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Reportagem Especial

Afrocapixabas: histórias e desafios de africanos que vivem no ES

Veja a trajetória de imigrantes que encontraram no Espírito Santo uma oportunidade de estudar, trabalhar e até formar uma família

Gabriela Maia

Estagiária

greis@redegazeta.com.br

Publicado em 04 de Julho de 2025 às 17:52

Publicado em

04 jul 2025 às 17:52
Crédito: ChatGPT
Entre os imigrantes que ajudaram a construir a história do Espírito Santo estão os africanos de diferentes origens, capturados e trazidos à força em navios negreiros para serem escravizados, como trabalhadores braçais, durante mais de três séculos no Brasil. Apesar de algumas marcas dessa violência ainda perdurarem no país, hoje estudantes e profissionais de diferentes países da África escolhem o Estado em busca de formação, oportunidade de trabalho e para formar uma família.
A reportagem de A Gazeta conversou com quatro africanos que vivem no Estado. Vindos de Guiné-Bissau, Angola, Gabão e Cabo Verde, eles contam suas histórias e os desafios vividos em terras capixabas, que incluem desde a saudade da família que ficou no país de origem até episódios de racismo.

Abraão Nicodemos

Meu nome é Abraão Nicodemos. Vim de Luanda, Angola. Eu vim para o Brasil em 2009. Uns amigos vieram para cá fazer faculdade e eu, inspirado nisso, vim também. Eles ficaram no Rio e eu vim para o Espírito Santo – muito em razão da qualidade de vida. Vim decidido a construir uma vida nova mesmo, a fazer tanto uma graduação quanto uma pós aqui. No começo, eu não tinha nem bolsa de estudos, nem trabalho, nem família, nem nada. E o Espírito Santo foi muito acolhedor nesse sentido.

Comecei a estudar em uma universidade privada em Vila Velha. Inicialmente, cursava Sistemas de Informação, mas me encantei pela Educação. Comecei a fazer Pedagogia. Tive contato com um aluno especial, autista, que não oralizava e não falava com ninguém. Mas ele falou comigo. Todo mundo ficou surpreso e, posteriormente, fui fazer especialização e mestrado na Ufes. Hoje, eu pesquiso saberes tradicionais.

De uma maneira tradicional, no imaginário coletivo brasileiro, a África é um país. Assim, há uma generalização, uma homogeneização do continente, como se tudo fosse mato e se convivêssemos entre elefantes e leões.

O currículo escolar brasileiro também apresenta o continente inteiro como primitivo, sem civilidade, como se lá não houvesse universidades ou produção de conhecimento. O Brasil se debruça a estudar Grécia e Roma e suas mitologias, mas não os saberes africanos.

O Espírito Santo tem muitos judeus, muitos italianos e muitos pomeranos, mas não volta o olhar à família africana. Muito se fala aqui sobre reivindicar a cidadania europeia, mas não existe nenhum esforço para que haja o reconhecimento dos antepassados africanos. A questão é que, quando a ciência e a ancestralidade africana são colocadas de lado, perde-se parte essencial de nossa história.

A minha filha já sabe dessa questão cultural, dessa identidade, dessa tradição. A gente tem muita relação com ancestralidade mesmo. Tanto que ela tem nome brasileiro e nome angolano, assim como os meus filhos. Ela chama-se Elis Núria Cachala (Núria significa 'iluminada' e Cachala, 'aquela que é o último combatente'). Já eles chamam-se Augusto Tchani ('aquele que é meu') e Manuel Kalifa ('o sagrado'). Nossa casa é um lugar de discussão cultural mesmo.

Saudade da África eu tenho de algumas comidas. Algumas a gente tem que adaptar e nem tudo tem aqui no Espírito Santo. Nós, por exemplo, comemos as folhas de mandioca, algo que aqui não é muito comum. Quem cresceu em Angola sabe o quanto isso faz parte de nossa vida.

Na África, não percebemos haver racismo. Eu ligava a TV e o jornalista era preto. O atendente do banco, o gerente, era preto. Eu sempre me via representado. Nunca ninguém me chamou de macaco. Nunca, na África, alguém guardou a bolsa ao me ver ou, entrando em casa, o porteiro do dia perguntou “quem eu conheço ali”. Quando chego no Brasil, começo a me deparar com isso, o julgamento pela cor da pele, gente que não senta ao meu lado no ônibus. Demorei, inclusive, a ter essa percepção e vivi isso de forma muito intensa e dolorosa. Daí a importância do empoderamento.

