Com diversas árvores cobertas por flores em tons de rosa e lilás, o local virou point do
Espírito Santo, atraindo milhares de visitantes. Mas você, que talvez até já tenha uma foto registrada lá, sabe a história por trás do lugar e o significado das cerejeiras? Para chegar às respostas, vamos voltar no tempo.
Antes das árvores colorirem o espaço, o terreno era uma área de pastagem, que até hoje pertence ao
Instituto Erling Lorentzen. A plantação foi feita em 7 de setembro de 2008 — ano em que foi comemorado o centenário da imigração japonesa no
Brasil. A ideia era deixar um legado e comemorar a data histórica.
Ao todo, são 74 cerejeiras de três espécies:
É justamente na ordem acima que elas florescem, além de ser a sequência apreciada pelas pessoas, caso andem em linha reta, após a entrada no bosque.
A espécie Himalaya, cujas
flores costumam brotar no final de julho, é a que aparece em maior quantidade, com 40 exemplares. Por isso, a beleza que ela proporciona acaba sendo mais vistosa. Já a Okinawa floresce no final de junho e a Yukiwari no início de agosto. Os espetáculos duram cerca de duas semanas.
Cada árvore recebeu o nome da família que fez o respectivo plantio. A maioria é de japoneses: Hashimoto, Isozaki, Nakamura, Kawasaki... Mas há algumas que prestaram homenagens a políticos da época, como o ex-governador
Paulo Hartung, e a entidades como o Instituto Estadual de Meio-Ambiente (
Iema).
Logo na entrada também se destacam dois exemplares de cerejeiras que "escapam" da comunidade nipônica: o pé batizado de
Eliezer (Batista) e o outro de
(Erling) Lorentzen – duas personalidades emblemáticas na história do Espírito Santo e essenciais para que o Bosque das Cerejeiras virasse realidade.
"Por causa da exportação de minério, o Eliezer tinha uma relação e simpatia muito grande com o
Japão. Foi por intermédio dele que chegamos ao Lorentzen, que foi muito simpático e receptivo, permitindo que fizéssemos o bosque no terreno dele", conta Yochimassa Fujihara, conselheiro da Associação Nikkei de Vitória.
Representante da comunidade japonesa no Espírito Santo, a Associação Nikkei de Vitória foi a responsável por tomar a iniciativa e buscar meios de concretizá-la. O distrito de Pedra Azul foi escolhido porque as cerejeiras só se desenvolvem em locais de maior altitude, em regiões de montanha. O acesso fácil ao local também contribuiu.
"Quando essa ideia começou a se mostrar viável, encontramos um especialista em cerejeiras em
São Paulo. O nome dele era (Shinichi) Oki. Contratamos ele para vir e dar todo o apoio. As mudas vieram de avião e pequenas, com, no máximo, um metro de altura", lembra Fujihara, sobre o desenvolvimento do projeto.
Apesar da logística e mão de obra interestadual, a concretização do bosque não gerou altas despesas. "Pagamos pela consultoria, que determinou o melhor lugar para a árvore ser plantada, e pelas mudas, que custaram de R$ 15 a R$ 20 cada. O resto do trabalho foi todo voluntário, incluindo a preparação do terreno", disse.
Nascido no Japão, o agrônomo Oki contava que existem mais de mil espécies de cerejeiras. "Essas três espécies que temos aqui são as que se adaptaram melhor ao Brasil, mas são vários tipos: com flores mais claras, mais escuras, mais 'encacheadas'... tem muita variedade", afirma Fujihara.
No Japão, durante o período da florada das sakuras já centenárias, uma prática secular vem à tona: o hanami. O ato consiste em ver e, mais do que isso, apreciar as flores. "Eles fazem piquenique e visitação. É uma época festiva para os japoneses", revela o descendente.
Embora o nome oficial e atual não seja conhecido por muitos, o Bosque das Cerejeiras se chama, na verdade, "Bosque Kaoru Kumazawa" e é uma homenagem póstuma ao engenheiro civil, que era muito ativo e querido em Pedra Azul. Ele faleceu em 2011, ano em que o local recebeu o nome.
Vice-presidente do Instituto Lorentzen, o agrônomo Edimar Binotti destaca que Kaoru foi uma espécie de padrinho do projeto. "Ele, junto ao Fujihara, o nosso guru, estava correndo atrás de uma área, e eu participei dessa busca para ter cerejeiras aqui no Estado. Era a paixão dele, por simbolizar a vida", relembra.