortaleza. Comecei a lavar carro com 12 anos de idade na rua, batalhando, aprendendo as coisas, mas também me privando porque era um período de infância que você tinha que ter, mas estava na rua atrás de dinheiro. Quando eu conheci a cultura do hip-hop, do baile funk e do rap, comecei a me encontrar.  O hip-hop me ajudou muito a organizar esse caminho da sobrevivência.

E como começou a sua relação com a Cufa?

Nos anos 2000, eu conheci a experiência da Cufa iniciada no Rio de Janeiro. Fui resgatado e a Cufa virou essa grande escola de formação de líderes, de homens e mulheres de favelas de todo o Brasil, onde com o acúmulo que eu já tinha de outros movimentos, ajudei a construir essa caminhada. Em 2012, me tornei presidente da Cufa nacional. Em 2015, me tornei presidente da Cufa Global, que é quando as experiências nacionais são transbordadas às fronteiras brasileiras.

Mas hoje o senhor é o presidente da Cufa no Brasil.

Com a pandemia da Covid-19, além de me refazer nas ações da Cufa, fiquei cuidando das articulações logísticas das áreas Norte e Nordeste, que são as áreas com mais dificuldades. Devido a esse processo de estar bem familiarizado, de entrar em contato com as empresas, de articular essa montagem dessa logística, em novembro do ano passado, eu voltei para a presidência nacional para tocar o processo na pandemia, para tocar o projeto Mães da Favela. E começou tudo de novo esse ano para gente ir tocando a campanha Panela Cheia Salva, junto com outras organizações. Tudo isso para poder tornar a vida da população das favelas menos dolorida e fazer com que ela sinta menos impactos durante a pandemia.
Preto Zezé, presidente da Cufa Brasil
Preto Zezé, presidente da Cufa Brasil Crédito: Daniel de Araújo Ferreira

De acordo com a Universidade Johns Hopkins, o Brasil é o terceiro país do mundo com mais casos de Covid-19 e o segundo com maior número de mortes provocadas pelo vírus. Na sua avaliação, qual o impacto da pandemia por aqui?

O impacto tem sido porque a desigualdade brasileira tem matriz no racismo. O Brasil é um país de 521 anos de existência com 388 anos de escravidão da população negra. Quando a gente foi despejado no dia 14 de maio (de 1988, após a abolição da escravatura), a gente foi despejado sem cavalo, sem terra, sem indenização e exposto a todas as dificuldades que o país ia encarar a partir dali. O reflexo disso é que quando vem o impacto da pandemia, ela só agrava as questões já existentes no Brasil porque a pandemia não gerou a desigualdade, a pandemia é uma peça de roupa no guarda-roupa da desigualdade brasileira. 

Há algum impacto percebido diretamente à população negra?

É o desemprego, o impacto da saúde, o fechamento dos negócios, a má qualidade de acesso aos serviços públicos, a falta de emprego e renda. Com tudo isso a população negra, que já é atingida pela desigualdade brasileira, teve sua situação mais agravada. A prova é que a cada 100 pessoas que morrem, 62 são pessoas negras, homens, moradores de favela, que estão, sim, com a qualidade de vida comprometida, com a qualidade de saúde precária, dificultada ou bastante precarizada, pessoas sem muito acesso a exercício físico, a uma boa alimentação. O impacto da desigualdade sociorracial no Brasil vai ser agravado com o advento da pandemia.

Quais são as ações da Cufa para dar assistências às famílias no enfrentamento à pandemia?

No primeiro momento, nós não tínhamos muita informação, então fizemos uma luta para que as pessoas olhassem para as favelas. Para que as pessoas percebessem o que nós estávamos fazendo, como o impacto ia acontecer nesses lugares, como era que a gente ia chamar a atenção das pessoas para essa situação. Em seguida, as nossas sedes se tornaram centros de distribuição e logística na favela e criamos o Mães da Favela. A favela é mais atingida, mas dentro da favela, uma mãe solo, que hoje está com os filhos, com idosos acamados em casa, é mais vulnerável. Então, o Mães da Favela se tornou o programa estratégico da Cufa para poder escolher quem seria o perfil atendido, já que o naufrágio é geral, mas o afogamento é seletivo. Essas mulheres estavam sem boia durante essa tempestade. 
"O Mães da Favela se tornou o programa estratégico da Cufa para poder escolher quem seria o perfil atendido, já que o naufrágio é geral, mas o afogamento é seletivo. Essas mulheres estavam sem boia durante essa tempestade"
Preto Zezé - Cargo do Autor

Na prática, o que a Cufa oferece por meio desse projeto?

Nossas ações vão desde chip de celular até gás, comida, dinheiro, qualificação profissional. Uma situação interessante é que essas mulheres, além de pessoas atendidas, são formadas lideranças nesse processo. Elas já estavam com situação difícil, mas conseguem dividir, se articular e tornar nossa onda mais forte. A gente continua torcendo para que a vacina saia para todo mundo. As campanhas caíram 85%. Tivemos em 2021 uma missão de chegar a dois milhões de cesta básica para alimentar 10 milhões de pessoas, através do movimento Panela Cheia Salva. É a junção da Cufa, Gerando Falcões, Frente Nacional Antirracista, o setor empresarial, através da União São Paulo, chancela internacional da Unesco. Estamos falando de um amplo movimento da sociedade civil organizada para construir uma agenda de enfrentamento e ajudar brasileiros a não passar fome e não ficar abandonados. Não vai ficar ninguém pra trás.

A Cufa tem alguma atuação no estado do Espírito Santo?

A gente tem parceria com a TV Gazeta, empresas e articulação das lideranças da favela. O Espírito Santo é uma das referências do nosso trabalho. Eu estive numa reunião com o governador Renato Casagrande onde pautamos algumas ações para agora, emergenciais, mas também ações que estamos costurando na área da empregabilidade, articulação na área da inclusão e da educação, a partir da tecnologia, a partir da internet, e eu fui muito bem recebido. 

O que ainda falta para o Brasil ultrapassar este cenário de desigualdade social?

Falta a gente ter um pacto social no Brasil com o comprometimento com uma agenda de inclusão e enfrentamento da desigualdade, de ajuda emergencial para quem mais precisa. Como você está vendo, três agendas fundamentais que são economia, saúde das pessoas e emprego. Hoje não tem nada mais importante que vacina no braço, comida na mesa e dinheiro no bolso. Então, emergencialmente, essa seria uma plataforma para juntar politicamente todos os setores da sociedade porque nós estamos vendo aí situações ficarem tensas, questões muito precárias. Hoje o auxílio emergencial é menor, a demanda é muito maior, as doações caíram. A gente já reverteu em torno de 45%, dos 85% que a gente tinha perdido, mas é preciso que a gente faça um pacto nacional de cuidados para quem mais precisa.  
Preto Zezé, presidente da Cufa Brasil
Cufa tem ações em todos os estados brasileiros, diz presidente nacional, Preto Zezé Crédito: Daniel de Araújo Ferreira

Como as pessoas podem colaborar com os projetos da Cufa?

Entra no site www.cufa.org.br e lá escolhe como colaborar. A gente sabe que o poder público tem sua obrigação, mas a sociedade precisa se engajar. Sabemos também dos limites, que a gente não pode ajudar todo mundo, mas nesse momento todo mundo pode ajudar alguém. Então a gente conta com você para encher panelas, levar esperança e fazer da solidariedade um movimento mais forte, mais contagioso que o próprio vírus.

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