Quanto à religiosidade, há uma crença, um imaginário, de que todo africano professa uma religião afro-brasileira. A nossa relação com o sagrado é uma expressão de fé sem conotação religiosa, mas tem a ver com cultura, com os nossos ancestrais. Eles vivem com a gente. Estão com a gente. São a gente.”


Professor e mestrando em Educação, nascido em Angola.

Abraão Nicodemos, professor e mestrando em Educação, nascido em Angola
Abraão Nicodemos veio para o Brasil em 2009 e ainda sente saudades da África Crédito: Acervo pessoal
Abraão Nicodemos, professor angolano com parte da família
Abraão Nicodemos transmite a ancestralidade africana para a família Crédito: Acervo Pessoal

Patrício Baionco Biague

Africanos, como eu, sempre tivemos o desejo de estudar, para adquirir experiências e conhecimentos diferentes. Os jovens africanos sempre têm esse desejo de estudar fora, principalmente nos países que falam português. No processo seletivo pelo qual passei para vir estudar, tinha duas opções: ou Vitória ou Natal (RN). Estou há 23 anos no Espírito Santo e aqui fui muito bem recebido. Porém, como todo aluno estrangeiro, você encontra dificuldades na adaptação, no conhecimento, nos processos. Até o nosso português é diferenciado em relação ao daqui. Às vezes, você fala e a pessoa não entende. Há quem diga que a gente fala enrolado.

Os africanos que moram aqui tinham uma integração fenomenal. A gente fazia muita festa. Tinha comunidade de Cabo Verde, de Angola, do Gabão, da República Democrática do Congo, da Guiné-Bissau... Todo mundo se conhecia, a gente organizava festas… O tempo foi passando, muita gente foi voltando também. Mas ainda há muita gente da África aqui.

Eu sou da capital, Bissau, mas nasci em Bolama. Quando nasci, em 1975, a Guiné só tinha um ano como país independente. E, em particular, fui preparado para não dar bola para o preconceito e o racismo. Fui ensinado a ter confiança para fazer o que desejo sem escutar os outros nem ficar choramingando na esquina. Mas, obviamente, percebo que no Brasil existe racismo. A gente não pode encobrir o sol com a peneira.

As pessoas têm, sim, uma visão estereotipada da África. Creio que a internet tem ajudado a mitigar esse desconhecimento com relação à cultura e aos costumes da África. Acham que todo africano é miserável, que vive a esmolar ou que não tem nenhuma estrutura. Isso é só um equívoco. Os países africanos têm problemas como qualquer outro. O Brasil mesmo tem 522 anos; a Guiné, 49. Há muito o que aprender e amadurecer.

Quando cheguei aqui, perguntavam sobre a África como se fosse um país, quando são 54, com suas complexidades, línguas tradicionais, além daquelas dos colonizadores – como espanhol, inglês, português e francês. Mesmo o crioulo, falado em Angola e Cabo Verde, tem suas diferenças.

Eu sou guineense, minha mulher é senegalesa e meu filho, capixaba. Em casa, a gente não fala português, mas só a nossa língua, que, no caso, é o crioulo. Nosso filho agora tem 20 anos. Ele já foi para a Guiné-Bissau. Ele conhece lá, conhece os familiares.

Umbanda e candomblé não existem na África. São religiões brasileiras. O que há de próximo a elas chamamos de 'animista'. Tanto lá quanto aqui há pessoas que têm a sua fé, sua religiosidade, e, paralelamente, mantêm as tradições animistas, não abandonando sua ancestralidade africana. Eu mesmo sou católico, ainda que não praticante. Inclusive, casei na igreja. Mas também sou animista. É algo ancestral.

O Brasil precisa descobrir a Guiné. A sociedade capixaba desconhece muito da África. Sabe muito sobre os Estados Unidos e a Europa. Ainda que tenhamos uma democracia fragilizada, temos muita riqueza cultural, fauna, flora, um país continental ao qual se somam várias ilhas. Acho que a Guiné-Bissau é um país que tem muito a oferecer à humanidade."

Nascido em Guiné-Bissau, é professor e consultor financeiro do projeto Estado Presente

Patrício Baionco Biague
Patrício Baionco Biague diz que a sociedade capixaba ainda desconhece muito da África Crédito: Acervo Pessoal
Patrício Baionco Biague, professor nascido em Guiné-Bissau, com a família
Patrício Baionco Biague, professor nascido em Guiné-Bissau, com a família Crédito: Acervo pessoal

Genese Fairana Godeline Essali

No ensino médio, eu já sabia da minha vontade de estudar Medicina fora do Gabão. Quando terminei os estudos, fiz uma prova em meu país, que é equivalente ao Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). Eu não tinha um país definido, mas tinha algumas opções: França, Canadá e Brasil. Não fui aceita nos outros programas, mas acabei aprovada para estudar no Brasil, pelo PEC-G (Programa de Estudantes-Convênios de Graduação), que é um tipo de cooperação entre o governo brasileiro e alguns países em desenvolvimento no sul da África e também com países da Ásia e da América.

No programa, a gente não escolhe a cidade. Então, quando cheguei aqui no Brasil, em 2019, fui para Rio de Janeiro, onde comecei a estudar a Língua Portuguesa, durante 6 meses, na Universidade Federal Fluminense (UFF). Depois, fiz uma prova de proficiência no idioma, já que em meu país o idioma nativo é o francês. Só quando saiu o resultado é que consegui vir para cá para começar a cursar Medicina.

Antes de chegar à UFF, a Embaixada do Gabão se encarregou de resolver as questões burocráticas, como moradia e recepção no aeroporto, já que eu não conhecia o Espírito Santo. Internacionalmente fala-se muito mais no Rio e em São Paulo.

Logo no primeiro semestre do curso, começou a pandemia da Covid-19 e a gente teve que ficar em casa. No início, a gente não tinha aula on-line. Isso foi muito difícil, porque eu tinha acabado de aprender uma língua nova e precisava praticar. A pandemia também foi muito difícil pelo fato de eu estar longe da família e com a angústia de que algo acontecesse comigo ou com eles.

Quando voltei às aulas presenciais, senti que a minha turma foi muito acolhedora, muito gentil. As pessoas estavam sempre à disposição para me ajudar, compartilhando resumos das aulas, inclusive. Nesse tempo que estou aqui, apesar de não ser acostumada a sair muito, conheci um pouco do Estado e pude visitar outros 17 Estados do Brasil, para conhecer e aproveitar as belezas do país.

Em comparação ao meu país, acho que aqui é um lugar mais perigoso. Ainda não me acostumei a viver no Brasil por conta da violência e dos preconceitos. Eu não me sinto em casa. Você entra em algum local e todo mundo está te olhando, como se perguntassem o que eu estou fazendo ali. As pessoas nos julgam pela cor de pele e isso é muito difícil. No início, machucava mais. Não digo que me acostumei porque, com isso, não é possível acostumar-se.

Antes de vir para cá, tinha que racismo era uma palavra de dicionário: é uma coisa que eu sabia a definição, mas que não fazia muito sentido para mim e para minha vivência. Mas aqui, no Brasil, eu soube bem o que é.

Por ser imigrante, também recebo perguntas como: 'Na África todo mundo sofre, né?', 'Você veio aqui por quê?' e 'No seu país, tem guerra?'. Tem até pessoas achando que África é um país, sem nem saber que é um continente. Eu acho a educação brasileira ótima, muito boa em formar os profissionais, e lá fora a medicina brasileira é muito conhecida. Hoje estou no 10º período. Tenho vontade de voltar para o meu país, muito por ter orgulho e amor pelo Gabão. Quero fazer uma especialização e exercer a Medicina lá."

Nascida no Gabão, é estudante de Medicina na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes)

Genesa Fairana Godeline Essali, nascida no Gabão e estudante de Medicina na Ufes
Genese Fairana enfrentou dificuldades com o idioma e a pandemia na chegada ao Espírito Santo Crédito: Acervo pessoal
Genesa Fariana, nascida no Gabão, estudante de Medicina na Ufes
Genese Fariana está no 10º período de Medicina na Ufes e quer exercer a Medicina no Gabão Crédito: Acervo pessoal

Jair Adriano Lima Silva

Vim estudar no Espírito Santo em 1997, com 19 anos. Na época, o Brasil já tinha um acordo de cooperação com Cabo Verde e outros países da África e América do Sul. Eram abertas duas vagas anuais por curso. Vim com o objetivo de fazer Engenharia Elétrica. Depois da graduação, fiz o mestrado, gostei da pesquisa e fui fazer também o doutorado.

Findo o doutorado, prestei concurso para trabalhar na Ufes no mesmo departamento em que havia me formado e, desde 2012, sou professor. Antes de terminar o doutorado, também trabalhei um tempo como professor do Ifes (Instituto Federal do Espírito Santo). Quando passei no concurso público, tentei a nacionalização brasileira, que na época não foi aceita pelo Ministério do Trabalho. Concomitantemente a isso, me casei com uma brasileira e fui nacionalizado.

Naturalmente, o que eu sinto mais falta no meu país é a minha família e dos muitos amigos que eu tenho lá. Meus pais e minhas irmãs estão em Cabo Verde, embora eu já tenha trazido outros três irmãos para o Brasil. Somos quatro da família aqui, mas, ainda assim, não é a mesma coisa.

Ser estrangeiro não é algo agradável, por mais que eu soubesse que os estudos iriam me proporcionar um futuro melhor do que se não tivesse estudado. Porém, perco a vivência com outros membros da família, principalmente a minha mãe, e o crescimento dos sobrinhos.

Eu não vou a Cabo Verde com muita frequência. Antigamente, havia voos diretos para o país que duravam 3h30 a 4h de viagem e, por isso, as passagens eram mais baratas. Hoje em dia, se eu quiser ir para lá, tenho que ir para a Europa antes. O custo dessas passagens atualmente varia entre R$ 9 mil a 12 mil. Tendo esposa e filho, o valor fica ainda mais caro.

É claro que racismo existe em todo lugar do mundo, mais em uns do que em outros. A percepção de racismo eu tive desde quando estava em Cabo Verde, mas bem diferente do que é aqui. Fui educado a entender desde cedo que, se tenho um colega ou se alguém no meu redor é racista, a gente diz que pessoa tem que se tratar. Em um país pobre onde não existe essa diferença na distribuição de renda igual aqui no Brasil e tampouco de poder, não tem como alguém fazer algo contra você.

Quando cheguei à Ufes em 1997, quase não havia negros, menos ainda no Centro Tecnológico. A maioria dos negros no CT eram imigrantes africanos. Nessa época, ainda não havia política de cotas para negros na Ufes, mas já existia cota para estrangeiros.

Antes de vir para cá, fiz uma pesquisa e encontrei que a maioria da população brasileira era negra. Então, pensei que fosse me sentir em casa. Ao chegar aqui, em 1997, morei numa república em Jardim da Penha e não via pessoas negras andando na rua.

Outra coisa que me chamava a atenção foi o quanto éramos parados pela polícia nas blitze. A gente ficava desesperado quando esquecia o documento que nos identificava como estudantes da Ufes, já que éramos sistematicamente abordados. Quando eles viam o documento de estrangeiro, diziam para a gente 'seguir nosso caminho'. Mas era uma coisa que nos entristecia, já que não estávamos fazendo nada de errado.

Com o tempo, comecei a estudar, a conversar mais sobre isso e conviver com outros alunos que também passavam por essa situação e fui percebendo que não era para ser assim. Outra coisa que eu achava complicado era que, muitas vezes, a gente escutava que nós só podíamos nos relacionar com mulheres pretas e não com brancas. Via nisso algo discriminatório.

Com o meu trabalho, tive a oportunidade de fazer visitas e estágios técnicos na Holanda, com uma colaboração que a Ufes tem com universidades de lá. Então, usufrui disso para me capacitar mais e também trocar experiências. Eles vieram para cá. Então, a gente faz projetos em colaboração. De 2015 a 2019, atuei em um cargo na Superintendencia de Relações Internacionais da Ufes, por ter esse perfil de ser um professor estrangeiro. Ao mesmo tempo, continuei com o meu trabalho, dando aulas, fazendo pesquisas no Laboratório de Telecomunicação e desenvolvendo tecnologias para 5G e projetos de extensão.

Estou junto com a minha esposa há 14 anos e meu filho tem 9 anos. Tenho orgulho de ser funcionário público, professor, pesquisador e vice-coordenador do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Elétrica da Ufes, que é um dos melhores do Brasil e onde pude fazer minha história com o mestrado e o doutorado. Pretendo continuar desenvolvendo minha pesquisa e uma coisa que ainda não fiz e gostaria de fazer é desenvolver de forma mais prática uma colaboração com Cabo Verde."

Nascido em Cabo Verde, é professor de Engenharia Elétrica na Ufes e membro do grupo de Pesquisas em Telecomunicações

Jair Adriano Silva, Nascido em Cabo Verde, é professor de Engenharia Elétrica na Ufes
Jair Adriano Silva é professor da Ufes desde 2012 Crédito: Acervo Pessoal
Jair Adriano Silva, Nascido em Cabo Verde, é professor de Engenharia Elétrica na Ufes
Jair Adriano Silva em viagem com a família Crédito: Acervo Pessoal

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